Transcrição Ex Libris – S01e14

[Tecnologia] – O sol, o homem e os plásticos.

E não é que – aparentemente – o homem descobriu como usar o sol para desfazer o que ele fez de bobagem nas últimas décadas?

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 14º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que o Ex-Libris esteja atendendo suas expectativas. Espero também ansioso sua opinião para saber se estou no caminho certo. Assim, dê um pulo lá no idigitais.com e deixe seu comentário no post deste episódio, ou na sua transcrição ou ainda envie um email para idigitais@gmail.com.

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Se você utilizar outro serviço, basta copiar o rss disponível e colar em seu aplicativo. Todo os links estão publicados na 1ª página do idigitais.com. Ah sim, estava esquecendo… se você quiser ainda ler a transcrição ela está lá no idigitais.com ou no medium/@sergiovds.

Pois é gente… falhei uma semana p’ra gravar, me atrapalhei todo na edição e estou completamente atrasado. Começa a partir de agora o Ex-Libris sobre Tecnologia de 20 de nov de 2018.

Hoje eu falo sobre o sol, o homem e os plásticos, ou em modo mais direto:
E não é que – aparentemente – o homem descobriu como usar o sol para desfazer o que ele fez de bobagem nas últimas décadas?

Agora em Agosto de 2018 foi publicado um artigo instigante – na Royal Society of Chemical Energy & Environmental Science, pelos pesquisadores Taylor Uekert, Moritz Kuehnel, David Wakerley e Erwin Reisner – que tem por Abstract, ou como sumário, o título: Resíduos plásticos como matéria-prima para a geração de hidrogênio molecular a partir da energia solar.

Se fosse um brasileiro o título do “paper” seria algo como: Como produzir hidrogênio combustível a partir de certos plásticos, o “pulo do gato” e a energia solar.

Mas aqui, hoje não é brincadeira… parece que a coisa é seria, por enquanto… estou aguardando as refutações ao artigo. E, esse Abstract prossegue:

A transformação dos plásticos por irradiação solar oferece um meio simples e de baixo consumo de energia para transformar resíduos em hidrogênio molecular. Aqui, nós relatamos a foto-transformação eficiente de três polímeros comumente produzidos – ácido polilático, polietileno tereftalato (PET) e poliuretano – usando pontos quânticos de sulfeto de cádmio cobertos com ácido oleico, de baixo custo de produção, em solução aquosa alcalina.
Este processo opera sob temperatura e pressão ambientes, gera hidrogênio molecular puro e converte o polímero residual em produtos orgânicos, como formiato, acetato e piruvato. Além disso, validamos a aplicabilidade real do sistema convertendo uma garrafa de água feita de PET em hidrogênio molecular. Esta é a primeira e transparente demonstração de foto-transformação de plástico livre de utilização de metais nobres.

O link deste artigo encontra-se na transcrição deste episódio no idigitais.com ou no medium.com/@sergiovds. Infelizmente o artigo é restrito, mas dá uma futricada no Google tem até vídeo, olha o link lá na transcrição deste podcast.

[  ] Aqui abro um parênteses para esclarecer:
O polietileno tereftalato (o famoso PET), é um polímero termoplástico, formado pela reação entre o ácido tereftálico e o etileno glicol. O PET é utilizado principalmente em embalagens para bebidas e na forma de fibras para tecelagem.

É um poliéster por possuir o grupo funcional éster na sua cadeia principal, e pode ser reprocessado diversas vezes. Com a melhoria da qualidade de produção e reciclagem do PET, surgiram aplicações importantes, como tecidos, lâminas e embalagens para produtos alimentícios.

O ácido polilático (ou poliácido láctico ou ainda PLA) é um polímero constituído por moléculas de ácido láctico, com propriedades semelhantes às do PET e que é utilizado para fabricar também vasilhames ou envases, mas que também é biodegradável. Degrada-se em água e dióxido de carbono.

O poliuretano (ou PU) é um polímero que compreende uma cadeia de unidades orgânicas unidas por ligações uretânicas. É amplamente usado em espumas rígidas e flexíveis, em elastômeros duráveis e em adesivos de alto desempenho, em selantes, em fibras, vedações, gaxetas, preservativos, carpetes, peças de plástico rígido e tintas.

Por meio de operações nanotecnológicas o pesquisadores conseguem sintetizar pontos quânticos de Sulfeto de Cádmio cobertos com ácido oleico, que é um ácido carboxílico.

Explicando esta última frase: O ponto quântico é uma região semicondutora (ou metálica) tão pequena que é essencialmente confinada em todas as nossas três dimensões espaciais; como um átomo, contém um número finito de cargas e possui níveis discretos de energia. Por isso é chamado de átomo artificial…

Veja o link na transcrição desde episódio para uma explicação bem melhor que essa minha tentativa aqui.

E o ácido oleico é carboxílico por quê? Porque possui um grupo funcional COOH. Ácido oleico é um ácido graxo de cadeia longa possuindo 18 carbonos na sua estrutura. Por possuir uma dupla ligação entre os carbonos ele é chamado de ácido graxo insaturado.

Os ácidos graxos são uma classe de compostos orgânicos que constituem os lipídeos, os quais são vitais na construção da membrana celular, estando presentes na epiderme, os quais protegem e fazem parte da barreira da pele evitando a sua desidratação, por perda de água trans-epidérmica. O ácido oleico é um ácido graxo (ômega 9), o qual participa do nosso metabolismo, desempenhando um papel fundamental na síntese dos hormônios.

Por sinal, por ser velho e ter usado muito produto esfoliador e básico em minha pele (principalmente nas extremidades de meus membros superiores e inferiores) devido aos banhos intermináveis na água quente e sabonetes, perdi parte da barreira trans-epidérmica e agora preciso usar um creme oleico caro bagaray para não desenvolver foliculite sem mais nem menos e ter que apelar para bactericidas específicos. Acredita? Banhos em excesso e ao longo de décadas fazem mal ao seu maior órgão. Fale com o seu dermatologista.

Agora que a turma de química e biologia se divertiu pelas bobagens que falei e o restante deve estar desligado o player, vamos para o assunto de verdade.
[ ] Fechando o parênteses que abri lá atrás.

Toda esta verborragia técnica anterior significa: Cientistas britânicos descobriram um processo barato baseado na luz do sol para transformar resíduos de plástico em hidrogênio em questão de horas!

Algumas produtoras de polímeros – como a Dow Chemical; a Lyondell Basell; Exxon Mobil; a SABIC; INEOS; BASF (conhecida aqui como BASF); ENI; LG Chem; a Chevron Phillips, que juntas faturam coisa de 560 bilhões de dólares por ano – devem estar felizes da vida (vai dobrar o mercado).

Na transcrição do episódio eu mostro o faturamento anual e o faturamento por funcionário de cada empresa – se você quiser comprar ações, é claro.

  • Dow Chemical – EUA: faturamento bruto anual de $49 bi (US$1 mi/func)
  • Lyondell Basell – Holanda: US$ 33 bi (US$ 2,6 mi/func)
  • Exxon Mobil EUA: $236 bi (US$ 3,2 mi/func)
  • SABIC – Arabia Saudita: US$ 35.4 bi (US$ 0,88 mi/func)
  • INEOS – multi sede na Suiça: US$40 bi (US$ 2,4 mi/func)
  • BASF – Alemanha : US$ 63.7 bi (Us$ 0,57 mi/func)
  • ENI – Italia: US$ 61.6 bi (US$ 1,9 mi/func)
  • LG Chem – Coreia do Sul: US$ 17.8 bi (1,28 mi/func)
  • Chevron Phillips – EUA: US$13.4 bi (2,7 mi/func)

Rápido esclarecimento antes que alguns comecem a jogar pedras: muitos dos plásticos eventualmente começam a se decompor quando são imersos em água e/ou expostos à luz solar, mas este processo pode levar anos, centenas, às vezes milhares de anos.

Então… a beleza desse caso é que pesquisadores britânicos conseguiram acelerar essa reação usando um fotocatalisador.
Tadá!!!

… Cadê a música do De Volta para o Futuro 2?

Voltando a seriedade científica. Os cientistas britânicos Taylor Uekert do laboratório Reisner da Universidade de Cambridge na Inglaterra e seus colegas, Moritz, David e o chefão que dá o nome ao laboratório, Erwin Reisner, desenvolveram um processo simples baseado no espectro eletromagnético da luz solar para degradar resíduos de alguns tipos de plásticos abundantes nos lixos urbanos, industriais e rurais em hidrogênio molecular, portanto, combustível e produtos químicos úteis, na realidade moléculas orgânicas.

A foto-transformação de álcoois simples para produzir hidrogênio tem sido pesquisada extensivamente, mas este processo se mostrou muito caro – até agora.

Esses pesquisadores loucos, como diria Asterix – e de acordo com o artigo publicado – usaram resíduos plásticos como uma alternativa abundante e barata aos álcoois.

Os plásticos são mais difíceis de transformar por causa de suas estruturas complexas, baixa solubilidade em água e baixa biodegradação, considerando o tempo humano.

Queremos usar lixo não-reciclável e fazer algo útil com isso. O lixo plástico contém muita energia e quando você o joga fora, você joga fora a energia. Mesmo quando se usa plásticos biodegradáveis, e os resíduos não são gerados, a energia nesse plástico ainda é perdida

diz Moritz Kuehnel, da Universidade de Swansea.

O processo, chamado “photoreforming”, é razoavelmente simples considerando o estado da arte da nanotecnologia. Coloca-se o foto-catalisador no plástico – toda a descrição está no paper  disponível no link deste episódio – e depois mergulham o plástico já com o foto-catalisador em uma solução alcalina.

É quase igual ao que acontece quando a sua mãe coloca aquele seu tênis branco imundo em uma bacia com sabão de côco e cândida sob o sol.

Só aqui a coisa é um pouco diferente… os ingredientes são outros e os pontos quânticos de cádmio não são maiores que cinco nanômetros de diâmetro – 100 mil vezes menor que o diâmetro de um fio de cabelo humano – o que lhes dá uma enorme quantidade de área de superfície, nanometricamente falando, tornando o catalisador extremamente eficiente.

Complementando, a irradiação com a luz solar reduz a água da solução para o hidrogênio, enquanto os polímeros plásticos oxidam – ou seja, ligam-se aos átomos de oxigênio – simultaneamente em pequenas moléculas orgânicas.
Todo o processo pode ser feito à temperatura e pressão ambientes, o que contribui para a sua relação custo-benefício.

Parece quase uma fusão a frio, né?
Quem não sabe sobre fusão a frio dá uma pesquisadinha no Google

O grupo testou o sistema foto-transformador em três polímeros comuns, como já citado lá no abstract do artigo e no início deste podcast: PET PLA e PU. Os resultados foram compatíveis com os sistemas de fotocatálise do hidrogênio de última geração, e que até o momento, empregavam reagentes extremamente caros, inviabilizando a aplicação.

Dispor adequadamente os plásticos e reciclá-los em novos produtos ​​requer materiais puros e limpos. Sempre foi um problemão – para os adeptos da conduta politicamente correta – a busca do “passo ecológico” quando consideradas as quantidades de energia e água potável utilizadas na preparação do descarte do resíduo plástico.

Vamos descontar a bronca 1ª sobre a produção estúpida de plásticos, e em 2º lugar a irritação com o pessoal que descarta plásticos velhos, onde os plastificantes e outros produtos já estão se decompondo – certeza que você já pegou um saquinho plástico e achou que ele estava engordurado… nada disso, era apenas plastificante seguindo seu curso natural de entropia.

Caso você ainda não saiba, os plásticos com decomposição de plastificantes e contaminados com alimentos ou óleo são quase impossíveis de reciclar, porque essas impurezas interferem nos processos tradicionais de reciclagem. Mas como diz um dos pesquisadores que desenvolveram este processo, isso não é um problema para o método proposto por eles:

Uma das belezas da nossa abordagem de foto-transformação é que ela não é muito exigente, basicamente o processo consome tudo o que está lá na mistura.

A equipe demonstrou a aplicabilidade do processo ao desperdício do mundo real, aplicando o método deles em uma garrafa de plástico PET comum, do lixo, transformada em hidrogênio e em algumas moléculas orgânicas com uma eficiência comparável a alcançada com polímeros puros, caros e altamente controlados.

O Professor Reisner declarou:

O plástico usado contém uma grande quantidade de energia armazenada que está sendo jogada fora. Nosso trabalho mostra que podemos usar recursos abundantes como resíduos plásticos e luz solar para criar hidrogênio combustível e produtos químicos orgânicos de forma sustentável. Continuaremos a investigar maneiras de melhorar nosso processo estudando uma ampla gama de substratos de polímeros e foto-catalisadores, e avaliaremos sua viabilidade econômica no futuro próximo.

Comentário rápido: o professor, chefe do laboratório deu a dica: põe dinheiro que a gente acha a saída.

Taylor Uekert, estudante de doutorado e primeiro autor do artigo, acrescentou:

O lixo plástico é uma questão global: mais da metade de todos os plásticos produzidos desde 1950 foram jogados fora, e a reciclagem ainda é difícil ou economicamente inviável para alguns tipos de plástico. E se pudéssemos encontrar uma maneira de usar esses recursos para que eles não estejam mais poluindo nosso planeta? Essa foi a pergunta que inspirou esse trabalho e estamos realmente empolgados em mostrar que podemos transformar resíduos de plástico em algo útil (hidrogênio no caso) usando apenas uma fonte de energia renovável (luz solar).

Foi um grande alívio que funcionou – diz Moritz Kuehnel – quando você faz provas de conceito, você tende a trabalhar com materiais purificados, mas se você usa o lixo do mundo real nunca é assim, você não tem um plástico puro e mesmo em uma garrafa de plástico há plastificantes, estabilizantes, revestimentos e todos os tipos de produtos químicos, por isso ficamos muito surpresos que poderíamos utilizar lixo real tão bem quanto os plásticos dos fornecedores de produtos químicos. Estávamos preocupados que os estabilizantes nos impedissem de usar resíduos reais ou causassem uma queda enorme no desempenho.

O artigo obviamente já repercutiu de modo interessante na comunidade dos pesquisadores da área: Shaohua Shen, pesquisador em geração de hidrogênio solar baseado em nanomateriais da Universidade de Jiaotong na China, comentou:

Este processo demonstrou seu grande valor ambiental e econômico no mundo real, dado seu potencial significativo em converter uma enorme quantidade de resíduos plásticos para produzir produtos químicos e combustíveis valiosos.

Enquanto isso no próprio Reino Unido: Jan Baeyens, especialista em reciclagem de plásticos da Universidade de Warwick, mais cético, fleumático e britânico possível, diz que

O trabalho se enquadra perfeitamente no estado-da-arte da pesquisa da foto-catálise no espectro da luz visível quando do manuseio dos resíduos plásticos sólidos para a geração de hidrogênio. Porém, mais pesquisas sobre os polímeros de resíduos sólidos de plástico a granel e sobre a melhoria da tecnologia para ser mais economicamente viável ainda são necessárias.

Após esta última declaração, humildemente, eu como engenheiro eletrônico, e desconhecedor do tema, aponho minha singela opinião… Pô Jan!

Kuehnel enfatiza a fala de Reisner confirmando que ele e seus parceiros continuarão trabalhando para ampliar o processo e aplicá-lo a outros tipos de resíduos.

Nossa visão é que essa será uma maneira adicional de tratar o lixo não reciclável. Poderíamos ampliar o processo e usá-lo para tratar os restos de resíduos em uma usina de reciclagem. Em última análise, talvez as pessoas pudessem tratar seus próprios resíduos de plásticos em seu quintal, com um dispositivo de transformação acionado por irradiação solar. Você coloca o seu lixo plástico nele e obtém hidrogênio para aquecer sua casa ou abastecer o seu carro.

Mesmo um DeLorean DMC-12.

Por fim não posso deixar passar esta informação: fechando este roteiro descobri que o departamento de química de Cambridge não para de aplicar na reciclagem de resíduos através da nanotecnologia utilizando catalisadores baratos para extração de hidrogênio molecular.

Veja o link indicado na transcrição sobre o artigo no Journal of the American Chemical Society de 28 de agosto, que tem como título: Photoreforming of Lignocellulose into molecular Hydrogen Using Nanoengineered Carbon Nitride under Benign Conditions, pois é, eles estão indo fundo.

O Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro, hoje sobre Tecnologia, acabou. 
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Ex-Libris, inteligência com propriedade.

Transcrição Ex Libris – S01e13

[Ciência] – Uma tal de proteína tau

Como algo descoberto há 43 anos só agora permite um possível avanço na farmacologia para certas doenças neurodegenerativas.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 13º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura.  E fique tranquilo a cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que o Ex-Libris esteja atendendo as suas expectativas. Para eu saber se estou acertando eu preciso ouví-los também. Assim, aguardo sugestões, dê um pulo lá no idigitais.com e deixe seu comentário no post deste episódio, ou na sua transcrição, ou ainda envie um email para idigitais@gmail.com.

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Uma tal de proteína tau ou como algo descoberto há 43 anos só agora permite um possível avanço na farmacologia para certas doenças neurodegenerativas. 

Uma das chamadas “áreas quentes” de pesquisa em biologia, ou seja, um dos temas que estão em alta nos laboratórios do mundo, aguçando mentes, egos – e por que não dizer – a lucratividade, é a busca dos mecanismos que provocam as doenças neurodegenerativas. Projeta-se que cerca de 50 milhões  de pessoas sofram atualmente de doenças neurodegenerativas no mundo.

O paradoxo do desenvolvimento da biotecnologia nos trouxe este imenso desafio: o aumento expressivo da expectativa de vida da população revelou uma situação até o momento avassaladora – o risco de alguém com 75 anos ou mais de desenvolver uma doença neurodegenerativa é de cerca de 20% e aos 85 anos o risco dobra.

Explicando melhor “doença neurodegenerativa” é um termo genérico para uma série de doenças que afetam os neurônios do cérebro humano. Neurônio, por sua vez, é a unidade-base do sistema nervoso, é a célula responsável pela condução do impulso nervoso. Há cerca de 86 bilhões de neurônios no sistema nervoso humano (cérebro e medula espinal). 

Normalmente os neurônios não se reproduzem nem se substituem e, desta forma, quando sofrem lesões ou morrem não podem ser substituídos. A doença de Parkinson, o Alzheimer e a doença de Huntington são alguns dos exemplos de doenças neurodegenerativas. Essas doenças são, até o momento, incuráveis e extremamente debilitantes que têm como consequência a degeneração progressiva e/ou a morte dos neurônios. Causam assim problemas de movimento (ataxias) ou de função mental (demências).

As demências são as responsáveis pela maior carga da doença, com o Alzheimer representando aproximadamente 60 a 70% dos casos. Ainda há outras doenças neurodegenerativas que encontram-se na “alça de mira” da comunidade científica, além das já citadas Parkinson, Alzheimer e Huntington: a encefalopatia espongiforme transmissível; as doenças do neurônio motor (DNM); a ataxia espinocerebelosa (AEC); e a atrofia espinal muscular (AEM).

Para o que vou abordar aqui, em resumo, as doenças neurodegenerativas são caracterizadas pela morte de certos neurônios, onde as doenças de Alzheimer e de Parkinson são doenças que pertencem a uma classe particularmente importante de neuropatologias: as chamadas taupatias, que nada mais são do que doenças causadas – pelo menos em parte – pelo acúmulo anormal da proteína chamada tau nos neurônios. 

Essa proteína tem a função básica de estabilizar estruturas do neurônio, são abundantes no sistema nervoso central e foi descoberta em 1975 no laboratório de Marc Kirschner na Universidade de Princeton. Desde então inúmeros pesquisadores analisaram a danada da proteína. Com a descoberta da relação de sua quantidade em certas neuropatias a “luz vermelha” acendeu. O que e é e como acontece isso?

Há alguns anos um grupo de pesquisadores das universidades de Cambridge, no Reino Unido, e Indiana, nos Estados Unidos, debruçaram-se sobre o problema, e parece que eles finalmente obtiveram algumas soluções para esta questão, solução publicada agora em agosto de 2018 na revista Cell Reports. 

Para tanto os cientistas tiveram que inventar um método para detectar os filamentos da proteína tau de forma eficiente e segura. E para alcançar esse objetivo, ratinhos de laboratório tiveram seu gene tau (não “genitais” gente) o gene tau  mutado para produzir filamentos em quantidade muito maior que o normal, o que levou os pobres ratinhos a desenvolverem doenças neurodegenerativas numa idade muito precoce. Mas também possibilitou a localização e análise controlada destes filamentos.   

Os pesquisadores puderam ver que a formação dos filamentos levou à eliminação dos neurônios de uma maneira inexorável, embora lenta. A eliminação foi devida à atividade de células sentinelas, que são células fagocitárias, ou seja, células que comem células danificadas, além de microorganismos que podem causar uma infecção.

O cérebro contém numerosas células sentinelas. Os pesquisadores verificaram se as células sentinelas eram responsáveis ​​pela remoção da fagocitose de neurônios com filamentos de proteína tau em abundância.

Para isso, a primeira coisa que eles pesquisaram é se os neurônios com filamentos dessa proteína emitem os sinais moleculares para indicar que estão danificados e devem ser fagocitados.

Os estudos realizados pela equipe de pesquisadores mostrou que é isso que acontece. Neurônios doentes, ou seja, com inclusões de filamentos de proteína tau têm sua sua membrana modificada, de modo a expor uma molécula, que no caso das células saudáveis ​​é mantida energeticamente dentro da membrana do neurônio. Esta molécula exposta pela alteração da membrana devida a proteína tau constitui um sinal para ativar a fagocitose pelas células sentinelas. E aí o neurônio bau-bau… é atacado e fagocitado.

Ao mesmo tempo, os neurônios doentes também produzem moléculas que ajudam a sua própria fagocitose.

Estes estudos indicam, portanto, que não é o acúmulo de proteína tau que causa diretamente a neurodegeneração, mas sim o próprio processo de defesa do cérebro contra os neurônios danificados, mas que ainda funcionam, o que pode acelerar a morte neuronal.

Este novo conhecimento abre a porta para a investigação de novos tratamentos farmacológicos que diminuam os processos de fagocitose enquanto se pesquisa um meio de parar a agregação dos filamentos de proteína tau.

Aguardemos o desenvolvimento dessa pesquisa e torçamos para que em breve haja bons resultados. E lembrando, pesquisa básica é isso mesmo, algo persistente, repetitivo e de longo prazo.

Source: Cell Reports, Vol. 4, issue 8, P1939-1948 E4, August 21, 2018

 

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Saúde, paz, grato pela companhia e até a próxima.

Ex-Libris, inteligência com propriedade.

Transcrição Ex Libris – S01e12

[Comportamento Humano] – Porque sua vida social está uma porcaria.

Como as mídias sociais não parecem ser o melhor ambiente para você ampliar seu conhecimento e suas virtudes, tais como empatia e sociabilidade.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 12º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que o Ex-Libris esteja atendendo suas expectativas. Para eu saber se estou acertando eu preciso ouví-los também. Assim, aguardo sugestões, dê um pulo lá no idigitais.com e deixe seu comentário no post deste episódio, na sua transcrição ou ainda envie um email para idigitais@gmail.com.

O Ex-Libris está disponível em 11 agregadores e serviços: Anchor.fm; Apple Podcasts; Breaker; Castbox; Google Podcasts; OverCast; Pocket Casts; RadioPublic; Spotify; Stitcher e a novidade: Youtube. O endereço rss e todos os links estão publicados na 1ª página do idigitais.com. Começa agora o Ex-Libris sobre Comportamento Humano de 30 de out de 2018, de novo um pouco atrasado. 

Porque sua vida social está uma porcaria ou Como as mídias sociais não parecem ser o melhor ambiente para você ampliar seu conhecimento e suas virtudes, tais como empatia e sociabilidade.

O sucesso das ações de marketing político nas mídias sociais lá na 1ª eleição do Obama já sinalizava para muita gente que este tipo de atividade (marketing político massivo por intermédio de redes sociais) serviria também para outras coisas bem menos honestas. A eleição do Trump mostrou o caminho e a do Bolsonaro demonstrou a efetividade da neo-verdade.

Aquele papo de verdade adequada ao senso de necessidade humana que uma turminha aí chama de pós-verdade foi destruído pela redescoberta de que pessoas sem senso crítico engolem qualquer informação distribuída por redes sociais, e pior, sentem-se compelidas a redistribuir àqueles que acompanham seu perfil.

Como não há fatos e sim versões – principalmente as suas próprias versões, adequadas às suas crenças – tais difusores atuam como amplificadores vorazes daquilo que concordam, da sua verdade. Se o gerador de tais versões é estruturado e múltiplo, ainda maior o poder de inundar milhares de bolhas de influência. Mas, para tal método funcionar com maior efetividade deve-se ter uma polarização muito bem definida, assim a versão difundida contrapõe com a verdade (ou não), validando o pertencimento ao grupo correto, validando o ego: Nós sabemos o que é real, o que é bom, o que é adequado e o que não destrói a crença pessoal, seja ela em Noam Chomsky ou Papai Noel.

Muitos, como eu, sentem-se profundamente incomodados pela avalanche de bobagens que transbordam pelos canais de mídias sociais.  Os mais habilitados nas funções de restrição que as redes sociais fornecem, filtram os temas e os usuários eliminando boa parte da astronômica quantidade de lixo e chorume pseudo informativo que circula pela internet.

[Parênteses]  – Cansei de afirmar ao longo de pelo menos uma década e meia, que internet não é um meio, não é um canal de comunicação, a internet é uma linguagem nova, mundializada e ainda eivada de preceitos e pré-conceitos culturais, ainda repleta de pesos e contrapesos que não permitiram uma consolidação apropriada. Alguns poucos arranham o que chamo linguística da internet. Basicamente é o que estou fazendo aqui hoje. [fechando o parênteses e retornando o fio-da-meada]

Mesmo habilitado a filtrar o que se recebe é necessário ao usuário compreender todas as regras que estes serviços e aplicativos exigem. Além do estudo e controle de como eles se comportam, é imprescindível a habilidade em conceitos complexos de regras boleanas e/ou digitais próprias da Internet, travestidas de frases dúbias e complexas (seja em inglês ou português) para um usuário comum, como, por exemplo: 

Como começar – Você pode iniciar o rastreamento de conversões em duas etapas: 

  1. Crie uma website tag. 
  2. Instale a website tag em seu website.

Para que serve uma rede social que num extremo te enche de informação completamente inútil, seja por baixo valor agregado (tipo “bom dia família” e a inefável foto de bebês vestidos de anjinhos ou da Virgem Maria que circulou em 2005), seja por valor moral ou culturalmente equivocado (nem vou dar exemplos aqui) e no outro extremo por notícias falsas que podem levar pessoas à morte? (aqui eu dou exemplo sim: os malucos anti-vacinas ou veganos que inventam dietas inadequadas para crianças).

Para que serve uma rede social em que qualquer informação – ponderada, calcada em fatos amplamente comprovados por dezenas de fontes fidedignas e/ou métodos científicos – é refutada em nome de Jesus, Pastor Jessé, Zaratustra, por um familiar distante ou um conhecido do conhecido, ou pior ainda, uma rede que inunda sua página pessoal no Facebook com  várias centenas de pessoas desconhecidas que apenas refutam (com falácias ou lógica) o comentário do refutador anterior? 

Boa parte das pessoas creem que o lapso temporal – do ato de refutar em texto algo que interpretou de uma leitura  anterior – as desvencilham do diálogo, do esclarecimento e da empatia social. Isso quando interpretam o texto e avaliam o contexto. Na maioria das vezes as pessoas se atém a uma frase específica, cuja contrariedade ao seu herói, à sua crença ou ao seu desejo, sua paixão, é o único fator existente. Aí não há lógica que suporte o social da mídia.Esses serviços e aplicativos deveriam se chamar Extreme Fight Channel e não Social Media.

Apesar das críticas que muitos fazem às redes sociais (sejam pessoas comuns como eu, ou pensadores, ou você, ou governos), poucos usuários tomam a decisão de apagar as suas contas. Eu já cometi “facebookcídio” uma vez… fui iludido a retomá-lo, e agora estou preso por uma decisão comercial muito equivocada.

O Twitter continua com seus cerca de 300 milhões de perfis, o Facebook tem mais de 2,2 bilhões de pessoas  (PQP quase 1/3 dos seres humanos têm um perfil no serviço), e o Instagram segue crescendo e já passa dos 500 milhões contas. Aqui eu gostaria de notabilizar (no sentido neutro da palavra) a saúde e a capacidade de crescimento da máquina de manipulação de Mark Zuckerberg. Falando em máquinas de manipulação, nenhuma religião, língua ou cultura são tão difundidas globalmente como o Facebook. A única outra ferramenta da Internet que sobrepuja em números esse site criado para ser um Tinder de  universitários é o e-mail, com mais de 5 bilhões de contas. Mas o que me chama atenção da avaliação atual de seus números e projeções sócio-tecnológicas é que o Facebook pode crescer ainda mais. Há países que ele já dominou… Seus dados por continentes e por faixas etárias já eram disponíveis, mas pela primeira vez um estudo dá os números detalhados de usuários por país, de suas idades específicas e gênero e do uso diário ou mensal. Além de impressionar os números dão a dimensão de um futuro um tanto caótico, eu diria distópico.

Exceto em casos como China, Coreia do Norte, Irã e Síria, onde sua presença, de qualquer modo, é proibida, e de alguns bilhões de centro-asiáticos e africanos, a base do império do Mark abrange mais de 200 países (já, já a FIFA perde a hegemonia com seus 212 países. Na sua base de atuação principal, ou seja nos países desenvolvidos, o “Feice” – como a gente chama por aqui – não fraqueja, nem demonstra sinal de queda no uso. Estabilidade é a definição atual. Na visão de alguns analistas “Além de ativo e estável, o Facebook possui capacidade de crescimento e está na renovação contínua de suas funções básicas”. No Brasil e América Latina, há um ano, o Facebook busca a renovação e reestruturação de toda sua base comercial e de evangelização empresarial – deixo os comentários sobre estas informações para o Cris Dias.

O método de ganhar dinheiro do Mark é simples (em tese) e de uma implementação complexa e cara “p’ra burro”. A maquininha digital oferece aos seus anunciantes um aplicativo com centenas de opções fornecidas por seus usuários, ou seja dados pessoais, geográficos e de gostos afins, dados estratificados e massivos, bem definidos possibilitando a venda de e para um público bem mais definido também. O aplicativo permite uma infinidade de análises, como p. ex., avaliar comportamentos pelo seu “lugar de residência”, mas também pelo “lugar atual” ou quando você está “em viagem”. Percebeu a audácia do sistema? 

Na maioria do continente africano e da Ásia Central, a presença do Facebook é abaixo de 30% entre os maiores de 13 anos, a idade mínima legal para criar uma conta na rede em alguns países. Lembro quando aqui era 18 anos. Atualmente para ter conta no Instagram é preciso ter 16… Para continuar crescendo, o Facebook precisa de mais usuários potenciais, adivinha aonde? Claro, na África e na Ásia Central. Nos países desenvolvidos o crescimento é orgânico, tudo funciona desde a infraestrutura até superestrutura. Para crescer o Mark precisa que a Internet chegue até os usuários, assim, a companhia investe em infraestrutura de Internet na África e nos outros paísesda Ásia Central.

Desde 2015, a ferramenta principal de interseção infra e superestrutura da corporação é o Free Basics, um aplicativo desenvolvido pelo Facebook que dá acesso, sem precisar pagar dados no celular, a uma seleção de sites sem fotos nem vídeos em dezenas de países. O Facebook tem um acordo com a Internet Society para levar pontos de troca de tráfego (IXPs, na sigla em inglês) aos países africanos cuja Internet ainda depende de infraestrutura além das suas fronteiras, o que obviamente não permite uma conexão de dados decente. Nos países subdesenvolvidos, ele cresce mais em zonas urbanas, com muita gente empregada. Esse é seu viveiro de potenciais usuários.

Na Noruega apenas 12% da população não tem conta no Facebook, 2% o acessa sem constância e os demais 76% diariamente. 

Se o jovem Soren Johannsson conquistar 2 milhões de assinantes para seu canal no Facebook ele faz a fortuna na Noruega, pois ele conseguirá atingirá 50% dos usuários. 

Nota: Youtubers brazucas, tá na hora de fazer greve e exigir uma graninha melhor aí… ou então estudar norueguês. O Google tá se refastelando nesse ecosistema dele.

Suécia e Dinamarca têm cifras parecidas. No sul da Europa, Itália e Portugal são os países mais ativos: só 30% dos cidadãos maiores de 13 anos não têm conta, mas 70% dos que têm, acessam o “Feice” diariamente. A Espanha está ligeiramente abaixo, com 65% de usuários ativos e algo como 30% de maiores de 13 anos sem conta. Nos Estados Unidos, cujos usuários são os que mais ganhos dão por publicidade ao Facebook, 11,3% dos maiores de 13 anos não acessam esse serviço. Porém 66% acessam diariamente. No Brasil, 18,8% dos maiores de 13 anos não têm perfil. Não consegui os números sobre acesso dos brasileiros no caso diário. E não vou procurar agora…

O Facebook, assim como Apple, Google, Microsoft possui uma política de não revelar cifras de usuários por país, mas sim coisas como faturamento médio por usuário seja de produto, serviço ou região geográfica. No caso da empresinha do Zuckerberg ela informa o  faturamento médio por usuário procedente de anúncios em cada continente. No segundo trimestre de 2018, ela faturou coisa de 8,62 euros (36,30 reais) por usuário na Europa. Com a cifra de usuários por país, pode-se fazer um cálculo simples. Por exemplo, se na Espanha 65% da população com mais de 13 anos tem conta, isso representa 25 milhões de pessoas. O resultado é que o Facebook fatura em publicidade mais de 200 milhões de euros (cerca de 842 milhões de reais) na Espanha. Em 2017, entretanto, o Facebook  declarou prejuízos de quase um milhão de euros na sua filial espanhola.

Crianças… eu já ensinei – anos atrás no Impressões Digitais – que uma coisa é faturamento, outra coisa é contabilidade.

Dados de um estudo na Espanha e publicados em 2018 demonstram que o número de novos registros dispara aos 18 anos, o que pode ter que ver com a maioridade: “O salto aos 18 anos não é casual. São adolescentes cujos pais não permitiram ter Facebook até que completassem a maioridade”, diz David García, pesquisador do Complexity Science Hub de Viena.

O mapeamento demonstra que após 18 anos há um arrefecimento e nova explosão em torno dos 25 anos (quase 50% de aumento relativo aos nº de usuários aos 18) facilmente explicável pelo término da faculdade e busca de inserção social e profissional. Novamente há uma diminuição do nº de usuários até os 30 anos (que retoma o nº de usuários relativos aos 17 anos) e um aumento, discreto, aos 31 para 70% do pico atingido aos 25 anos. Ao que tudo indica, aos 31 anos e ao fim das extensões universitárias e medianas profissionais no setor de marketing a quantidade de usuários entra em declínio formal de desinteresse. [Fonte: ‘A large-scale analysis of Facebook’s user-base…’, de Yonas M. Kassa, R. Grutas e Á. Grutas.]

O monopólio atual, nem se mexeu pelas crises da Cambridge Analytica, das fake news ou da violência em países como Myanmar, Sri Lanka e Filipinas. Em Myanmar, onde o Facebook admitiu sua responsabilidade na difusão de mensagens de ódio contra a minoria rohingya que está sofrendo um processo de genocídio – pô cara, há tempos os rohingyas fogem de Myanmar para Bangladesh, você sabe o que é Bangladesh? Imagina a situação em que você está em um lugar tão Bolsonaro, mas tão Bolsonaro que cair nos braços do PT da Dilma é a melhor coisa do mundo. Em Myanmar as palavras “Facebook” e “Internet” são sinônimos. Ninguém entra na Internet, eles entram no Facebook. Por essas e outras é que eu acho que Myanmar parece com algo que a gente conhece.

[parentêses] – Por sinal, tem um enrosco bem grandão nessa coisa de divulgação e substituição de conceitos, e que acabou virando um nicho de mercado. As agências fact-check nasceram pela incompetência das mídias sociais manterem  controles mínimos sobre o que é divulgado em massa sobre assuntos socialmente e politicamente sensíveis. O incontrolável Feice forneceu meios de divulgação massivos de informações e várias empresas que aglomeraram jornalistas e analistas de big-data ganham uma graninha para – cheias de razão – questionar o trend do momento e assim sobreviver. Você sabe… jornal, seja na TV ou  no papel, ou entra no ar daqui algumas horas apenas ou só sai amanhã. [fechando os parênteses]

Mais uns dados sobre Myanmar – o Brasil de amanhã. O país viveu sob uma junta militar até 2011… a gente corre risco de ficar até 2026. Hoje, mais de metade da sua população tem conta no Facebook, e desse contingente, 44% o usam diariamente. O crescimento é extraordinário.

Apesar da solidez dessa tendência, nada na Internet é para sempre. O Facebook reina hoje, mas já vimos como muitas redes sociais antes foram p’ro brejo: Friendster, Jaikku, MySpace, Orkut, o Google Plus – você conhece? Pois então há anos ele tenta ser o concorrente do Facebook e o Google acabou de matá-lo. Já já ele para de.. ahn… é… hum… funcionar. Umas redes sociais substituíram outras, a que ainda resiste é o Facebook. As críticas por suposto monopólio, multas bilionárias pelo hackeamento de dados, os temores com a falta de privacidade e o cansaço dos usuários são as ameaças cotidianas para o Facebook. Por enquanto, no entanto, nada o afeta. Por enquanto…

Como disse no início eu já cometi “facebookcídio” uma vez, minhas justificativas de volta e permanência no “feice” são fracas, você pode descrevê-las como hipócritas mesmo. Eu sai, esgoelei, esbravejei e denunciei o Facebook, mas sucumbi e refiz uma conta apesar de minha ampla consciência do perigo. Ocasionalmente me entrego ao voyeurismo do News Feed, sucumbo à rolagem de zumbis e chorume de imensos e avassaladores textos inócuos e me pego – inutilmente fazendo mais um textão – só para sofrer vendo inúmeras respostas estúpidas, agressivas e odiosas de quem nem parou para sopesar que aquela é minha área de expressão e o intuito é a abertura para um argumento compreensivo ou um contra argumento que demonstre um ângulo não abrangido, obliterado por minha limitação humana. Sou um boçal. Renitente.

Mas como eu poderia descrever a perniciosidade da plataforma se eu nunca a usasse? É muito mais fácil eu atacar um ente – apesar de incorpóreo, corporativo – do que envergonhar minha tia ou colegas do escritório – ou abandonar sua própria longa lista de “amigos”.

Amavelmente eu indico alguns argumentos para você repensar sua vida em mídias sociais:

Você está perdendo sua liberdade.

Os serviços e aplicativos sociais registram todas as nossas ações: o que compartilhamos, o que comentamos, o que curtimos, o que compramos, onde vamos, o que vivemos. Somos cobaias de laboratório, monitoradas a cada segundo, participamos de uma análise constante para que os anunciantes e agentes políticos nos enviem suas mensagens quando estivermos mais suscetíveis a elas.

A turma que ganha dinheiro de verdade com mídias sociais distribui notícias falsas em um sistema desenhado para ajudar marketeiros alcançarem seu público-alvo com mensagens bem testadas para conseguir sua atenção. Taí o Bolsonaro que não me deixa mentir. Para os sistemas de mídias sociais tanto faz, como tanto fez se os “anunciantes” são empresas que querem vender produtos, partidos políticos ou difusores de notícias falsas. O sistema é o mesmo para todos, e melhora quando as pessoas estão irritadas, obcecadas e divididas.

Com certeza as mídias sociais estão lhe deixando infeliz. É intuitivo, todos nós percebemos isso… apesar das possibilidades de conexão que as redes sociais oferecem, na verdade sofremos uma sensação cada vez maior de isolamento por motivos tão tortos como os padrões irracionais de beleza e status, por exemplo, ou a vulnerabilidade aos trolls, ou mais efetivo ainda, a quantidade de gente que NÃO nos segue. Os algoritmos destes sistemas nos colocam em categorias e nos ordenam e coordenam segundo nossos amigos, seguidores, o número de curtidas ou retuítes, ou o muito ou o pouco que publicamos… Ou seja, você sempre é lembrado que está sendo avaliado, medido, classificado e pior… a tabela de classificação está sempre meio oculta em sua descrição clara – 25 retuítes, 85 amigos curtiram… o que quer dizer issoi? Quer dizer que você só tem 25 pessoas de sua rede que acharam bacana sua ideia a ponto de transmití-la e 85 acharam “apenas bacana”… e isso, é bom ou é ruim? Esquece, seu cérebro sempre, eu disse sempre, irá processar esta situação seletiva como “puta merda eu sou um bosta”, pode perguntar p’ro André Souza.

De repente você e outras pessoas fazem parte de um monte de competições das quais não pediram para participar. Isso é estressante… São critérios que nos parecem pouco significativos, mas que acabam tendo efeitos na vida real. Nas notícias selecionadas que vemos, nas amizades e relacionamentos sugeridos, nos produtos ofertados e até na cumbuca patrocinada pelo B9 do Merigo . Também podem acabar influenciando sua vida profissional, os RHs de todo tipo de empresa (das pequenas até as gigantes multinacionais) vasculham suas redes sociais   para sim, avaliar, qual o  seu estilo de vida e qual o risco que você pode trazer aos seus negócios. E para piorar, eu sei você vai negar, mas mesmo sob essa aparente calma budista é certo que há um troll dentro de você. 

No contexto das redes sociais, as opiniões se polarizam, somos provocados constantemente por este ambiente e frequentemente as discussões descambam das oportunidades para um diálogo, para uma disputa com objetivo de ganharmos alguns pontos às custas de expor os outros, numa espécie de antidialética da lacração. É inevitável, não somos tão amáveis como gostaríamos de ser 100% do tempo.

A verdade virou mito na maioria das postagens. 

As teorias da conspiração mais loucas, idiotas e perigosas  (como por  exemplo as dos antivax) frequentemente começam nas redes sociais, onde seu eco se amplifica, frequentemente com a ajuda de bots, bem antes de aparecerem em veículos de comunicação extremamente partidários. O terraplanismo, por exemplo, nasceu a partir de grupos de Facebook , amplificados por um algoritmo que dava repercussão a essas publicações e compartilhavam mais por seu conteúdo disparatado do que pelo seu verdadeiro alcance.

Nosso brasileiríssimo exemplo eleitoral agora de outubro de 2018 representa perfeitamente a manipulação da informação com objetivo político e de um perigoso efeito secundário: o esgarçamento social. O que nos leva a mais um motivo para nos afastar do Twitter, Facebook, inclusive o WhatsApp e os serviços do Google.  

Tais sistemas estão acabando com a sua capacidade de empatia criando uma retro-alimentação da certeza equivocada. 

Essa afirmação argumentativa apoia-se principalmente no conceito criado em 2011 por Eli Pariser: o filtro bolha. No Facebook, por exemplo, as notícias aparecem na tela de acordo com as pessoas e os veículos de comunicação que seguimos e, também, dependendo dos conteúdos de que gostamos. No Twitter, no Whatsapp o efeito é ainda pior… você segue quem lhe parece fiável, semelhante, e é seguido pelo mesmo motivo, e os algoritmos lhe apresenta outros que bordejam o seu espectro de relacionamento digital. A consequência é que nas redes frequentemente acessamos somente a nossa própria “bolha”, ou seja, tudo aquilo que conhecemos, com o que estamos de acordo, o que nos faz sentir confortáveis, o que nos acarinha… Não vemos outras ideias, outras informações, contrapontos… recebemos apenas suas caricaturas, suas versões. E, consequentemente, em vez de tentar entender as razões por trás de outros pontos de vista, nossas ideias se reforçam e o diálogo torna-se cada vez mais difícil até deixar de existir. Né, troll?

Há certos momentos que me sinto convencido de que a mídia social é tóxica, tornando-nos mais tristes, mais raivosos e mais isolados. Se você estiver ativo nas mídias sociais irá reconhecer rapidamente o conceito de “reforço aleatório:, explicando: o vício alimentado não por recompensa, mas por nunca saber se ou quando a recompensa chegará.

Qual a recompensa esperada por você, usuário comum, quando publica textos inócuos, reflexivos, discutíveis, exuberantes, profundos, estapafúrdios, ou completamente idiotas? Likes? Aprovação do seu público bolha? Seguidores? Replicação de suas ideias? 

Atuar, na maioria das vezes nas redes sociais é na realidade uma egotrip bem mequetrefe. Exceção aos profissionais que a usam – por intermédio de personas ou personagens – para divulgar ideias, marcas, ideologias, ou seja, fazer marketing puro e cristalino.

Os algoritmos destas redes sociais estão estruturados para  tentar capturar os parâmetros perfeitos para melhorar o modo de manipular as suas reações, as reações de seu cérebro.  Ao mesmo tempo que o cérebro, na busca de um significado mais profundo, não muito definido, retro-alimenta o sistema fornecendo indicativos para nada real, mas para uma ficção egocêntrica. Esse processo – de desencadear emoções e de ficar preso a uma miragem indefinível – é o vício.

Deixar as redes sociais, ainda que somente por algum tempo, pode ser uma excelente forma de saber como estas estão nos prejudicando e, principalmente, de percebermos o que elas poderiam nos oferecer de verdade. O tempo e a atitude contemplativa, de se observar destituído destes laços emocionais ajudam a notar o que nos faz falta. Qual a motivação de interagir por meio das redes?

A mídia social tal como está engendrada economicamente faz à política um trabalho desastroso, possibilitando ações tendenciosas, não para a esquerda ou para a direita, mas para baixo, como já disse, rompendo o tecido social e a crença em informações factuais.  

  • Se desencadear emoções é o prêmio mais alto destes sistemas, e as emoções negativas são as mais fáceis de desencadear, como as mídias sociais podem não deixar você triste? 
  • Se o seu consumo de conteúdo é adaptado por observações quase ilimitadas colhidas sobre pessoas como você, como poderia o seu universo não colapsar na representação parcial da realidade que pessoas como você também gostam? 
  • Como poderia a empatia e o respeito pela diferença prosperar nesse ambiente retro-alimentado pelo seus  espelhos?
  • Onde está o incentivo para eliminar contas falsas, notícias falsas, exércitos de trolls pagos, e “bots dispépticos”?

Como nosso ecossistema informacional foi destruído, colocamos muito pouco ônus sobre os mais de 2,5 bilhões de usuários do Facebook e do Twitter. Portanto, agradeço – tal qual Hommer Simpson – à minha consciência por distribuir parcela da culpa ao usuário médio, que fez do Twitter, do Facebook e outros ambientes algo muito mais rude que o infantil Orkut, algo muito menos empático, e algo muito mais tribal. Temo que nossa confiança em grandes empresas de tecnologia esteja arruinando nossa capacidade de espiritualidade, transformando-nos em extensões eletrônicas – no sentido de binárias, ou em português tangível, em extensões simplistas, de ação e reação – de suas máquinas de processamento. Como cético confesso, tenho o dever de determinar muito bem o termo espiritualidade citado: por favor não o confunda com religiosidade. 

  • Religião exige e espera de um crente um comportamento vital, e por tal retidão comportamental – calcada em alguma regra escrita por algum sábio – uma recompensa posterior, nem que esta seja após a morte.
  • Espiritualidade eu compreendo e trato como a propensão humana de buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível, ou seja, o processo de procura de um sentido de conexão com algo maior que si próprio, seja o campo para um camponês, uma pedra a beira do rio para Shidarta, ou o próprio Universo para mim. 

A tecnologia, como já explanei em podcasts anteriores não é determinista, ela apenas age como ferramenta, como instrumento para os desejos de nossa mente humana. Conglomerados tecnológicos não entendem a magia da consciência humana, pois além de imersiva, ela é incontrolável e mercadologicamente intangível, e portanto, a destroem de forma imprudente. E se não nos prepararmos por meio da compreensão e entendimento do que hoje ocorre com a raça humana, neste grande hiato histórico que a tecnologia de informação propiciou, podemos cair no fosso sem fim que defino nesta frase: 

“Se você não faz parte da solução, não haverá solução”.

O Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro, hoje nem tanto, sobre Comportamento Humano, acabou. Se você gostou do Ex-Libris faça como a AMB3 Gestão Ambiental, ajude na divulgação e manutenção deste projeto. Lá no site idigitais.com você tem mais detalhes sobre como o fazer isso. Você pode ainda ajudar o Ex-Libris divulgando este episódio entre seus amigos, dando umas estrelinhas lá no iTunes, palmas no anchor.fm e nos outros agregadores nos avalie do jeito que eles permitem. Essa atitude ajuda muito a manter este podcast e também a nossa sanidade.

Saúde, paz, grato pela companhia e até a próxima.

Ex-Libris, inteligência com propriedade.