Transcrição Ex Libris – S01e12

[Comportamento Humano] – Porque sua vida social está uma porcaria.

Como as mídias sociais não parecem ser o melhor ambiente para você ampliar seu conhecimento e suas virtudes, tais como empatia e sociabilidade.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 12º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que o Ex-Libris esteja atendendo suas expectativas. Para eu saber se estou acertando eu preciso ouví-los também. Assim, aguardo sugestões, dê um pulo lá no idigitais.com e deixe seu comentário no post deste episódio, na sua transcrição ou ainda envie um email para idigitais@gmail.com.

O Ex-Libris está disponível em 11 agregadores e serviços: Anchor.fm; Apple Podcasts; Breaker; Castbox; Google Podcasts; OverCast; Pocket Casts; RadioPublic; Spotify; Stitcher e a novidade: Youtube. O endereço rss e todos os links estão publicados na 1ª página do idigitais.com. Começa agora o Ex-Libris sobre Comportamento Humano de 30 de out de 2018, de novo um pouco atrasado. 

Porque sua vida social está uma porcaria ou Como as mídias sociais não parecem ser o melhor ambiente para você ampliar seu conhecimento e suas virtudes, tais como empatia e sociabilidade.

O sucesso das ações de marketing político nas mídias sociais lá na 1ª eleição do Obama já sinalizava para muita gente que este tipo de atividade (marketing político massivo por intermédio de redes sociais) serviria também para outras coisas bem menos honestas. A eleição do Trump mostrou o caminho e a do Bolsonaro demonstrou a efetividade da neo-verdade.

Aquele papo de verdade adequada ao senso de necessidade humana que uma turminha aí chama de pós-verdade foi destruído pela redescoberta de que pessoas sem senso crítico engolem qualquer informação distribuída por redes sociais, e pior, sentem-se compelidas a redistribuir àqueles que acompanham seu perfil.

Como não há fatos e sim versões – principalmente as suas próprias versões, adequadas às suas crenças – tais difusores atuam como amplificadores vorazes daquilo que concordam, da sua verdade. Se o gerador de tais versões é estruturado e múltiplo, ainda maior o poder de inundar milhares de bolhas de influência. Mas, para tal método funcionar com maior efetividade deve-se ter uma polarização muito bem definida, assim a versão difundida contrapõe com a verdade (ou não), validando o pertencimento ao grupo correto, validando o ego: Nós sabemos o que é real, o que é bom, o que é adequado e o que não destrói a crença pessoal, seja ela em Noam Chomsky ou Papai Noel.

Muitos, como eu, sentem-se profundamente incomodados pela avalanche de bobagens que transbordam pelos canais de mídias sociais.  Os mais habilitados nas funções de restrição que as redes sociais fornecem, filtram os temas e os usuários eliminando boa parte da astronômica quantidade de lixo e chorume pseudo informativo que circula pela internet.

[Parênteses]  – Cansei de afirmar ao longo de pelo menos uma década e meia, que internet não é um meio, não é um canal de comunicação, a internet é uma linguagem nova, mundializada e ainda eivada de preceitos e pré-conceitos culturais, ainda repleta de pesos e contrapesos que não permitiram uma consolidação apropriada. Alguns poucos arranham o que chamo linguística da internet. Basicamente é o que estou fazendo aqui hoje. [fechando o parênteses e retornando o fio-da-meada]

Mesmo habilitado a filtrar o que se recebe é necessário ao usuário compreender todas as regras que estes serviços e aplicativos exigem. Além do estudo e controle de como eles se comportam, é imprescindível a habilidade em conceitos complexos de regras boleanas e/ou digitais próprias da Internet, travestidas de frases dúbias e complexas (seja em inglês ou português) para um usuário comum, como, por exemplo: 

Como começar – Você pode iniciar o rastreamento de conversões em duas etapas: 

  1. Crie uma website tag. 
  2. Instale a website tag em seu website.

Para que serve uma rede social que num extremo te enche de informação completamente inútil, seja por baixo valor agregado (tipo “bom dia família” e a inefável foto de bebês vestidos de anjinhos ou da Virgem Maria que circulou em 2005), seja por valor moral ou culturalmente equivocado (nem vou dar exemplos aqui) e no outro extremo por notícias falsas que podem levar pessoas à morte? (aqui eu dou exemplo sim: os malucos anti-vacinas ou veganos que inventam dietas inadequadas para crianças).

Para que serve uma rede social em que qualquer informação – ponderada, calcada em fatos amplamente comprovados por dezenas de fontes fidedignas e/ou métodos científicos – é refutada em nome de Jesus, Pastor Jessé, Zaratustra, por um familiar distante ou um conhecido do conhecido, ou pior ainda, uma rede que inunda sua página pessoal no Facebook com  várias centenas de pessoas desconhecidas que apenas refutam (com falácias ou lógica) o comentário do refutador anterior? 

Boa parte das pessoas creem que o lapso temporal – do ato de refutar em texto algo que interpretou de uma leitura  anterior – as desvencilham do diálogo, do esclarecimento e da empatia social. Isso quando interpretam o texto e avaliam o contexto. Na maioria das vezes as pessoas se atém a uma frase específica, cuja contrariedade ao seu herói, à sua crença ou ao seu desejo, sua paixão, é o único fator existente. Aí não há lógica que suporte o social da mídia.Esses serviços e aplicativos deveriam se chamar Extreme Fight Channel e não Social Media.

Apesar das críticas que muitos fazem às redes sociais (sejam pessoas comuns como eu, ou pensadores, ou você, ou governos), poucos usuários tomam a decisão de apagar as suas contas. Eu já cometi “facebookcídio” uma vez… fui iludido a retomá-lo, e agora estou preso por uma decisão comercial muito equivocada.

O Twitter continua com seus cerca de 300 milhões de perfis, o Facebook tem mais de 2,2 bilhões de pessoas  (PQP quase 1/3 dos seres humanos têm um perfil no serviço), e o Instagram segue crescendo e já passa dos 500 milhões contas. Aqui eu gostaria de notabilizar (no sentido neutro da palavra) a saúde e a capacidade de crescimento da máquina de manipulação de Mark Zuckerberg. Falando em máquinas de manipulação, nenhuma religião, língua ou cultura são tão difundidas globalmente como o Facebook. A única outra ferramenta da Internet que sobrepuja em números esse site criado para ser um Tinder de  universitários é o e-mail, com mais de 5 bilhões de contas. Mas o que me chama atenção da avaliação atual de seus números e projeções sócio-tecnológicas é que o Facebook pode crescer ainda mais. Há países que ele já dominou… Seus dados por continentes e por faixas etárias já eram disponíveis, mas pela primeira vez um estudo dá os números detalhados de usuários por país, de suas idades específicas e gênero e do uso diário ou mensal. Além de impressionar os números dão a dimensão de um futuro um tanto caótico, eu diria distópico.

Exceto em casos como China, Coreia do Norte, Irã e Síria, onde sua presença, de qualquer modo, é proibida, e de alguns bilhões de centro-asiáticos e africanos, a base do império do Mark abrange mais de 200 países (já, já a FIFA perde a hegemonia com seus 212 países. Na sua base de atuação principal, ou seja nos países desenvolvidos, o “Feice” – como a gente chama por aqui – não fraqueja, nem demonstra sinal de queda no uso. Estabilidade é a definição atual. Na visão de alguns analistas “Além de ativo e estável, o Facebook possui capacidade de crescimento e está na renovação contínua de suas funções básicas”. No Brasil e América Latina, há um ano, o Facebook busca a renovação e reestruturação de toda sua base comercial e de evangelização empresarial – deixo os comentários sobre estas informações para o Cris Dias.

O método de ganhar dinheiro do Mark é simples (em tese) e de uma implementação complexa e cara “p’ra burro”. A maquininha digital oferece aos seus anunciantes um aplicativo com centenas de opções fornecidas por seus usuários, ou seja dados pessoais, geográficos e de gostos afins, dados estratificados e massivos, bem definidos possibilitando a venda de e para um público bem mais definido também. O aplicativo permite uma infinidade de análises, como p. ex., avaliar comportamentos pelo seu “lugar de residência”, mas também pelo “lugar atual” ou quando você está “em viagem”. Percebeu a audácia do sistema? 

Na maioria do continente africano e da Ásia Central, a presença do Facebook é abaixo de 30% entre os maiores de 13 anos, a idade mínima legal para criar uma conta na rede em alguns países. Lembro quando aqui era 18 anos. Atualmente para ter conta no Instagram é preciso ter 16… Para continuar crescendo, o Facebook precisa de mais usuários potenciais, adivinha aonde? Claro, na África e na Ásia Central. Nos países desenvolvidos o crescimento é orgânico, tudo funciona desde a infraestrutura até superestrutura. Para crescer o Mark precisa que a Internet chegue até os usuários, assim, a companhia investe em infraestrutura de Internet na África e nos outros paísesda Ásia Central.

Desde 2015, a ferramenta principal de interseção infra e superestrutura da corporação é o Free Basics, um aplicativo desenvolvido pelo Facebook que dá acesso, sem precisar pagar dados no celular, a uma seleção de sites sem fotos nem vídeos em dezenas de países. O Facebook tem um acordo com a Internet Society para levar pontos de troca de tráfego (IXPs, na sigla em inglês) aos países africanos cuja Internet ainda depende de infraestrutura além das suas fronteiras, o que obviamente não permite uma conexão de dados decente. Nos países subdesenvolvidos, ele cresce mais em zonas urbanas, com muita gente empregada. Esse é seu viveiro de potenciais usuários.

Na Noruega apenas 12% da população não tem conta no Facebook, 2% o acessa sem constância e os demais 76% diariamente. 

Se o jovem Soren Johannsson conquistar 2 milhões de assinantes para seu canal no Facebook ele faz a fortuna na Noruega, pois ele conseguirá atingirá 50% dos usuários. 

Nota: Youtubers brazucas, tá na hora de fazer greve e exigir uma graninha melhor aí… ou então estudar norueguês. O Google tá se refastelando nesse ecosistema dele.

Suécia e Dinamarca têm cifras parecidas. No sul da Europa, Itália e Portugal são os países mais ativos: só 30% dos cidadãos maiores de 13 anos não têm conta, mas 70% dos que têm, acessam o “Feice” diariamente. A Espanha está ligeiramente abaixo, com 65% de usuários ativos e algo como 30% de maiores de 13 anos sem conta. Nos Estados Unidos, cujos usuários são os que mais ganhos dão por publicidade ao Facebook, 11,3% dos maiores de 13 anos não acessam esse serviço. Porém 66% acessam diariamente. No Brasil, 18,8% dos maiores de 13 anos não têm perfil. Não consegui os números sobre acesso dos brasileiros no caso diário. E não vou procurar agora…

O Facebook, assim como Apple, Google, Microsoft possui uma política de não revelar cifras de usuários por país, mas sim coisas como faturamento médio por usuário seja de produto, serviço ou região geográfica. No caso da empresinha do Zuckerberg ela informa o  faturamento médio por usuário procedente de anúncios em cada continente. No segundo trimestre de 2018, ela faturou coisa de 8,62 euros (36,30 reais) por usuário na Europa. Com a cifra de usuários por país, pode-se fazer um cálculo simples. Por exemplo, se na Espanha 65% da população com mais de 13 anos tem conta, isso representa 25 milhões de pessoas. O resultado é que o Facebook fatura em publicidade mais de 200 milhões de euros (cerca de 842 milhões de reais) na Espanha. Em 2017, entretanto, o Facebook  declarou prejuízos de quase um milhão de euros na sua filial espanhola.

Crianças… eu já ensinei – anos atrás no Impressões Digitais – que uma coisa é faturamento, outra coisa é contabilidade.

Dados de um estudo na Espanha e publicados em 2018 demonstram que o número de novos registros dispara aos 18 anos, o que pode ter que ver com a maioridade: “O salto aos 18 anos não é casual. São adolescentes cujos pais não permitiram ter Facebook até que completassem a maioridade”, diz David García, pesquisador do Complexity Science Hub de Viena.

O mapeamento demonstra que após 18 anos há um arrefecimento e nova explosão em torno dos 25 anos (quase 50% de aumento relativo aos nº de usuários aos 18) facilmente explicável pelo término da faculdade e busca de inserção social e profissional. Novamente há uma diminuição do nº de usuários até os 30 anos (que retoma o nº de usuários relativos aos 17 anos) e um aumento, discreto, aos 31 para 70% do pico atingido aos 25 anos. Ao que tudo indica, aos 31 anos e ao fim das extensões universitárias e medianas profissionais no setor de marketing a quantidade de usuários entra em declínio formal de desinteresse. [Fonte: ‘A large-scale analysis of Facebook’s user-base…’, de Yonas M. Kassa, R. Grutas e Á. Grutas.]

O monopólio atual, nem se mexeu pelas crises da Cambridge Analytica, das fake news ou da violência em países como Myanmar, Sri Lanka e Filipinas. Em Myanmar, onde o Facebook admitiu sua responsabilidade na difusão de mensagens de ódio contra a minoria rohingya que está sofrendo um processo de genocídio – pô cara, há tempos os rohingyas fogem de Myanmar para Bangladesh, você sabe o que é Bangladesh? Imagina a situação em que você está em um lugar tão Bolsonaro, mas tão Bolsonaro que cair nos braços do PT da Dilma é a melhor coisa do mundo. Em Myanmar as palavras “Facebook” e “Internet” são sinônimos. Ninguém entra na Internet, eles entram no Facebook. Por essas e outras é que eu acho que Myanmar parece com algo que a gente conhece.

[parentêses] – Por sinal, tem um enrosco bem grandão nessa coisa de divulgação e substituição de conceitos, e que acabou virando um nicho de mercado. As agências fact-check nasceram pela incompetência das mídias sociais manterem  controles mínimos sobre o que é divulgado em massa sobre assuntos socialmente e politicamente sensíveis. O incontrolável Feice forneceu meios de divulgação massivos de informações e várias empresas que aglomeraram jornalistas e analistas de big-data ganham uma graninha para – cheias de razão – questionar o trend do momento e assim sobreviver. Você sabe… jornal, seja na TV ou  no papel, ou entra no ar daqui algumas horas apenas ou só sai amanhã. [fechando os parênteses]

Mais uns dados sobre Myanmar – o Brasil de amanhã. O país viveu sob uma junta militar até 2011… a gente corre risco de ficar até 2026. Hoje, mais de metade da sua população tem conta no Facebook, e desse contingente, 44% o usam diariamente. O crescimento é extraordinário.

Apesar da solidez dessa tendência, nada na Internet é para sempre. O Facebook reina hoje, mas já vimos como muitas redes sociais antes foram p’ro brejo: Friendster, Jaikku, MySpace, Orkut, o Google Plus – você conhece? Pois então há anos ele tenta ser o concorrente do Facebook e o Google acabou de matá-lo. Já já ele para de.. ahn… é… hum… funcionar. Umas redes sociais substituíram outras, a que ainda resiste é o Facebook. As críticas por suposto monopólio, multas bilionárias pelo hackeamento de dados, os temores com a falta de privacidade e o cansaço dos usuários são as ameaças cotidianas para o Facebook. Por enquanto, no entanto, nada o afeta. Por enquanto…

Como disse no início eu já cometi “facebookcídio” uma vez, minhas justificativas de volta e permanência no “feice” são fracas, você pode descrevê-las como hipócritas mesmo. Eu sai, esgoelei, esbravejei e denunciei o Facebook, mas sucumbi e refiz uma conta apesar de minha ampla consciência do perigo. Ocasionalmente me entrego ao voyeurismo do News Feed, sucumbo à rolagem de zumbis e chorume de imensos e avassaladores textos inócuos e me pego – inutilmente fazendo mais um textão – só para sofrer vendo inúmeras respostas estúpidas, agressivas e odiosas de quem nem parou para sopesar que aquela é minha área de expressão e o intuito é a abertura para um argumento compreensivo ou um contra argumento que demonstre um ângulo não abrangido, obliterado por minha limitação humana. Sou um boçal. Renitente.

Mas como eu poderia descrever a perniciosidade da plataforma se eu nunca a usasse? É muito mais fácil eu atacar um ente – apesar de incorpóreo, corporativo – do que envergonhar minha tia ou colegas do escritório – ou abandonar sua própria longa lista de “amigos”.

Amavelmente eu indico alguns argumentos para você repensar sua vida em mídias sociais:

Você está perdendo sua liberdade.

Os serviços e aplicativos sociais registram todas as nossas ações: o que compartilhamos, o que comentamos, o que curtimos, o que compramos, onde vamos, o que vivemos. Somos cobaias de laboratório, monitoradas a cada segundo, participamos de uma análise constante para que os anunciantes e agentes políticos nos enviem suas mensagens quando estivermos mais suscetíveis a elas.

A turma que ganha dinheiro de verdade com mídias sociais distribui notícias falsas em um sistema desenhado para ajudar marketeiros alcançarem seu público-alvo com mensagens bem testadas para conseguir sua atenção. Taí o Bolsonaro que não me deixa mentir. Para os sistemas de mídias sociais tanto faz, como tanto fez se os “anunciantes” são empresas que querem vender produtos, partidos políticos ou difusores de notícias falsas. O sistema é o mesmo para todos, e melhora quando as pessoas estão irritadas, obcecadas e divididas.

Com certeza as mídias sociais estão lhe deixando infeliz. É intuitivo, todos nós percebemos isso… apesar das possibilidades de conexão que as redes sociais oferecem, na verdade sofremos uma sensação cada vez maior de isolamento por motivos tão tortos como os padrões irracionais de beleza e status, por exemplo, ou a vulnerabilidade aos trolls, ou mais efetivo ainda, a quantidade de gente que NÃO nos segue. Os algoritmos destes sistemas nos colocam em categorias e nos ordenam e coordenam segundo nossos amigos, seguidores, o número de curtidas ou retuítes, ou o muito ou o pouco que publicamos… Ou seja, você sempre é lembrado que está sendo avaliado, medido, classificado e pior… a tabela de classificação está sempre meio oculta em sua descrição clara – 25 retuítes, 85 amigos curtiram… o que quer dizer issoi? Quer dizer que você só tem 25 pessoas de sua rede que acharam bacana sua ideia a ponto de transmití-la e 85 acharam “apenas bacana”… e isso, é bom ou é ruim? Esquece, seu cérebro sempre, eu disse sempre, irá processar esta situação seletiva como “puta merda eu sou um bosta”, pode perguntar p’ro André Souza.

De repente você e outras pessoas fazem parte de um monte de competições das quais não pediram para participar. Isso é estressante… São critérios que nos parecem pouco significativos, mas que acabam tendo efeitos na vida real. Nas notícias selecionadas que vemos, nas amizades e relacionamentos sugeridos, nos produtos ofertados e até na cumbuca patrocinada pelo B9 do Merigo . Também podem acabar influenciando sua vida profissional, os RHs de todo tipo de empresa (das pequenas até as gigantes multinacionais) vasculham suas redes sociais   para sim, avaliar, qual o  seu estilo de vida e qual o risco que você pode trazer aos seus negócios. E para piorar, eu sei você vai negar, mas mesmo sob essa aparente calma budista é certo que há um troll dentro de você. 

No contexto das redes sociais, as opiniões se polarizam, somos provocados constantemente por este ambiente e frequentemente as discussões descambam das oportunidades para um diálogo, para uma disputa com objetivo de ganharmos alguns pontos às custas de expor os outros, numa espécie de antidialética da lacração. É inevitável, não somos tão amáveis como gostaríamos de ser 100% do tempo.

A verdade virou mito na maioria das postagens. 

As teorias da conspiração mais loucas, idiotas e perigosas  (como por  exemplo as dos antivax) frequentemente começam nas redes sociais, onde seu eco se amplifica, frequentemente com a ajuda de bots, bem antes de aparecerem em veículos de comunicação extremamente partidários. O terraplanismo, por exemplo, nasceu a partir de grupos de Facebook , amplificados por um algoritmo que dava repercussão a essas publicações e compartilhavam mais por seu conteúdo disparatado do que pelo seu verdadeiro alcance.

Nosso brasileiríssimo exemplo eleitoral agora de outubro de 2018 representa perfeitamente a manipulação da informação com objetivo político e de um perigoso efeito secundário: o esgarçamento social. O que nos leva a mais um motivo para nos afastar do Twitter, Facebook, inclusive o WhatsApp e os serviços do Google.  

Tais sistemas estão acabando com a sua capacidade de empatia criando uma retro-alimentação da certeza equivocada. 

Essa afirmação argumentativa apoia-se principalmente no conceito criado em 2011 por Eli Pariser: o filtro bolha. No Facebook, por exemplo, as notícias aparecem na tela de acordo com as pessoas e os veículos de comunicação que seguimos e, também, dependendo dos conteúdos de que gostamos. No Twitter, no Whatsapp o efeito é ainda pior… você segue quem lhe parece fiável, semelhante, e é seguido pelo mesmo motivo, e os algoritmos lhe apresenta outros que bordejam o seu espectro de relacionamento digital. A consequência é que nas redes frequentemente acessamos somente a nossa própria “bolha”, ou seja, tudo aquilo que conhecemos, com o que estamos de acordo, o que nos faz sentir confortáveis, o que nos acarinha… Não vemos outras ideias, outras informações, contrapontos… recebemos apenas suas caricaturas, suas versões. E, consequentemente, em vez de tentar entender as razões por trás de outros pontos de vista, nossas ideias se reforçam e o diálogo torna-se cada vez mais difícil até deixar de existir. Né, troll?

Há certos momentos que me sinto convencido de que a mídia social é tóxica, tornando-nos mais tristes, mais raivosos e mais isolados. Se você estiver ativo nas mídias sociais irá reconhecer rapidamente o conceito de “reforço aleatório:, explicando: o vício alimentado não por recompensa, mas por nunca saber se ou quando a recompensa chegará.

Qual a recompensa esperada por você, usuário comum, quando publica textos inócuos, reflexivos, discutíveis, exuberantes, profundos, estapafúrdios, ou completamente idiotas? Likes? Aprovação do seu público bolha? Seguidores? Replicação de suas ideias? 

Atuar, na maioria das vezes nas redes sociais é na realidade uma egotrip bem mequetrefe. Exceção aos profissionais que a usam – por intermédio de personas ou personagens – para divulgar ideias, marcas, ideologias, ou seja, fazer marketing puro e cristalino.

Os algoritmos destas redes sociais estão estruturados para  tentar capturar os parâmetros perfeitos para melhorar o modo de manipular as suas reações, as reações de seu cérebro.  Ao mesmo tempo que o cérebro, na busca de um significado mais profundo, não muito definido, retro-alimenta o sistema fornecendo indicativos para nada real, mas para uma ficção egocêntrica. Esse processo – de desencadear emoções e de ficar preso a uma miragem indefinível – é o vício.

Deixar as redes sociais, ainda que somente por algum tempo, pode ser uma excelente forma de saber como estas estão nos prejudicando e, principalmente, de percebermos o que elas poderiam nos oferecer de verdade. O tempo e a atitude contemplativa, de se observar destituído destes laços emocionais ajudam a notar o que nos faz falta. Qual a motivação de interagir por meio das redes?

A mídia social tal como está engendrada economicamente faz à política um trabalho desastroso, possibilitando ações tendenciosas, não para a esquerda ou para a direita, mas para baixo, como já disse, rompendo o tecido social e a crença em informações factuais.  

  • Se desencadear emoções é o prêmio mais alto destes sistemas, e as emoções negativas são as mais fáceis de desencadear, como as mídias sociais podem não deixar você triste? 
  • Se o seu consumo de conteúdo é adaptado por observações quase ilimitadas colhidas sobre pessoas como você, como poderia o seu universo não colapsar na representação parcial da realidade que pessoas como você também gostam? 
  • Como poderia a empatia e o respeito pela diferença prosperar nesse ambiente retro-alimentado pelo seus  espelhos?
  • Onde está o incentivo para eliminar contas falsas, notícias falsas, exércitos de trolls pagos, e “bots dispépticos”?

Como nosso ecossistema informacional foi destruído, colocamos muito pouco ônus sobre os mais de 2,5 bilhões de usuários do Facebook e do Twitter. Portanto, agradeço – tal qual Hommer Simpson – à minha consciência por distribuir parcela da culpa ao usuário médio, que fez do Twitter, do Facebook e outros ambientes algo muito mais rude que o infantil Orkut, algo muito menos empático, e algo muito mais tribal. Temo que nossa confiança em grandes empresas de tecnologia esteja arruinando nossa capacidade de espiritualidade, transformando-nos em extensões eletrônicas – no sentido de binárias, ou em português tangível, em extensões simplistas, de ação e reação – de suas máquinas de processamento. Como cético confesso, tenho o dever de determinar muito bem o termo espiritualidade citado: por favor não o confunda com religiosidade. 

  • Religião exige e espera de um crente um comportamento vital, e por tal retidão comportamental – calcada em alguma regra escrita por algum sábio – uma recompensa posterior, nem que esta seja após a morte.
  • Espiritualidade eu compreendo e trato como a propensão humana de buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível, ou seja, o processo de procura de um sentido de conexão com algo maior que si próprio, seja o campo para um camponês, uma pedra a beira do rio para Shidarta, ou o próprio Universo para mim. 

A tecnologia, como já explanei em podcasts anteriores não é determinista, ela apenas age como ferramenta, como instrumento para os desejos de nossa mente humana. Conglomerados tecnológicos não entendem a magia da consciência humana, pois além de imersiva, ela é incontrolável e mercadologicamente intangível, e portanto, a destroem de forma imprudente. E se não nos prepararmos por meio da compreensão e entendimento do que hoje ocorre com a raça humana, neste grande hiato histórico que a tecnologia de informação propiciou, podemos cair no fosso sem fim que defino nesta frase: 

“Se você não faz parte da solução, não haverá solução”.

O Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro, hoje nem tanto, sobre Comportamento Humano, acabou. Se você gostou do Ex-Libris faça como a AMB3 Gestão Ambiental, ajude na divulgação e manutenção deste projeto. Lá no site idigitais.com você tem mais detalhes sobre como o fazer isso. Você pode ainda ajudar o Ex-Libris divulgando este episódio entre seus amigos, dando umas estrelinhas lá no iTunes, palmas no anchor.fm e nos outros agregadores nos avalie do jeito que eles permitem. Essa atitude ajuda muito a manter este podcast e também a nossa sanidade.

Saúde, paz, grato pela companhia e até a próxima.

Ex-Libris, inteligência com propriedade.

Transcrição Ex Libris – S01e09

[Tecnologia] – A tecnologia educacional (edtech) veio para ficar?

Juntos, a tecnologia e os professores podem renovar as escolas, ou como a ciência da aprendizagem pode tirar o melhor proveito da tecnologia educacional.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 9º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que esteja gostando do Ex-Libris. Aguardo comentários e sugestões, afinal eu preciso saber se estou no caminho certo. Para tanto, basta dar um pulo lá no idigitais.com. 

Você pode colocar suas observações no post desse episódio, na transcrição ou ainda enviar um email. O Ex-Libris está disponível em vários agregadores e serviços: Anchor.fm; Apple Podcasts; Breaker; Castbox; Google Podcasts; OverCast; Pocket Casts; RadioPublic; Spotify; e Stitcher. Se você utilizar outro serviço, basta copiar o rss disponível e colar em seu aplicativo. Todo os links estão publicados na 1ª página do idigitais.com

A partir de agora o Ex-Libris sobre Tecnologia de 16 de outubro de 2018 começou.

Em 1953, o psicólogo norte americano Frederick Skinner visitou a aula de matemática de sua filha e encontrou todos os alunos aprendendo o mesmo tópico da mesma maneira e com a mesma velocidade. Poucos dias depois, ele construiu sua primeira “máquina de ensino”, a qual permitia que as crianças respondessem a perguntas em seu próprio ritmo. 

Skinner falecido em 1990, psicólogo famoso por conduzir trabalhos pioneiros em psicologia experimental, tinha muitos bons relacionamentos com o governo norte-americano. Propunha o behaviorismo radical – abordagem que busca entender o comportamento em função das inter-relações entre a filogenética, o ambiente e a história de vida do individuo.

[Parênteses] – tive que pesquisar isso: Filogenética – do grego phylon equivale a raça e gen se refere à ideia de origem ou nascimento, ou seja, filogenética é o estudo da origem dos organismos vivos e as relações existentes entre estes [fecho parênteses]

Sua máquina de ensino foi apoiada pelo United States Office of Education (tem video lá no youtube, procura lá “BF Skinner Teaching Machine“, ou se quiser, o link está na transcrição deste episódio).

Em meados da década de 1960, aparelhos semelhantes inundaram o mercado norte-americano sendo oferecidos por vendedores de porta em porta. Em poucos anos, porém, o entusiasmo por estas maquinetas havia diminuído.

Desde então, a tecnologia educacional (conhecida como edtech) repetiu o mesmo ciclo de hype e fracasso mesmo quando os computadores reformularam quase todas as outras partes de nossas vidas. 

[Parênteses novamente] Parece até o podcasting, entra ano sai ano é sempre a mesma coisa: “agora vai” e ploff voltamos à estaca zero. Parece, eu disse parece que agora a mídia começa a se mostrar uma opção razoável ao mercado (a garotada que começou a ouvir podcasts há alguns  já está nas agências e alguns já estão nos cargos de decisão). Oi gente… tudo bem? Olha eu aqui… [fechando o parênteses]

Um dos motivos do fracasso da edtech é o conservadorismo dos professores e seus sindicatos, e consequente burocracia, distanciamento e falta de destreza com as tecnologias disponíveis. 

Outro motivo bem definido, é que o potencial de capacitação e eficiência da edtech ainda não foi apropriadamente comprovado. Aqui eu ressalto o processo causa-efeito, se não há domínio da ferramenta tecnológica e da sua aplicação na educação não haverá capacidade para definir parâmetros adequados para aferir a sua efetividade. É algo como pedir a um biólogo definir em seu laboratório os parâmetros de aferição de qualidade de uma construção  civil.

Hoje, no entanto, os herdeiros de Skinner estão forçando os céticos a repensarem suas posições. Apoiados pelas ferramentas e suportes que a internet propiciou, finalmente, escolas em todo o mundo estão usando aplicativos inovadores para “personalizar” o aprendizado. Isso pode ajudar centenas de milhões de crianças presas em salas de aulas precárias – mas apenas se os defensores da edtech puderem resistir à tentação de reviver falácias e dar asas a idéias irreais sobre como as crianças devem aprender. Para ter sucesso, a edtech deve estar a serviço do ensino, e não o contrário.

O modelo convencional de escola – professor, lousa, giz, e um grupo de crianças – surgiu na Prússia no século XVIII. As alternativas até agora propostas não conseguiram ensinar de forma adequada e eficientemente a maioria das crianças. Salas de aula, crianças agrupadas por idade, estrutura hierarquizada, currículos padronizados e horários fixos ainda são a norma para a maioria das quase 1,5 bilhão de crianças em idade escolar no mundo.

Enquanto isso no Brasil, de acordo com a UNICEF, 7 milhões de estudantes têm 2 ou mais anos de atraso escolar; o ministro da Educação, Rossieli Soares (de 40 anos), afirmou quando da divulgação pelo MEC do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) 2017 que: ”o ensino médio está falido, e corre o risco de chegar ao ‘fundo do poço’, ele não está agregando conhecimento aos alunos”.  E sabe o por que do desespero do Ministro? Simples! Porque 7 em cada 10 alunos do 3º ano do ensino médio têm nível insuficiente em português e matemática. Entre os estudantes desta etapa de ensino, menos de 4% têm conhecimento adequado nestas disciplinas. Ou seja, 96% tem conhecimentos básicos, rudimentares  ou não sabem nada, absolutamente nada, de matemática ou português.

A cada dois anos, o SAEB mede a aprendizagem dos alunos ao fim de cada etapa de ensino: ao 5º e 9º anos do ensino fundamental e ao 3º ano do ensino médio. O sistema é composto pelas médias de proficiências em português e matemática extraídas da Prova Brasil, e pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Pela primeira vez, o MEC classificou os níveis de proficiência que estão organizados em uma escala de 0 a 9 – quanto menor o número, pior o resultado. Os níveis de 0 a 3 são considerados insuficientes; entre 4 e 6 os alunos têm nível de conhecimento básico; e a partir de 7 até 9, adequado. Etapa mais problemática da educação básica, o ensino médio foi classificado no nível 2 de proficiência. Em matemática, 72% dos alunos têm nível insuficiente de aprendizado. Desses, 23% estão no nível 0, o mais baixo da escala de proficiência. Ou seja, nada, não sabem nada. Em português, 71% dos dos alunos têm nível insuficiente de aprendizado, sendo que 24% estão no nível zero.

Em resumo, ao fim do colegial cerca de 70% dos alunos têm nível insuficiente de matemática e português e destes cerca de 24% nada sabem nada destas matérias. Olha aí o futuro do país sendo delineado… 

Nos países pobres, em média, apenas um quarto dos alunos do ensino médio adquire pelo menos o conhecimento básico de matemática, leitura e ciências. Mesmo nos países mais ricos da OCDE, cerca de 30% dos adolescentes não conseguem atingir proficiência em pelo menos um desses assuntos. Essa parcela permaneceu praticamente inalterada nos últimos 15 anos, durante os quais bilhões de dólares foram gastos em TI nas escolas. Em 2012, havia um computador para cada dois alunos em vários países ricos. A Austrália tinha mais computadores que alunos. Mal empregados os computadores, tablets e smartphones tendem a ser uma distração, ferramenta perfeita para embotar um processo de aprendizado. Um estudo português de 2010 descobriu que as escolas com internet mais lenta e o bloqueio de sites como o YouTube tiveram melhores resultados do que as escolas de alta tecnologia.

O que importa é como a edtech é usada. Uma forma que pode ser a solução é a instrução sob medida. Desde que Filipe II da Macedônia contratou Aristóteles para preparar p seu filho Alexandre, o Grande, pais ricos pagam por melhores professores. 

Alguns inovadores tecnológicos de São Paulo a Estocolmo acham que a edtech pode colocar a atenção individual ao alcance de todos os alunos. As escolas americanas estão adotando tal modelo de modo mais acelerado. Um distrito escolar se comprometeu a introduzir “aprendizagem digital personalizada” para 1/3 de seus alunos, agora. Os métodos de grupos como o Summit Public Schools, cujo software foi escrito pelos engenheiros do Facebook, estão sendo copiados por centenas de escolas. Na Índia, onde cerca de metade das crianças deixa a escola primária incapazes de ler um texto simples, o currículo básico é inalcançável para a maioria alunos. 

Softwares “adaptativos” como o Mindspark são capazes de descobrir o que uma criança sabe e assim formulam perguntas de acordo com a capacidade do aluno. 

Em um paper recente “Disrupting Education? Experimental Evidence on Technology-Aided Instruction in India” os autores afirmam em seus Abstract:

“Estudamos o impacto de um programa de ensino pós-escola com auxílio de tecnologia personalizada em escolas urbanas do ensino médio na Índia usando uma loteria que oferecia aos vencedores acesso gratuito ao programa.  Os vencedores da loteria marcaram 0.37σ acima em Matemática e 0.23σ maior em Hindi durante apenas um período de 4,5 meses. Estimativas (usando Variáveis Instrumentais) sugerem que frequentar o programa por 90 dias aumentaria as pontuações nos testes de Matemática e Hindi em 0,6σ e 0,39σ, respectivamente. Encontramos ganhos semelhantes nos escores absolutos dos testes para todos os alunos, mas ganhos relativos muito maiores para os alunos academicamente mais fracos. Nossos resultados sugerem que programas de instrução auxiliados por tecnologia bem concebidos podem melhorar drasticamente a produtividade no fornecimento de educação.”

O outro caminho que a edtech pode ajudar a aprender é tornar as escolas mais produtivas. Na Califórnia, as escolas estão usando um aplicativo para reformular o modelo convencional. Em vez de livros didáticos, os alunos têm “playlists”, que eles usam para acessar lições on-line e fazer testes. O software avalia o progresso das crianças, eliminando o processo de ‘dar nota’ a cada um dos alunos, aliviando assim a carga de trabalho dos professores. O tempo economizado é utilizado em outras tarefas, como o incentivo às habilidades sociais dos alunos ou aulas individuais. Um estudo em 2015 sugeriu que as crianças que adotaram precocemente esse modelo tiveram melhores resultados nos testes do que seus pares em outras escolas.

Toda essa inovação é bem vinda. Mas fazer o melhor com a edtech significa fazer várias coisas certas.

Primeiro, o “aprendizado personalizado” deve seguir as evidências de como as crianças aprendem. Não deve ser uma desculpa para reavivar idéias pseudocientíficas como “estilos de aprendizagem”: a teoria de que cada criança tem um modo particular de receber informações. Tal absurdo leva a esquemas como o Brain Gym, um programa de “cinesiologia educativa”, certa vez apoiado pelo governo britânico, esquema que afirmava que alguns alunos deveriam esticar, dobrar e emitir um “bocejo de energia” enquanto faziam suas contas. Uma outra falsidade é afirmar que usar a tecnologia significa que as crianças não precisam aprender fatos ou não precisam de um professor – que em vez disso, podem usar o Google e tudo irá funcionar. Alguns ditos educadores vão mais longe, argumentando que aprender e memorizar fatos atrapalham habilidades como a criatividade e o pensamento crítico. É exatamente o contrário. Uma memória repleta de conhecimento permite a evolução desses talentos. William Shakespeare foi educado em Latim e mesmo assim escreveu algumas peças muito decentes em inglês. Em 2015, nos EUA, um vasto estudo com 1.200 análises educacionais descobriu que, das 20 formas mais eficazes de impulsionar a aprendizagem, quase todas dependiam do trabalho de um professor.

Em segundo lugar é preciso garantir que a edtech reduza, em vez de ampliar, as desigualdades na educação. Aqui há motivos para otimismo. Algumas das escolas pioneiras em edtech são as escolas privadas do Vale do Silício. Entretanto, já há muitas outras escolas independentes que utilizam a edtech e ensinam preferencialmente alunos pobres, como a Rocketship e Achievement First – ou Summit, onde em 2017, 99% dos alunos que concluíram o curso foram para universidade e os retardatários obtiveram o maior progresso em relação aos alunos nas mesmas condições das escolas ditas  normais. Um padrão semelhante pode ser observado fora dos Estados Unidos. Em estudos de edtech também na Índia por J-PAL, um grupo de pesquisa, os maiores beneficiários são as crianças que usam software para receber educação corretiva.

Em terceiro lugar, o potencial para a tecnologia da educação só será percebido se os professores a adotarem. Eles estão certos em pedir provas de que os produtos funcionam. Mas o ceticismo não deve se transformar em ludismo. Um bom modelo é o que ocorre aqui em São Paulo, onde milhares de professores e principalmente escolas adotaram a plataforma adaptativa Geekie. Em 1984, Frederick Skinner chamou a oposição à tecnologia na educação de “vergonha”. Dado o que a edtech promete hoje, a mentalidade fechada não tem lugar na sala de aula.

E só para complementar o até aqui exposto neste podcast vou abordar mais um aspecto sobre a questão educacional… O ano era 1968 quando um professor de psicometria, Julian Stanley, se deparou com um gênio que cursava Ciência da Computação na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Joseph Bates, 12 anos, era brilhante – mas estava entediado com o curso, ele estava muito à frente dos estudantes de sua classe. Inspirado por esse prodígio, Stanley iniciou um longo estudo que duraria 45 anos, acompanhando o desenvolvimento de crianças superdotadas que incluiria nomes como Mark Zuckerberg e Lady Gaga.

Então, o que aconteceu com Joseph Bates? Ele se deu muito bem. Ele continuou a estudar, completou um doutorado, lecionou em uma universidade e agora se tornou um “pioneiro em inteligência artificial”. Stanley deu início ao projeto na Johns Hopkins University’s Center for Talented Youth (Centro para Jovens Talentosos da Universidade Johns Hopkins), em Baltimore. Batizado de SMPY, em inglês, que significa Estudo de Jovens Matematicamente Precoces. O programa acompanhou a trajetória de mais de 5 mil crianças superdotadas. Foi por meio desse trabalho que ele chegou a descobertas surpreendentes.

O estudo vai contra a antiga crença de que “a prática leva à perfeição”, segundo a qual você pode se tornar um especialista em alguma coisa contanto que trabalhe duro e tenha foco. Em vez disso, o SMPY sugere que a capacidade cognitiva inicial – como resolver problemas e tomar decisões corretas – tem mais efeito sobre a conquista do que a prática ou até mesmo o status socioeconômico de uma pessoa. Por isso, é importante estimular as habilidades da criança desde cedo – mas sem pressionar aquelas que se mostram mais inteligentes que a média para que se tornem – entre aspas – “gênios”. Isso poderia “levar a todos os tipos de problemas sociais e emocionais”, de acordo com educadores.

Mas, se você quer incentivar e manter seus filhos felizes ao mesmo tempo, os especialistas têm algumas recomendações:

  • Exponha seu filho a experiências diversas – Crianças com alta inteligência geralmente precisam de novidades para se manterem motivadas. Aumentar experiências de vida, além de contribuir nesse sentido, ajudaria a criança a desenvolver a confiança para lidar com o mundo. Psicólogos dizem que o conforto vem de se apegar ao que é familiar. É preciso coragem para tentar algo diferente.
  • Estimule seus talentos e interesses – Seja um novo esporte, um instrumento ou uma aula de teatro, permitir que seus filhos explorem os talentos desde cedo os ajudará a desenvolver habilidades importantes, como a resiliência. Não os force a “ser algo” que eles não são.
  • Apoie as necessidades intelectuais e emocionais do seu filho – A curiosidade é a essência de todo aprendizado. As crianças podem fazer muitas perguntas antes de começarem na escola e, embora sua paciência para responder a todas as questões possa ser um pouco escassa, isso é muito importante para o desenvolvimento delas. Quanto mais “porquês” e “comos” eles perguntarem, melhor será o desempenho na escola.
  • Elogie o esforço, não a habilidade – Ajude as crianças a desenvolverem uma “mentalidade de crescimento”, comemorando a aprendizagem, e não o resultado em si. As crianças aprendem a reagir às coisas através de seus pais. Portanto, seja sobre aprender a falar um novo idioma ou até mesmo andar de bicicleta, a disposição para aprender que deve ser estimulada.
  • O fracasso não é algo a ser temido – Os erros devem ser tratados como blocos de construção para o aprendizado. Aprender com eles deve ser tratado como uma oportunidade para crescer, pois ajudará as crianças a entender como elas podem abordar melhor o problema da próxima vez. 
  • Cuidado com os rótulos – Rótulos só irão diferenciar seu filho de outras crianças. Isso poderia não apenas levá-los ao bullying, mas também adicionar imensa pressão de ser uma decepção.
  • Trabalhe com os professores para atender às necessidades do seu filho – Alunos inteligentes geralmente precisam de material mais desafiador, apoio extra ou liberdade para aprender em seu próprio ritmo. Trabalhar em torno dos sistemas educacionais atuais para atender às suas necessidades é muito importante. 

Por fim,

  • Teste as habilidades do seu filho – Isso pode auxiliar os pais que quiserem fazer um trabalho mais avançado de desenvolvimento dos talentos das crianças e pode ainda revelar problemas como dislexia, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade ou desafios sociais e emocionais.

Mas, afinal, como saber se seu filho é superdotado? Aqui – finalmente – estão alguns sinais, segundo a sociedade de alto QI, Mensa. Então preste atenção de seu pimpolho tem: 

  • Memória incomum;
  • Leitura precoce;
  • Gosta de passatempos ou interesses incomuns ou conhecimento profundo de determinados assuntos;
  • Tem consciência de eventos mundiais;
  • Tem senso de humor evoluído;
  • Faz questionamentos todo o tempo;
  • Possui musicalidade;
  • Gosta de estar no controle; e
  • Adora inventar regras adicionais para jogos.

O Ex-Libris, spin-off do Impressões Digitais, um podcast rápido e ligeiro sobre Tecnologia, acabou. Se você gostou do Ex-Libris faça como a AMB3 Gestão Ambiental, ajude este podcaster a divulgá-lo e a mantê-lo. Lá no site idigitais.com você tem mais detalhes sobre como fazer isso. Você pode ainda ajudar o Ex-Libris dando umas estrelinhas lá no iTunes, palmas no anchor.fm e nos outros agregadores nos avalie do jeito que eles permitem. Isso ajuda muito a manter este podcast.

Saúde, paz, grato pela companhia e até a próxima.

Ex-Libris, inteligência com propriedade.

I Dig it 099

É NOS SEGUNDOS – fluidos e quase desprezados – que se encontram o brilho nos olhos, as alegrias e os sorrisos de uma vida.

OMDTM: Como um Estado sério e comprometido com o conceito de nação, encara a saúde de sua população como política de estrutura social, econômica, sob uma ótica científica e tecnológica.
Poesia Numa Hora Dessas?: Na 1ª Bienal do Samba de calça culote e paletó almofadinha

OPDSM: A Morte da Tartaruga

CNR: Sherazade (a da seção não tem esta grafia)

EAIQAUP: Darwin Awards de 2013

Jazz em Paz: The End of the World de Sylvia Dee e Arthur Kent – versão jazzy com Skeeter Davis e a voz de Niia

Background: Maria / Delilah / Lulu’s Back in Town / Miss Otis Regrets (she’s unable to have lunch today) / Angelica / Stella by Starlight / Louise / Bess You is My Woman / Liza / Nancy / Laura /Alice in Wonderland (album Loved Ones Branford e Ellis Marsalis)

Música Incidental: a abertura de O Guarani (Carlos Gomes) e Hail the Chief (domínio público)

email: idigitais@gmail.com – twitter: @idigitais_REAL

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I Dig it 077

Hoje tem Podcast Impressões Digitais em sua versão Compacto Duplo, edição nº 77

Compacto Duplo – Lado A: World on a string (Neil Young)

Homo sapiens: Sempre participo de podcasts de amigos e daqueles que me convidam… não nego, nunca negarei, afinal a oportunidade é para todos. Os que não me conhecem podem avaliar minhas opiniões, os que me conhecem podem questionar meu comportamento, os podcasters que me recebem, sempre me ensinam algo, e espero, que possa ter contribuído para o tema.

Em uma participação no Piratacast onde o tema política era o pano de fundo percebi – pela repercussão – que alguma coisa não andava muito clara para a maioria das pessoas… assim decidi fazer este Compacto Duplo.

No Homo Sapiens de hoje, que coincidentemente é gravado no dia em que um Golpe de Estado estrambótico alterou profundamente todo o conceito de cidadania e participação política de um país, posso afirmar que: O MUNDO NÃO É TÃO SIMPLES ASSIM.

Compacto Duplo – Lado B: Dazed and Confused (Led Zeppelin)

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I Dig it 011

INFORMAÇÕES, FALHAS, ESTADO E COINCIDÊNCIAS

INTRO: Elvis (The Pelvis) Presley: Devil in Desguise

OMDTM: Como usar a “cachola”: Primeiro se informe e aí sim, decida; e claro, mais um alerta de vírus para Windows.

Homo Sapiens: Realidade histórica da sociedade norte-americana e sua atual fixação.

OADD:  Diabólica santidade de um fio de cabelo.

CNR: “Coincidências” criativas… instrumentos musicais não-usuais… e + “coincidências”. As máquinas do som.

EAIQAUP: Gravidez na adolescência ou procriação idiotizada?

Jazz em Paz: Wilson Picket (Devil With The Blue Dress On)

Background: Mike Oldfield (Tubular Bells)

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