Transcrição Ex Libris – S01e12

[Comportamento Humano] – Porque sua vida social está uma porcaria.

Como as mídias sociais não parecem ser o melhor ambiente para você ampliar seu conhecimento e suas virtudes, tais como empatia e sociabilidade.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 12º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que o Ex-Libris esteja atendendo suas expectativas. Para eu saber se estou acertando eu preciso ouví-los também. Assim, aguardo sugestões, dê um pulo lá no idigitais.com e deixe seu comentário no post deste episódio, na sua transcrição ou ainda envie um email para idigitais@gmail.com.

O Ex-Libris está disponível em 11 agregadores e serviços: Anchor.fm; Apple Podcasts; Breaker; Castbox; Google Podcasts; OverCast; Pocket Casts; RadioPublic; Spotify; Stitcher e a novidade: Youtube. O endereço rss e todos os links estão publicados na 1ª página do idigitais.com. Começa agora o Ex-Libris sobre Comportamento Humano de 30 de out de 2018, de novo um pouco atrasado. 

Porque sua vida social está uma porcaria ou Como as mídias sociais não parecem ser o melhor ambiente para você ampliar seu conhecimento e suas virtudes, tais como empatia e sociabilidade.

O sucesso das ações de marketing político nas mídias sociais lá na 1ª eleição do Obama já sinalizava para muita gente que este tipo de atividade (marketing político massivo por intermédio de redes sociais) serviria também para outras coisas bem menos honestas. A eleição do Trump mostrou o caminho e a do Bolsonaro demonstrou a efetividade da neo-verdade.

Aquele papo de verdade adequada ao senso de necessidade humana que uma turminha aí chama de pós-verdade foi destruído pela redescoberta de que pessoas sem senso crítico engolem qualquer informação distribuída por redes sociais, e pior, sentem-se compelidas a redistribuir àqueles que acompanham seu perfil.

Como não há fatos e sim versões – principalmente as suas próprias versões, adequadas às suas crenças – tais difusores atuam como amplificadores vorazes daquilo que concordam, da sua verdade. Se o gerador de tais versões é estruturado e múltiplo, ainda maior o poder de inundar milhares de bolhas de influência. Mas, para tal método funcionar com maior efetividade deve-se ter uma polarização muito bem definida, assim a versão difundida contrapõe com a verdade (ou não), validando o pertencimento ao grupo correto, validando o ego: Nós sabemos o que é real, o que é bom, o que é adequado e o que não destrói a crença pessoal, seja ela em Noam Chomsky ou Papai Noel.

Muitos, como eu, sentem-se profundamente incomodados pela avalanche de bobagens que transbordam pelos canais de mídias sociais.  Os mais habilitados nas funções de restrição que as redes sociais fornecem, filtram os temas e os usuários eliminando boa parte da astronômica quantidade de lixo e chorume pseudo informativo que circula pela internet.

[Parênteses]  – Cansei de afirmar ao longo de pelo menos uma década e meia, que internet não é um meio, não é um canal de comunicação, a internet é uma linguagem nova, mundializada e ainda eivada de preceitos e pré-conceitos culturais, ainda repleta de pesos e contrapesos que não permitiram uma consolidação apropriada. Alguns poucos arranham o que chamo linguística da internet. Basicamente é o que estou fazendo aqui hoje. [fechando o parênteses e retornando o fio-da-meada]

Mesmo habilitado a filtrar o que se recebe é necessário ao usuário compreender todas as regras que estes serviços e aplicativos exigem. Além do estudo e controle de como eles se comportam, é imprescindível a habilidade em conceitos complexos de regras boleanas e/ou digitais próprias da Internet, travestidas de frases dúbias e complexas (seja em inglês ou português) para um usuário comum, como, por exemplo: 

Como começar – Você pode iniciar o rastreamento de conversões em duas etapas: 

  1. Crie uma website tag. 
  2. Instale a website tag em seu website.

Para que serve uma rede social que num extremo te enche de informação completamente inútil, seja por baixo valor agregado (tipo “bom dia família” e a inefável foto de bebês vestidos de anjinhos ou da Virgem Maria que circulou em 2005), seja por valor moral ou culturalmente equivocado (nem vou dar exemplos aqui) e no outro extremo por notícias falsas que podem levar pessoas à morte? (aqui eu dou exemplo sim: os malucos anti-vacinas ou veganos que inventam dietas inadequadas para crianças).

Para que serve uma rede social em que qualquer informação – ponderada, calcada em fatos amplamente comprovados por dezenas de fontes fidedignas e/ou métodos científicos – é refutada em nome de Jesus, Pastor Jessé, Zaratustra, por um familiar distante ou um conhecido do conhecido, ou pior ainda, uma rede que inunda sua página pessoal no Facebook com  várias centenas de pessoas desconhecidas que apenas refutam (com falácias ou lógica) o comentário do refutador anterior? 

Boa parte das pessoas creem que o lapso temporal – do ato de refutar em texto algo que interpretou de uma leitura  anterior – as desvencilham do diálogo, do esclarecimento e da empatia social. Isso quando interpretam o texto e avaliam o contexto. Na maioria das vezes as pessoas se atém a uma frase específica, cuja contrariedade ao seu herói, à sua crença ou ao seu desejo, sua paixão, é o único fator existente. Aí não há lógica que suporte o social da mídia.Esses serviços e aplicativos deveriam se chamar Extreme Fight Channel e não Social Media.

Apesar das críticas que muitos fazem às redes sociais (sejam pessoas comuns como eu, ou pensadores, ou você, ou governos), poucos usuários tomam a decisão de apagar as suas contas. Eu já cometi “facebookcídio” uma vez… fui iludido a retomá-lo, e agora estou preso por uma decisão comercial muito equivocada.

O Twitter continua com seus cerca de 300 milhões de perfis, o Facebook tem mais de 2,2 bilhões de pessoas  (PQP quase 1/3 dos seres humanos têm um perfil no serviço), e o Instagram segue crescendo e já passa dos 500 milhões contas. Aqui eu gostaria de notabilizar (no sentido neutro da palavra) a saúde e a capacidade de crescimento da máquina de manipulação de Mark Zuckerberg. Falando em máquinas de manipulação, nenhuma religião, língua ou cultura são tão difundidas globalmente como o Facebook. A única outra ferramenta da Internet que sobrepuja em números esse site criado para ser um Tinder de  universitários é o e-mail, com mais de 5 bilhões de contas. Mas o que me chama atenção da avaliação atual de seus números e projeções sócio-tecnológicas é que o Facebook pode crescer ainda mais. Há países que ele já dominou… Seus dados por continentes e por faixas etárias já eram disponíveis, mas pela primeira vez um estudo dá os números detalhados de usuários por país, de suas idades específicas e gênero e do uso diário ou mensal. Além de impressionar os números dão a dimensão de um futuro um tanto caótico, eu diria distópico.

Exceto em casos como China, Coreia do Norte, Irã e Síria, onde sua presença, de qualquer modo, é proibida, e de alguns bilhões de centro-asiáticos e africanos, a base do império do Mark abrange mais de 200 países (já, já a FIFA perde a hegemonia com seus 212 países. Na sua base de atuação principal, ou seja nos países desenvolvidos, o “Feice” – como a gente chama por aqui – não fraqueja, nem demonstra sinal de queda no uso. Estabilidade é a definição atual. Na visão de alguns analistas “Além de ativo e estável, o Facebook possui capacidade de crescimento e está na renovação contínua de suas funções básicas”. No Brasil e América Latina, há um ano, o Facebook busca a renovação e reestruturação de toda sua base comercial e de evangelização empresarial – deixo os comentários sobre estas informações para o Cris Dias.

O método de ganhar dinheiro do Mark é simples (em tese) e de uma implementação complexa e cara “p’ra burro”. A maquininha digital oferece aos seus anunciantes um aplicativo com centenas de opções fornecidas por seus usuários, ou seja dados pessoais, geográficos e de gostos afins, dados estratificados e massivos, bem definidos possibilitando a venda de e para um público bem mais definido também. O aplicativo permite uma infinidade de análises, como p. ex., avaliar comportamentos pelo seu “lugar de residência”, mas também pelo “lugar atual” ou quando você está “em viagem”. Percebeu a audácia do sistema? 

Na maioria do continente africano e da Ásia Central, a presença do Facebook é abaixo de 30% entre os maiores de 13 anos, a idade mínima legal para criar uma conta na rede em alguns países. Lembro quando aqui era 18 anos. Atualmente para ter conta no Instagram é preciso ter 16… Para continuar crescendo, o Facebook precisa de mais usuários potenciais, adivinha aonde? Claro, na África e na Ásia Central. Nos países desenvolvidos o crescimento é orgânico, tudo funciona desde a infraestrutura até superestrutura. Para crescer o Mark precisa que a Internet chegue até os usuários, assim, a companhia investe em infraestrutura de Internet na África e nos outros paísesda Ásia Central.

Desde 2015, a ferramenta principal de interseção infra e superestrutura da corporação é o Free Basics, um aplicativo desenvolvido pelo Facebook que dá acesso, sem precisar pagar dados no celular, a uma seleção de sites sem fotos nem vídeos em dezenas de países. O Facebook tem um acordo com a Internet Society para levar pontos de troca de tráfego (IXPs, na sigla em inglês) aos países africanos cuja Internet ainda depende de infraestrutura além das suas fronteiras, o que obviamente não permite uma conexão de dados decente. Nos países subdesenvolvidos, ele cresce mais em zonas urbanas, com muita gente empregada. Esse é seu viveiro de potenciais usuários.

Na Noruega apenas 12% da população não tem conta no Facebook, 2% o acessa sem constância e os demais 76% diariamente. 

Se o jovem Soren Johannsson conquistar 2 milhões de assinantes para seu canal no Facebook ele faz a fortuna na Noruega, pois ele conseguirá atingirá 50% dos usuários. 

Nota: Youtubers brazucas, tá na hora de fazer greve e exigir uma graninha melhor aí… ou então estudar norueguês. O Google tá se refastelando nesse ecosistema dele.

Suécia e Dinamarca têm cifras parecidas. No sul da Europa, Itália e Portugal são os países mais ativos: só 30% dos cidadãos maiores de 13 anos não têm conta, mas 70% dos que têm, acessam o “Feice” diariamente. A Espanha está ligeiramente abaixo, com 65% de usuários ativos e algo como 30% de maiores de 13 anos sem conta. Nos Estados Unidos, cujos usuários são os que mais ganhos dão por publicidade ao Facebook, 11,3% dos maiores de 13 anos não acessam esse serviço. Porém 66% acessam diariamente. No Brasil, 18,8% dos maiores de 13 anos não têm perfil. Não consegui os números sobre acesso dos brasileiros no caso diário. E não vou procurar agora…

O Facebook, assim como Apple, Google, Microsoft possui uma política de não revelar cifras de usuários por país, mas sim coisas como faturamento médio por usuário seja de produto, serviço ou região geográfica. No caso da empresinha do Zuckerberg ela informa o  faturamento médio por usuário procedente de anúncios em cada continente. No segundo trimestre de 2018, ela faturou coisa de 8,62 euros (36,30 reais) por usuário na Europa. Com a cifra de usuários por país, pode-se fazer um cálculo simples. Por exemplo, se na Espanha 65% da população com mais de 13 anos tem conta, isso representa 25 milhões de pessoas. O resultado é que o Facebook fatura em publicidade mais de 200 milhões de euros (cerca de 842 milhões de reais) na Espanha. Em 2017, entretanto, o Facebook  declarou prejuízos de quase um milhão de euros na sua filial espanhola.

Crianças… eu já ensinei – anos atrás no Impressões Digitais – que uma coisa é faturamento, outra coisa é contabilidade.

Dados de um estudo na Espanha e publicados em 2018 demonstram que o número de novos registros dispara aos 18 anos, o que pode ter que ver com a maioridade: “O salto aos 18 anos não é casual. São adolescentes cujos pais não permitiram ter Facebook até que completassem a maioridade”, diz David García, pesquisador do Complexity Science Hub de Viena.

O mapeamento demonstra que após 18 anos há um arrefecimento e nova explosão em torno dos 25 anos (quase 50% de aumento relativo aos nº de usuários aos 18) facilmente explicável pelo término da faculdade e busca de inserção social e profissional. Novamente há uma diminuição do nº de usuários até os 30 anos (que retoma o nº de usuários relativos aos 17 anos) e um aumento, discreto, aos 31 para 70% do pico atingido aos 25 anos. Ao que tudo indica, aos 31 anos e ao fim das extensões universitárias e medianas profissionais no setor de marketing a quantidade de usuários entra em declínio formal de desinteresse. [Fonte: ‘A large-scale analysis of Facebook’s user-base…’, de Yonas M. Kassa, R. Grutas e Á. Grutas.]

O monopólio atual, nem se mexeu pelas crises da Cambridge Analytica, das fake news ou da violência em países como Myanmar, Sri Lanka e Filipinas. Em Myanmar, onde o Facebook admitiu sua responsabilidade na difusão de mensagens de ódio contra a minoria rohingya que está sofrendo um processo de genocídio – pô cara, há tempos os rohingyas fogem de Myanmar para Bangladesh, você sabe o que é Bangladesh? Imagina a situação em que você está em um lugar tão Bolsonaro, mas tão Bolsonaro que cair nos braços do PT da Dilma é a melhor coisa do mundo. Em Myanmar as palavras “Facebook” e “Internet” são sinônimos. Ninguém entra na Internet, eles entram no Facebook. Por essas e outras é que eu acho que Myanmar parece com algo que a gente conhece.

[parentêses] – Por sinal, tem um enrosco bem grandão nessa coisa de divulgação e substituição de conceitos, e que acabou virando um nicho de mercado. As agências fact-check nasceram pela incompetência das mídias sociais manterem  controles mínimos sobre o que é divulgado em massa sobre assuntos socialmente e politicamente sensíveis. O incontrolável Feice forneceu meios de divulgação massivos de informações e várias empresas que aglomeraram jornalistas e analistas de big-data ganham uma graninha para – cheias de razão – questionar o trend do momento e assim sobreviver. Você sabe… jornal, seja na TV ou  no papel, ou entra no ar daqui algumas horas apenas ou só sai amanhã. [fechando os parênteses]

Mais uns dados sobre Myanmar – o Brasil de amanhã. O país viveu sob uma junta militar até 2011… a gente corre risco de ficar até 2026. Hoje, mais de metade da sua população tem conta no Facebook, e desse contingente, 44% o usam diariamente. O crescimento é extraordinário.

Apesar da solidez dessa tendência, nada na Internet é para sempre. O Facebook reina hoje, mas já vimos como muitas redes sociais antes foram p’ro brejo: Friendster, Jaikku, MySpace, Orkut, o Google Plus – você conhece? Pois então há anos ele tenta ser o concorrente do Facebook e o Google acabou de matá-lo. Já já ele para de.. ahn… é… hum… funcionar. Umas redes sociais substituíram outras, a que ainda resiste é o Facebook. As críticas por suposto monopólio, multas bilionárias pelo hackeamento de dados, os temores com a falta de privacidade e o cansaço dos usuários são as ameaças cotidianas para o Facebook. Por enquanto, no entanto, nada o afeta. Por enquanto…

Como disse no início eu já cometi “facebookcídio” uma vez, minhas justificativas de volta e permanência no “feice” são fracas, você pode descrevê-las como hipócritas mesmo. Eu sai, esgoelei, esbravejei e denunciei o Facebook, mas sucumbi e refiz uma conta apesar de minha ampla consciência do perigo. Ocasionalmente me entrego ao voyeurismo do News Feed, sucumbo à rolagem de zumbis e chorume de imensos e avassaladores textos inócuos e me pego – inutilmente fazendo mais um textão – só para sofrer vendo inúmeras respostas estúpidas, agressivas e odiosas de quem nem parou para sopesar que aquela é minha área de expressão e o intuito é a abertura para um argumento compreensivo ou um contra argumento que demonstre um ângulo não abrangido, obliterado por minha limitação humana. Sou um boçal. Renitente.

Mas como eu poderia descrever a perniciosidade da plataforma se eu nunca a usasse? É muito mais fácil eu atacar um ente – apesar de incorpóreo, corporativo – do que envergonhar minha tia ou colegas do escritório – ou abandonar sua própria longa lista de “amigos”.

Amavelmente eu indico alguns argumentos para você repensar sua vida em mídias sociais:

Você está perdendo sua liberdade.

Os serviços e aplicativos sociais registram todas as nossas ações: o que compartilhamos, o que comentamos, o que curtimos, o que compramos, onde vamos, o que vivemos. Somos cobaias de laboratório, monitoradas a cada segundo, participamos de uma análise constante para que os anunciantes e agentes políticos nos enviem suas mensagens quando estivermos mais suscetíveis a elas.

A turma que ganha dinheiro de verdade com mídias sociais distribui notícias falsas em um sistema desenhado para ajudar marketeiros alcançarem seu público-alvo com mensagens bem testadas para conseguir sua atenção. Taí o Bolsonaro que não me deixa mentir. Para os sistemas de mídias sociais tanto faz, como tanto fez se os “anunciantes” são empresas que querem vender produtos, partidos políticos ou difusores de notícias falsas. O sistema é o mesmo para todos, e melhora quando as pessoas estão irritadas, obcecadas e divididas.

Com certeza as mídias sociais estão lhe deixando infeliz. É intuitivo, todos nós percebemos isso… apesar das possibilidades de conexão que as redes sociais oferecem, na verdade sofremos uma sensação cada vez maior de isolamento por motivos tão tortos como os padrões irracionais de beleza e status, por exemplo, ou a vulnerabilidade aos trolls, ou mais efetivo ainda, a quantidade de gente que NÃO nos segue. Os algoritmos destes sistemas nos colocam em categorias e nos ordenam e coordenam segundo nossos amigos, seguidores, o número de curtidas ou retuítes, ou o muito ou o pouco que publicamos… Ou seja, você sempre é lembrado que está sendo avaliado, medido, classificado e pior… a tabela de classificação está sempre meio oculta em sua descrição clara – 25 retuítes, 85 amigos curtiram… o que quer dizer issoi? Quer dizer que você só tem 25 pessoas de sua rede que acharam bacana sua ideia a ponto de transmití-la e 85 acharam “apenas bacana”… e isso, é bom ou é ruim? Esquece, seu cérebro sempre, eu disse sempre, irá processar esta situação seletiva como “puta merda eu sou um bosta”, pode perguntar p’ro André Souza.

De repente você e outras pessoas fazem parte de um monte de competições das quais não pediram para participar. Isso é estressante… São critérios que nos parecem pouco significativos, mas que acabam tendo efeitos na vida real. Nas notícias selecionadas que vemos, nas amizades e relacionamentos sugeridos, nos produtos ofertados e até na cumbuca patrocinada pelo B9 do Merigo . Também podem acabar influenciando sua vida profissional, os RHs de todo tipo de empresa (das pequenas até as gigantes multinacionais) vasculham suas redes sociais   para sim, avaliar, qual o  seu estilo de vida e qual o risco que você pode trazer aos seus negócios. E para piorar, eu sei você vai negar, mas mesmo sob essa aparente calma budista é certo que há um troll dentro de você. 

No contexto das redes sociais, as opiniões se polarizam, somos provocados constantemente por este ambiente e frequentemente as discussões descambam das oportunidades para um diálogo, para uma disputa com objetivo de ganharmos alguns pontos às custas de expor os outros, numa espécie de antidialética da lacração. É inevitável, não somos tão amáveis como gostaríamos de ser 100% do tempo.

A verdade virou mito na maioria das postagens. 

As teorias da conspiração mais loucas, idiotas e perigosas  (como por  exemplo as dos antivax) frequentemente começam nas redes sociais, onde seu eco se amplifica, frequentemente com a ajuda de bots, bem antes de aparecerem em veículos de comunicação extremamente partidários. O terraplanismo, por exemplo, nasceu a partir de grupos de Facebook , amplificados por um algoritmo que dava repercussão a essas publicações e compartilhavam mais por seu conteúdo disparatado do que pelo seu verdadeiro alcance.

Nosso brasileiríssimo exemplo eleitoral agora de outubro de 2018 representa perfeitamente a manipulação da informação com objetivo político e de um perigoso efeito secundário: o esgarçamento social. O que nos leva a mais um motivo para nos afastar do Twitter, Facebook, inclusive o WhatsApp e os serviços do Google.  

Tais sistemas estão acabando com a sua capacidade de empatia criando uma retro-alimentação da certeza equivocada. 

Essa afirmação argumentativa apoia-se principalmente no conceito criado em 2011 por Eli Pariser: o filtro bolha. No Facebook, por exemplo, as notícias aparecem na tela de acordo com as pessoas e os veículos de comunicação que seguimos e, também, dependendo dos conteúdos de que gostamos. No Twitter, no Whatsapp o efeito é ainda pior… você segue quem lhe parece fiável, semelhante, e é seguido pelo mesmo motivo, e os algoritmos lhe apresenta outros que bordejam o seu espectro de relacionamento digital. A consequência é que nas redes frequentemente acessamos somente a nossa própria “bolha”, ou seja, tudo aquilo que conhecemos, com o que estamos de acordo, o que nos faz sentir confortáveis, o que nos acarinha… Não vemos outras ideias, outras informações, contrapontos… recebemos apenas suas caricaturas, suas versões. E, consequentemente, em vez de tentar entender as razões por trás de outros pontos de vista, nossas ideias se reforçam e o diálogo torna-se cada vez mais difícil até deixar de existir. Né, troll?

Há certos momentos que me sinto convencido de que a mídia social é tóxica, tornando-nos mais tristes, mais raivosos e mais isolados. Se você estiver ativo nas mídias sociais irá reconhecer rapidamente o conceito de “reforço aleatório:, explicando: o vício alimentado não por recompensa, mas por nunca saber se ou quando a recompensa chegará.

Qual a recompensa esperada por você, usuário comum, quando publica textos inócuos, reflexivos, discutíveis, exuberantes, profundos, estapafúrdios, ou completamente idiotas? Likes? Aprovação do seu público bolha? Seguidores? Replicação de suas ideias? 

Atuar, na maioria das vezes nas redes sociais é na realidade uma egotrip bem mequetrefe. Exceção aos profissionais que a usam – por intermédio de personas ou personagens – para divulgar ideias, marcas, ideologias, ou seja, fazer marketing puro e cristalino.

Os algoritmos destas redes sociais estão estruturados para  tentar capturar os parâmetros perfeitos para melhorar o modo de manipular as suas reações, as reações de seu cérebro.  Ao mesmo tempo que o cérebro, na busca de um significado mais profundo, não muito definido, retro-alimenta o sistema fornecendo indicativos para nada real, mas para uma ficção egocêntrica. Esse processo – de desencadear emoções e de ficar preso a uma miragem indefinível – é o vício.

Deixar as redes sociais, ainda que somente por algum tempo, pode ser uma excelente forma de saber como estas estão nos prejudicando e, principalmente, de percebermos o que elas poderiam nos oferecer de verdade. O tempo e a atitude contemplativa, de se observar destituído destes laços emocionais ajudam a notar o que nos faz falta. Qual a motivação de interagir por meio das redes?

A mídia social tal como está engendrada economicamente faz à política um trabalho desastroso, possibilitando ações tendenciosas, não para a esquerda ou para a direita, mas para baixo, como já disse, rompendo o tecido social e a crença em informações factuais.  

  • Se desencadear emoções é o prêmio mais alto destes sistemas, e as emoções negativas são as mais fáceis de desencadear, como as mídias sociais podem não deixar você triste? 
  • Se o seu consumo de conteúdo é adaptado por observações quase ilimitadas colhidas sobre pessoas como você, como poderia o seu universo não colapsar na representação parcial da realidade que pessoas como você também gostam? 
  • Como poderia a empatia e o respeito pela diferença prosperar nesse ambiente retro-alimentado pelo seus  espelhos?
  • Onde está o incentivo para eliminar contas falsas, notícias falsas, exércitos de trolls pagos, e “bots dispépticos”?

Como nosso ecossistema informacional foi destruído, colocamos muito pouco ônus sobre os mais de 2,5 bilhões de usuários do Facebook e do Twitter. Portanto, agradeço – tal qual Hommer Simpson – à minha consciência por distribuir parcela da culpa ao usuário médio, que fez do Twitter, do Facebook e outros ambientes algo muito mais rude que o infantil Orkut, algo muito menos empático, e algo muito mais tribal. Temo que nossa confiança em grandes empresas de tecnologia esteja arruinando nossa capacidade de espiritualidade, transformando-nos em extensões eletrônicas – no sentido de binárias, ou em português tangível, em extensões simplistas, de ação e reação – de suas máquinas de processamento. Como cético confesso, tenho o dever de determinar muito bem o termo espiritualidade citado: por favor não o confunda com religiosidade. 

  • Religião exige e espera de um crente um comportamento vital, e por tal retidão comportamental – calcada em alguma regra escrita por algum sábio – uma recompensa posterior, nem que esta seja após a morte.
  • Espiritualidade eu compreendo e trato como a propensão humana de buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível, ou seja, o processo de procura de um sentido de conexão com algo maior que si próprio, seja o campo para um camponês, uma pedra a beira do rio para Shidarta, ou o próprio Universo para mim. 

A tecnologia, como já explanei em podcasts anteriores não é determinista, ela apenas age como ferramenta, como instrumento para os desejos de nossa mente humana. Conglomerados tecnológicos não entendem a magia da consciência humana, pois além de imersiva, ela é incontrolável e mercadologicamente intangível, e portanto, a destroem de forma imprudente. E se não nos prepararmos por meio da compreensão e entendimento do que hoje ocorre com a raça humana, neste grande hiato histórico que a tecnologia de informação propiciou, podemos cair no fosso sem fim que defino nesta frase: 

“Se você não faz parte da solução, não haverá solução”.

O Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro, hoje nem tanto, sobre Comportamento Humano, acabou. Se você gostou do Ex-Libris faça como a AMB3 Gestão Ambiental, ajude na divulgação e manutenção deste projeto. Lá no site idigitais.com você tem mais detalhes sobre como o fazer isso. Você pode ainda ajudar o Ex-Libris divulgando este episódio entre seus amigos, dando umas estrelinhas lá no iTunes, palmas no anchor.fm e nos outros agregadores nos avalie do jeito que eles permitem. Essa atitude ajuda muito a manter este podcast e também a nossa sanidade.

Saúde, paz, grato pela companhia e até a próxima.

Ex-Libris, inteligência com propriedade.

Transcrição Ex Libris – S01e11

[Política] – Does the Winter is Coming?

O Homem de bem contra tudo isso que está aí ou Quando a nau sai do controle por absoluta falta não de vento, tripulação ou capitão, mas de leme.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 11º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que o Ex-Libris esteja atendendo suas expectativas. Para eu saber se estou acertando eu preciso ouvi-los também. Assim, aguardo sugestões, dê um pulo lá no idigitais.com e deixe seu comentário no post deste episódio, na sua transcrição ou ainda envie um email para [email protected].
O Ex-Libris está disponível em 11 agregadores e serviços: Anchor.fm; Apple Podcasts; Breaker; Castbox; Google Podcasts; OverCast; Pocket Casts; RadioPublic; Spotify; Stitcher e a novidade: Youtube. O endereço rss e todos os links estão publicados na 1ª página do idigitais.com
Recebi feedbacks solicitando que eu faça a escalada ou seja que eu cite ao menos o tema que será tratado em cada episódio, pois isto ajuda – conforme a dica que recebi – o envolvimento do ouvinte. Então… Começa agora o Ex-Libris sobre Política de 23 de out de 2018, um pouco atrasado…

O Homem de bem contra tudo isso que está aí ou Quando a nau sai do controle por absoluta falta, não de vento, nem tripulação ou capitão, mas de leme.
O titulo do podcast de hoje é: Does the Winter is Coming?
Pois então, a resposta é sIm.
O Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro, hoje sobre Política, acabou. Não, peraí… não é nada disso, ou pelo menos não é algo tão simples assim…
Antes de acabar e para falar do presente e do futuro, tenho que voltar um pouco no tempo. Senta que lá vem história…

PSDB e PT protagonizaram a partir de 1994 o cenário político nacional, não deixando espaço para mais nada, apenas duas dezenas de partidos de aluguel, exceção ao PMDB, o mais fisiológico dos partidos desde da era pós-Sarney. Neste fim de 2018, quase 25 anos depois, ambos ex-protagonistas agonizam em suas próprias culpas inconfessáveis, ao menos publicamente. Em 2014 estes dois partidos cristalizaram a disputa do poder maior e como tudo indicava iriam manter, como mantiveram, essa dualidade: ‘nós’ versus ‘eles’, mesmo que o ‘nós’ incorporasse o PMDB, que antes estava incorporado ao ‘eles’. Tudo sempre foi uma questão de matemática, e benesses, cada um dos dois partidos possuía cerca 20% dos votos do eleitorado então, o PMDB era – com seus históricos 10% – o fiel da balança desde Collor. Obviamente os pequenos partidos se agregavam – hora de um lado, hora do outro – no famoso fisiologismo de balcão. Ou seja, “eu voto com você e você me facilita uma obra, um empenho financeiro, uma indicação, alguma coisa”.  Daí pra sair do ‘ajutório’ de uma aprovação para 2 turnos presidenciais, e se transformar em uma mensalidade perene foi um pulinho eleitoral (bancado por uma máquina azeitada a dinheiro privado abastecido por obras estatais).

O governo do PT mesmo tendo vários de seus líderes envolvidos, citados, processados, encarcerados, sobrepujou (não me pergunte como) o escândalo do Mensalão em 2005, conseguiu reeleger em 2006 o Presidente, mas eles não estavam mais tão impolutos como em 2002.
Algo cheirava mal – “mas sempre cheirou”, diziam alguns, outros diziam que “agora o cheiro é bem pior que o do anterior” – mas isso não importava muito naquele momento, o Mundo estava enfrentando o tsunami das primes e aqui Lula, lá na praia construía seu castelinho enfrentando apenas marolinhas.

Todo mundo ganhava dinheiro, a economia ia forte e pujante, a brasileirada lotou os voos para Orlando, teve habitueé que não gostou da invasão da classe média nos aeroportos e nos arredores da Oscar Freire, mas o comércio, a indústria, os bancos a-do-ra-rão… e por ai se construiu a eleição de Dilma Roussef, conduzida pela mão do incensado Lula. Afinal, tem que ter muita moral para pegar uma burocrata, bem marromeno, e transformá-la na mãe do PAC, o programa que iria alavancar o Brasil para o futuro nadando no petróleo do pré-sal e sem dívida externa. Mas a economia mundial… hum, foi de mal a pior, e a queda nos preços das commodities brasileiras acentuou-se em 2013, acabando com nosso ciclo virtuoso de crescimento.

O governo do PT em seu terceiro período presidencial, patinava, não estava mais empolgando aqueles que deram 85% de aprovação ao Presidente anterior e no início de 2013, 79% de aprovação a Dilma. A mesma Dilma que em junho de 2013 amargava uma aprovação de 55% e já em julho míseros 31%. Mas o que aconteceu em Junho?
O movimento que começou como simples protesto contra o aumento da tarifa de transporte público em São Paulo, algo localizado, de âmbito da Prefeitura, cresceu, pois envolvia o Estado, além do ônibus municipal havia o metrô estadual. Os estudantes nas ruas e a repressão exarcebada da PM de SP foram como gasolina na fogueira, quanto mais a PM batia mais gente nas ruas de São Paulo, mais capitais entravam na onda, mais cidades protestavam e uma frase comum ecoava em todas manifestações, sem exceção: SEM PARTIDO, SEM PARTIDO.

Qualquer militante que ousasse levantar um cartazinho que fosse com símbolo, sigla, qualquer coisa que ligasse a um partido era reprimido na hora pelos participantes aos gritos de SEM PARTIDO.
A coisa chegou ao ponto da população ocupar a Esplanada e o Congresso Nacional exigindo tudo o que era possível e o que podia, e uma certeza TEM QUE MUDAR TUDO ISSO.

Nascia ali o mote para uma processo inédito… nem o Ocuppy Wall Street contra a iniqüidade econômica global, dois anos antes, foi tão espetacular na indicação daquilo que viria nos surpreender nos anos seguintes.
Os políticos – diante de tal movimento popular, espontâneo e vibrante – como sempre, fecharam-se em copas. Afinal como dizia o político e sábio Ulisses Guimarães, o que o político mais teme é o povo na rua. Depois de muitos manifestantes e jornalistas feridos e presos por atos de vandalismo de um auto intitulado Black Block, que assim como surgiu, sumiu, da descoberta de oficial militar infiltrado em grupo de vandalismo, e a cereja do bolo: a prisão, processo e condenação de um morador de rua por portar um vidro de pinho-sol durante as manifestações, estas foram arrefecendo graças aos panos quentes, ou seja, as promessas de mudanças encaminhadas pela Presidência para um Congresso já assustado e que também já demonstrava sinais de rebeldia. O movimento político deu resultado e as coisas entraram em regime de calmaria já em agosto tal qual estavam em maio de 2013. Aparentemente, apesar dos ventos econômicos contrários vindos do exterior o governo Dilma terminou 2013 sem outros grandes sustos…

Até Março de 2014, quando a prisão de um doleiro – já bem conhecido por um escândalo anterior envolvendo a inciativa privada e o governo paranaenses – detonou a Operação Lava-Jato (na transcrição deste episódio tem o link para a linha do tempo completa desta operação  que expôs de vez ao público leigo como a máquina do Estado funciona de verdade. E em pleno ano eleitoral, meu deus do céu! A devassa iniciada pelo juiz Sérgio (êita nome supimpa) Moro – fez com que a elite brasileira (que por acaso, é algo assim como ‘os vendilhões do templo em associação com seus sacerdotes’, só para usar uma figura de linguagem bíblica)… emitisse por meio de suas confederações nacionais sinais de que todos deveriam operar em modo “oh shit”. Pouco adiantou, o governo Dilma surpreendeu alguns e apavorou mais ainda outros, não interferindo em momento algum nas operações da PF a mando do Juiz Sérgio Moro. O modo “oh shit” mudou para “full shit red alert!

O PSDB 2 – aquele que não passa direito por São Paulo, e nem perto de certo apartamento em Higienópolis – esfregou as mãos e disse com todas as letras: Mercado, agora somos nós! E o ipanemense Aécio foi a luta.
Enquanto isso, na sala da Justiça, o Ministro José Eduardo Cardozo declarava “que não caberia a ele controlar as operações da Polícia Federal, e que, apesar de submetida ao ministério por ele administrado, ela teria autonomia para investigar dentro dos limites da lei”.

A briga foi intensa entre PT e PSDB, o antagonismo foi aos extremos, um lado transformou o outro em salgadinho e o outro lado transformou o ‘um’ em personagens da Disney. As torcidas se digladiaram na Paulista, famílias se dividiram batendo panelas, baldes de matéria fecal foram jogados por ambos os lados em seus ventiladores midiáticos, acusações de lava-jato trocadas (você tem apoio de corrupto, o teu partido também), tintas fortes pintaram os azuis e os vermelhos… parecia o festival amazônico de Parintins, só que violento.  Juntos, enlameados ambos finalizaram um 2º turno, por um caprichoso destino, abraçados na praia… e por apenas 3,2% (coisa de 3 milhões e 400 mil votos) Dilma teve seu cargo garantido.
A presidenta teve seu calvário iniciado por uma série de decisões desastradas e declarações cada vez mais caóticas e sem sentido lógico algum – olha só o p.ex.:

“Eu acredito que nós teremos uns Jogos Olímpicos que vai ter uma qualidade totalmente diferente e que vai ser capaz de deixar um legado tanto… porque geralmente as pessoas pensam: ‘Ah, o legado é só depois’. Não, vai deixar um legado antes, durante e depois.”

E por aí a Dilma ia… Em 2015 numa manobra do grupo fisiológico, e hoje sabido de desague de um dos propinodutos, fez com que o Deputado Eduardo Cunha fosse eleito presidente da Câmara. Um de seus concorrentes, hoje protagonista de destaque recebeu apenas 4 votos.
A lava-jato ampliou seu estrago: A delação de Nestor Serveró ex-diretor da Petrobras abre caminho para a prisão de muita gente; inclusive do senador Delcídio Amaral por tentar atrapalhar as investigações; assim como de Andre Esteves do BTG-Pactual; Teori Zavascki, do STF, autoriza a investigação de 47 políticos. Ele também retirou o sigilo da lista dos investigados; André Vargas (PT do PR) e Luis Argolo (Solidariedade da BA) são presos por corrupção e lavagem de dinheiro; é decretada a prisão de vários empreiteiros como Otávio Marques, presidente da grande Andrade Gutierrez e Marcelo Oderbecht presidente da maior ainda Oderbecht que até hoje possui algumas cartas na manga. A lista é longa… coisa de um centena e meia até hoje. Mas na época bastou para o modo “full shit red alert” do esquemão empresariado mais congresso mudar para: stop that shit NOW!”

Creio que a decisão político-econômica que acabou por despedaçar o governo Dilma foi a desoneração dos impostos para a indústria, em setembro de 2015 – a bagatela de 458 bilhões de reais ao longo de 4 anos.
As confederações sorridentes se comprometeram com o governo a baixar os seus preços para aquecer a economia em troca da desoneração de impostos… Você baixou seus preços? Pois então, nem eles.

E como farinha pouca, meu pirão primeiro.
As empresas embolsaram o lucro e as desonerações, e investiram no mercado financeiro, no PMDB e em todo o baixo clero fisiológico da Câmara (dizem as más línguas que até juízes supremos entraram na festa, mas aí é dar voz a boatos… como não há provas, vamos deixar pra lá).
Por fim, e sem que a Dilma pudesse fazer qualquer coisa, o empresariado mandou um sonoro: “TIVIRAÍ” PRESIDENTA.

Nem a própria Dilma, nem os ministros e na verdade, nem o próprio PT se ajudavam. Tudo era uma zona, um caos e para ajudar o Moro não largava a canela do Lula desde os meados de 2015; fazendo a alegria da mídia e da turma que depositava no PT as culpas e ódio por suas perdas de poder aquisitivo e de prerrogativas em contratar empregados a custo equivalente a 10% de cartas de alforria. Com o apoio também do PSDB do Aécio – ainda magoadinho por ter perdido as eleições – o centrão e os afastados do poder urdiram um movimento de esvaziamento político e econômico do governo muito mais agressivo que o perpetrado desde 2002. Este novo movimento visava quebrar a coluna do PT ainda durante o mandato, através da prisão de Lula ou de um impeachment da Presidenta, e assim estancar a sangria com supremo com tudo, delimitando tudo.

Tudo arranjado com o vice-decorativo para que ele, em algumas semanas, escrevesse permanentemente as palavras imortais que flutuavam em sua mente [http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/12/leia-integra-da-carta-enviada-pelo-vice-michel-temer-dilma.html] “Verba volant, scripta manent” deu-se início a um processo político de golpe perfeitamente engendrado utilizando-se as franjas das leis administrativas que nunca haviam sido observadas por nenhum outro ocupante do cargo e que sustentou a decisão da Câmara, sob o comando do Eduardo Cunha, de abrir o processo de impeachmeant.  A manobra foi juridicamente bem urdida – se bem que não há até hoje unanimidade entre os juristas sobre a legalidade da peça – e não me venha falar que isso saiu da cabeça de algum deputado que eu vou rir na cara do Hélio Bicudo, do Miguel Reale Jr e da Janaina Paschoal.
O desfecho, todo mundo lembra, em 31 de agosto de 2016 muita gente pulou, gritou, sorriu, chorou, comemorou como se fosse a conquista de um campeonato mundial de futebol.
“Agora sim, tudo vai mudar, tchau quirida, agora tudo se ajeita”

E… o Temer começa o seu (des)governo de cara propondo – conforme agenda do mesmo grupo que apoiou o impeachment e a sua manutenção no cargo – um reforma trabalhista que.. ummm… em português tacanho: funhanhou com todo e qualquer trabalhador brasileiro. É meu caro, assim… quando você, ou qualquer um dos outros 14 milhões de desempregados deste país, conseguir uma vaga, descobrirá o tamanho da sua perda de segurança trabalhista e de seu valor no mercado. Pois mesmo sendo cortadas algumas modificações, o que foi aprovado em julho de 2017 é um terror.

Temer e seu grupelho na Câmara liderado pelo mesmo Eduardo Cunha ainda conseguiu aprovar a PEC do Teto (ideia do Henrique Meirelles, lembra da agenda?), PEC que congelou por 20 anos o orçamento da União, permitindo apenas a correção pela inflação. Ou seja, se houver crescimento econômico neste período, não há possibilidade de revisão do congelamento. Bacana, né?

A reforma da previdência social proposta pelo governo Temer – na verdade foi bolada e sustentada, de novo, pelo Henrique Meirelles – iniciou-se em 2016 com a PEC 287, que propunha alterações no sistema previdenciário brasileiro, modificando as regras de aposentadoria. A tramitação da reforma foi suspensa pelo governo em 2018, tanto pela falta de votos (ou seja, apoio do Congresso) que a fez patinar nos escaninhos, como também pela intervenção federal no Rio de Janeiro, cujo período de vigência impede, por força de lei, que a reforma seja aprovada.

Para se ter uma ideia de quão querido é nosso atual presidente decorativo temos seus índices aproximados de aprovação pela população a cada semestre (nem vou apresentar os índices de rejeição, são humilhantes).
Em junho de 2016 o índice de aprovação do Temer era de 13%; em janeiro de 2017 manteve-se em 13%; já em junho de 2017 o índice caiu para 5% e manteve-se assim em janeiro de 2018; em junho agora de 2018 Temer amargava 4% de aprovação. Os dados sugerem algo bem claro, não?

Desde que assumiu a presidência, o governo e seus pares, sejam legislativos de qualquer matiz, executivos de qualquer calibre ou judiciários de qualquer vara, não deixam passar uma semaninha sequer sem sacrificar a população, seja torrando a grana do contribuinte, seja manipulando poderes e benesses entre bancadas, em atitudes comezinhas de nepotismo e de locupletação explícita… Mesmo com a Lava-Jato comendo solta a turma não parou de roubar! Se bem que neste ano eleitoral estão enchendo o Sérgio Moro de Lexotan, só pode. A Lava-Jato anda murchinha, murchinha.

Ao longo desses anos o grau de insatisfação com o status quo só ampliou, e todos os partidos – como o destruído PT, o desatento PSDB, o pululante PMDB que mudou de nome para tirar seu da reta e das manchetes (como outros tantos partidos sujos demais que nem um lava-jato resolve) até as dezenas de nanicos parasitas que orbitam os primeiros – acharam que as eleições de 2018 seriam exatamente a mesma coisa que das outras vezes: Nós versus Eles. Um outro azul… mais clarinho contra um vermelho.. bem desbotado.
“É uma baba, basta fazer uma puta coligação gigantesca pegar um monte de segundos somar tudo e teremos toda a mídia legal ao nosso dispor, e o resto fica com alguns segundos. Vamos sufocar a concorrência”, diziam os tucanos
Enquanto a estrela solitária avaliava: “Vai ser difícil mas nós temos o mártir, o novo Mandela, o povo irá conclamar e garantirá a sua liberdade neste processinho sem suporte, não terão coragem de encarcerar um líder de tal estatura, afinal há 2 anos a justiça definiu que até a 4a e última instância pode-se responder em liberdade. O grande presidente estará apto a combater o bom combate e se eleger depois de 8 anos”.

Os dois lados se armaram poderosamente para o enfrentamento ao longo de pelo menos 18 meses e… se esqueceram de 2 pequenas coisas:

  • Se por um lado o poder pode ser manobrado;
  • Pelo outro, quem tem poder de voto é o povo.

O judiciário supremo há anos politizou-se a ponto de ser – em vários e conhecidos casos estaduais – extensão plena do executivo e legislativo. Os poderes no Brasil, há muito, não se equilibram em prol do Estado, eles se alimentam do Estado.
Então, a forma mais fácil de manter a agenda lá das confederações, do Jucá, com tudo, é inibir a acensão dessa estrela, ou melhor, obscurecer o seu brilho, mantendo-a encarcerada. E assim foi feito. Alguns ministros supremos retromictaram, elegantemente, e um plano perfeito soçobrou assim como uma derrota municipal. O Plano B era temerário, mas havia esperança na militância do paralelo 5 e esta correspondeu.

Por sua vez a grande coligação articulou bem e com pulso firme preparou inúmeras peças publicitárias a um custo absurdo para garantir sua posição no 2º turno, com sorte – apostando no grande sentimento de rejeição ‘deles’ – poderia levar a eleição no 1º turno.

Nunca estiveram tão equivocados, a grande coligação conseguiu míseros 5% do eleitorado. Ato contínuo todos os nanicos que coligavam-se aos tucanos, correram celeremente, como minions, para o lado do ex-capitão, inclusive alguns tucanos. Ou seja, podemos afirmar com certeza que em caso de vitória de Bolsonaro, muito provavelmente, em termos de maioria e governabilidade no Congresso, fica tudo como dantes no quartel d’Abrantes.

A preocupação de uma parte dos 13 postulantes ao cargo de presidente do país era um deputado federal, sem partido, sem proposta, sem história, só de posse de seu armamento de estultices preconceituosas, belicosas, homofóbicas, racistas e qualquer outro grau de degenerescência moral e ética que você possa supor. Para muitos, o ex-capitão era mais um cabo dentre os postulantes. Só que ele carregava algo que eles não tinham: um discurso de não-participação na lava-jato, e de não-participação em qualquer esquema de propina. Um discurso violento, raivoso, cheio de ódio misturado com uma ideia enviezada de defesa dos valores como família, deus, moral e uma ideia de homem de bem… tudo isso alimentado por anos no Facebook e Whatsapp.

Aqui devo ressaltar que sua conduta parlamentar seguia o padrão financeiro-ético-moral de qualquer deputado federal do baixo clero, usava meios oficiais para pequenas viagens de membros de sua família, teve seu patrimônio e de seus filhos aumentando numa taxa de fazer inveja a CEOs de multinacionais, recebia o auxílio-moradia mesmo tendo residência própria em Brasília, essas coisinhas de somenos.

E o mais importante ele possuía ainda uma porcentagem de intenção de voto um pouco diferente daquilo que eles esperavam para um deputado de um partido de aluguel, com um histórico medíocre e apenas dois projetos aprovados dentre os cerca de 640 apresentados em 28 anos. Uma média de 23 projetos por ano e uma taxa de sucesso de 0,3%.
Como um outsider solitário (aqui tenho minhas dúvidas que vou esclarecer já já) faz tanto barulho desde o início do processo de impeachment em 2016? Como ele consegue 6% de intenção de voto já em fevereiro de 2016 e desde junho de 2017 manteve 16% até abril de 2018, pleno ano eleitoral, onde só despontavam Lula e Alckmin como incensados pelos partidos? Que magia envolvia o militar aposentado?

Você lembra dos movimentos de junho de 2013, toda sujeira e lambança postas a olho nu pela Lava-jato, o asco causado por fitas gravadas, as malas e apartamentos cheios de dinheiro sem origem? Você lembra da catarse do afastamento presidencial e do desgosto com o vice empoderado? Lembra do Aécio definindo quem deveria ser aquele que eles pudessem matar? Sabe como se chama isso? Insatisfação plena, completa e absoluta do status quo. Ninguém aguentava mais…

Bolsonaro conseguiu empunhar a bandeira e capitalizar esse desejo, apelando para Deus, para Ordem, para Família, para o pendores conservadores da população esfolada pelo Estado em todos os níveis sociais medianos. O deputado abraçou e professou a figura da insatisfação e o slogan precisamos mudar tudo isso que está ai.

Obviamente, alguns aproveitadores de plantão apostaram no cavalo paraguaio e agora ditam o ritmo da banda… num dobrado que é um alento aos que necessitam de paternalismo verde-oliva.
As classes mais baixas não abriram mão de seu salvador – e digo salvador de verdade – assim como a classe mais alta manteve ainda um namoro com algo novo, mesmo que dentro do PSDB.

Nós da classe média, olimpicamente desprezamos aquele louco.

Mesmo com sua incompetência em formular pensamentos mais elaborados, pois lhe falta estofo intelectual e conhecimento mínimo do que seja administrar algo um pouco maior que uma família de 4 filhos – um que necessita de psiquiatra, não esqueçamos – e desculpe o deslize, uma filha.
Mesmo com nenhum apoio (político ou estrutural – como se nota nas declarações caóticas e desencontradas dos membros do círculo próximo ao candidato), ele conquistou corações desesperados e mentes despreparadas numa cantinela mais que nacionalista, fascista.

Cantinela na qual cabem promessas como exterminar os inimigos do Estado militar-religioso sonhado por ele, de implementar escolas militares e promover algo como a Escola Sem Partido em todas elas. E como ele fez isso? Como eu disse antes, não creio que foi sozinho, nem mesmo na porralouquice. Ele anteviu, ou viram por ele (creio mais nesta 2a hipótese) que o ex-capitão seria um bom polo catalisador:

  • popular: por não se alinhar a nenhum estereótipo de político que permeava os noticiários por quase 4 anos; e
  • disrruptivo: por suas propostas distantes do rame-rame enrolador da policalha, beirando o nazismo para uns e corajosas e honestas para outros.

Ele não tinha o desgaste natural de qualquer Paulo, fosse o Maluf, fosse o da Força, ele era um maluco beleza, que cantava e acreditava na canção de um percentual bastante extremista da sociedade. E se ele conseguisse com seu discurso de ódio atingir um inimigo comum a todos, muito melhor.
Bolsonaro começou – aproveitando a exposição que teve na TV a partir de 2011 – apenas alavancando a sua vidinha na Câmara, defendendo os militares e a revolução, pena de morte, armamento da população, política de planejamento familiar, atacando desde negros, membros do MST e do PT, até gays.

Por essas e por outras alguns militares de carreira, prudentemente, mantém distância regulamentar do ex-capitão há anos.

Pesquisando suas aparições na mídia até 2016 é nítido que Bolsonaro realmente não esperava a chance que começou a se abrir em 2013 e se consolidou nos anos seguintes. Ele até esta data se jogava na busca da sobrevivência como deputado, batendo na tecla dos bons costumes, na religião, na família, e se podendo batendo em gays, negros e qualquer um que ele identificasse como comunista.

A partir de 2014 Bolsonaro passou a frequentar vários programas repetindo sempre as mesmas informações falsas ou exageradas.
No decorrer do ano o discurso foi sendo polido. Ele manteve os mesmos temas e posições. A postura extremista era a mesma, assim como os exemplos repetidos à exaustão por 3 anos, elaborando a defesa de uma rigidez moral torta que afirma até hoje que os heróis da esquerda são ditadores, mas seus heróis – os generais do período 1964-1985… nunca! Ele raivosamente batia no PT, nas minorias, nos comunistas – quem for comunista aí levanta a mão – sempre através de falácias e crenças distorcidas e quanto mais batia mais exposição obtinha.

O Jean Willis mordeu a isca e Bolsonaro achou seu Nemesis protagonizando grandes embates e exposição gratuita ainda maior, conquistando – além da turma do “bandido bom é bandido morto” – os homofóbicos à sua cruzada.
 A mídia fez sua festa mostrando um cara polêmico, meio desajeitado, com língua presa, captando uma boa audiência em seu circo… enquanto isso a mensagem era levada: o cara é honesto, ele fala o que pensa sem filtro, sem medo.

No início de 2016 já com alguns grupos solicitando que saísse candidato, Bolsonaro vai pra frente das câmeras com mais vigor. Em julho daquele ano ele confessa que apenas em março havia decidido ser candidato à presidência, o que motivou seu afastamento da legenda que o abrigava, o PP, e sua ida para o PSC.

Lembra que eu disse que em fevereiro de 2016 ele aparecia com 6% de intenção de voto? Pois bem, este é o primeiro sinal de que “acharam” o ex-capitão e o fizeram candidato. Agora, quem está por trás disso, eu não sei.
Ao longo destes primeiros meses ele ressalta a todo o momento seu isolamento e se distancia dos grandes partidos, sempre demonizando a esquerda, e se aproximando de grupos de direita em todos os cantos do pais, prometendo recuperar a parte boa do período militar, seja lá o que for isso.

O impeachment é o palco que ele precisava para estampar sua postura de direita e ilustra muito bem o seu posicionamento ao parabenizar Eduardo Cunha e outros mais polêmicos, conquistando mais uma ala, a dos militares vitimizados pelo golpe de 1964. Sem parar de fazer contatos e divulgar seus pensamentos, sua candidatura manteve-se estável ao longo do segundo semestre de 2016, devido – compreensivelmente – às eleições municipais.

Em 2017, a coisa toda muda. De cara o deputado apresenta o PL 6944/2017 e a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 347/2017 que não seriam nada demais se ambas não destoassem totalmente de todos os outros seus 640 projetos de lei ou PECs, os quais abordaram temas como segurança pública, benesses aos militares, porte de armas, restrições sociais, ou seja, os temas tão caros ao candidato.

O Projeto de Lei apresentado diz textualmente: “Fica acrescido o parágrafo único ao art. 7º da Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014, que passa a vigorar com a seguinte redação: Parágrafo único. Nos planos de internet fixa, fica vedada a oferta de pacotes com franquia limitada de dados, de forma que o escalonamento de preços se dará exclusivamente em conformidade com a velocidade de conexão”.

A PEC, por sua vez adiciona o inciso IV ao artigo 102 da Constituição Federal conferindo apenas ao Supremo Tribunal Federal a suspensão de aplicativos de troca de informações via internet.

Gente! O Deputado do dia pra noite virou um CyberAtivista? Claro que não, né?… acho que ele nem sabia o que estava escrevendo. Uma coisa boa pra gente, esse Projeto de Lei. Fim da franquia, preço de acordo com a velocidade da Internet? Uau! A gente deveria apoiar isso, né? Seria ótimo e…

Maravilhoso para quem pretende montar uma gigantesca operação anônima de tráfego de dados usando links domiciliares para mascarar ainda mais o anonimato. E caso fosse pego durante a campanha, a PEC se aprovada colocaria o TSE fora da jogada, a suspensão de uso de qualquer aplicativo de “troca de informações” (aqui cabe qualquer coisa que use a internet não só os WhatsApps da vida) deverá tramitar apenas no STF.
E aqui de novo, eu duvido que essas ideias saíram da cabeçinha do Bolsonaro. Algo muito bem estruturado já estava por trás do candidato lá no início de 2017.

Como estas propostas não andaram até agora lá no Congresso, pode-se considerar como bem plausível o uso de telefones no exterior, detectado nos pacotes de WhatsApp que distribuem as fakenews sobre o adversário, as propagandas a favor do Deputado e até alguns ataques ao próprio Bolsonaro (estratégia bem conhecida no marketing político para criar mais empatia ao candidato). Os sinais que as eleições teriam forte teor de rejeição ao establishment eram já sentidos quando do apoio popular para que o ex-Ministro do Supremo Joaquim Barbosa, ou o próprio Sérgio Moro aceitassem ser candidatos à presidência. Ficou nítido também que, no segundo semestre de 2017 – tendo alcançado 16% das intenções de voto espontâneo – a caminhada de Bolsonaro seria isolada, sem outros concorrentes outsider e sem alinhavar nenhum contato com partidos tradicionais. Na realidade, nem partido ele tinha ainda à época.

O candidato tentou achar um partido que topasse abrigá-lo na legenda (o PSC era incapaz de sozinho segurar a onda legal para lançá-lo candidato).
Após uma aproximação confusa com o PEN que não deu em nada, Bolsonaro acabou fazendo um acordo com o PSL no comecinho de 2018, o que causou uma debandada de vários membros do partido. A exposição de sua relevância nas pesquisas espontâneas seguintes e ao longo do 1º semestre o consolidaram para a disputa.

Lembra que eu disse que os partidos haviam esquecido que quem tem poder de voto é o povo? Então… o povo está literalmente de saco cheio do Estado, e desconfiando de seus agentes e de qualquer coisa que remonte ao poder.
A tentativa de assassinato ao Bolsonaro deu, além da perspectiva humana que ele tanto necessitava, o tempo e a desculpa perfeita para evitar exposições como a sua entrevista na Globo News e que quase lhe causou uns bons milhões de votos. Mais umas 3 entrevistas ou debates que demonstrassem o seu despreparo seriam fatais para sua candidatura. Tão fatais que ele decidiu não participar de nenhum debate, primeiro se escudando em atestados médicos suspeitos, e depois – com a certeza da liderança – declarando que não vai porque não quer mesmo e pronto.

O povo por seu lado deu o recado nas urnas:

“Vocês de novo? Não!”

Tanto que renovou 50% do Congresso Nacional, elegeu inúmeros outsiders regionais, de ex-atores pornôs a pastores evangélicos neófitos, passando por artistas e youtubers.

A crise econômica, os milhões de desempregados nem foram citados nesta campanha que contou com uma expressiva parcela da população que sim, tem um tipo de raciocínio enviezado, calcado em absoluta e total desinformação patrocinada e fomentada pelo esquemão eleitoral do Bolsonaro, que afirmava já em 2016 possuir a maior penetração em mídias sociais do Congresso. O esquema, que já não dá para alegar que foi espontâneo, propiciou a difusão da ladainha:

“vou mudar tudo isso aí, eu não gosto do Lula nem de petista ladrão e comunista que só ferrou com o país, vou votar em quem não está alinhado com esses partidos ladrões como o PSDB, PMDB, PSOL, PDT… e além de tudo o Bolsonaro é honesto e defende os valores cristãos e da família…”

e bla bla bla, bla bla bla. Garanto que poucos eleitores do Bolsonaro sabem o que quer dizer PSL. Mas…

Outra grande parcela votante – e que garante o efeito Teflon ao ex-capitão – por, sim, acreditar piamente no discurso em defesa dos valores cristãos, tais como, misoginia, homofobia, racismo, militarização de qualquer coisa, tortura, pena de morte, extermínio de comunistas (cuidado eleitor do Ciro, na visão dessa turma você é de esquerda). Ou seja, eles são fascistas de carteirinha, só não sabem que têm este rótulo. E claro, como sempre no Brasil, tem a turma do “quero ver o circo pegar fogo”, ou como ouvi:

“Sérgio, até concordo com seus argumentos para votar no outro candidato, seja ele qualquer um que pelo menos jogue o jogo democrático; que votar no Deputado é um salto de fé estúpido, porque ele como exemplo, crente cego na eficácia e fiador de certas políticas completamente apartadas da democracia, segregacionistas e extremamente agressivas a uma sociedade mais informada e multicultural como parte da sociedade brasileira, pode provocar sim o rompimento do tecido social de vez e jogar todos nós num beco sem saída, num turbilhão de violência e tragédias econômicas e sociais. Mas, cara, eu tô cansado desses mesmos pulhas roubando a gente na cara dura. Vou votar no Bolsonaro mesmo, eu odeio o PT.”

Viu o que vocês fizeram? Não foi o Bolsonaro que implodiu a Direita, triturou a Esquerda (desde sempre fragmentada) e pulverizou o Centro (fervilhante de legendas), o ex-capitão ganhou de presente a não necessidade de partidos na política deste país, ao menos nessa eleição. E não adianta se apegar e retuitar as machetes da imprensa internacional – do Financial Times à Fox – estampando que Bolsonaro é o maior risco à democracia atualmente. Ele é… mas foram vocês do PMDB ao PT, do PSDB ao PSOL, do PDT ao DEM que construíram uma sociedade, pelo menos parcialmente, ávida por um governo fascista.

Nós aqui da outra parcela, embasbacados e tentando ao menos entender e salvar algo dos escombros democráticos, que vocês deixaram ao longo das últimas décadas de pilhagem desenfreada, faremos nossa parte.
Vamos tentar nos manter íntegros, unidos, atentos, e bem agasalhados, pois com certeza, “the Winter is coming”.

O Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro, hoje nem tanto sobre Política, acabou. Se você gostou do Ex-Libris faça como a AMB3 Gestão Ambiental, ajude este podcaster a divulgá-lo e a mantê-lo.Lá no site idigitais.com você tem mais detalhes sobre como o fazer isso. Você pode ainda ajudar o Ex-Libris divulgando entre seus amigos, dando umas estrelinhas lá no iTunes, palmas no anchor.fm e nos outros agregadores nos avalie do jeito que eles permitem. Isso ajuda muito a manter este podcast e também a nossa sanidade.
Saúde, paz, grato pela companhia e até a próxima.
Ex-Libris, inteligência com propriedade.

Transcrição Ex Libris – S01e10

[Cultura] – Por que a ficção científica é atualmente o gênero literário mais importante 

Um historiador, uma sociedade complexa e tecnológica e o entretenimento funcionando como elemento divulgador de conhecimento e educacional. Até dá vontade de ser escritor.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 10º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que esteja gostando do Ex-Libris.  Aguardo comentários e sugestões, afinal eu preciso saber se estou no caminho certo. Para tanto, basta dar um pulo lá no idigitais.com. 

Você pode colocar suas observações no post deste episódio, na transcrição ou ainda enviar um email. O Ex-Libris está disponível em vários agregadores e serviços: Anchor.fm; Apple Podcasts; Breaker; Castbox; Google Podcasts; OverCast; Pocket Casts; RadioPublic; Spotify; e Stitcher. Se você utilizar outro serviço, basta copiar o rss disponível e colar em seu aplicativo. Todo os links estão publicados na 1ª página do idigitais.com. A partir de agora o Ex-Libris sobre Cultura de 19 de outubro de 2018 começou.

O badalado historiador Yuval Noah Harari crê que o gênero literário ficção científica tem o poder de moldar a opinião pública. Muito mais que todas as bobagens geradas pelos partidos e congressistas das últimas legislaturas, os quais conseguiram moldar da lama das instituições do Estado brasileiro um Coiso, mas… deixa pra lá, o tema hoje é cultura. Antes de prosseguir um aviso: não confunda este gênero literário com o gênero Fantasia, que os brasileiros adoram associar à Ficção Científica. Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e  Homo Deus, é um grande fã de ficção científica, e inclui um capítulo inteiro sobre tal assunto em seu novo livro 21 Lessons for the 21st Century (21 lições para o século 21 em tradução livre).

“Atualmente, a ficção científica ou sci-fi é o gênero artístico mais importante para a sociedade”, diz Harari no episódio 325 do podcast Guia do Geek para a Galáxia [Geek’s Guide to the Galaxy] – este e outros links estão na transcrição deste episódio lá no idigitais.com. “Livros de sci-fi moldam a compreensão do público em geral sobre coisas como inteligência artificial e biotecnologia, as quais provavelmente mudarão nossas vidas e nossa sociedade mais do que qualquer outra coisa nas próximas décadas”. Se tudo andar como está andando, sempre pode surgir algo muito estúpido para a Humanidade que altere esse  progresso.

Como a ficção científica desempenha um papel tão importante na formação da opinião pública, ele gostaria de ver mais obras de ficção científica que lidam com questões realistas, tais como: Uma inteligência artificial, criando uma “classe inútil” permanente de trabalhadores. Já aviso – e com o aval do Marco Gomes: Motoristas e redatores coloquem suas barbas de molho… Um cenário já real é a utilização de Inteligência Artificial e Big Data para operar automóveis autônomos (e em breve caminhões de carga), bem como para vasculhar o WhatsApp de milhões de pessoas e por meio da filtragem dos assuntos mais replicados segundo a segundo, para pautar um impulsionamento com fins comerciais e/ou políticos, algo assim como um jornalismo imediato, seja de real news ou fake news. [parênteses] – Eu ainda não tive notícia de alguma Start Up com IA e Big Data fazendo jornalismo do tipo break news. Não duvido que Google e Facebook já estejam fazendo isso… Mas se não estiverem e aparecer alguma Startup unicórnio por aí, a idéia é MINHA! [fechando os parênteses]. Harari nesta entrevista também afirma que: “Se você quiser aumentar a conscientização pública sobre tais questões –  Inteligência Artificial e Biotech – um bom filme de ficção científica poderia valer não um, mas sim uma centena de artigos na Science, Cell, Nature, ou no New York Times”. Lembro aqui a riqueza de informações científicas atuais disponíveis em filmes como Contato de 1997, Interestelar de 2014 e Arrival (A chegada) de 2016 e o  quanto dessas informações foram dissecados pelos fãs de sci-fi e a comunidade científica.

Mas, em contraponto, o mesmo Harari salienta que a disponibilidade de muitas obras de ficção científica faz com elas tendam a se concentrar em cenários fantasiosos ou extravagantes. Né, tchurmina das Espadas de Vidro e o Trono de Carvão – volume I, obviamente? Acho que só o Cardoso vai entender a referência. Mas, vamos lá… De acordo com Harari: “Na maioria dos livros de ficção científica e filmes sobre inteligência artificial, o enredo principal gira em torno do momento em que o computador ou o robô ganha consciência e começa a ter sentimentos”. Nessa hora é que o prof. Miguel Nicolelis se retorce na poltrona muito mais que comemorando um gol do Palestra. O historiador considera que isso – a concentração em cenários fantasiosos e extravagantes – desvia a atenção do público dos problemas reais e importantes para coisas que provavelmente não acontecerão tão cedo assim. Inteligência Artificial e Biotecnologia podem ser dois dos problemas mais críticos que a humanidade enfrenta, mas Harari observa que eles são apenas um pontinho no radar político. Ele acredita que os autores de ficção científica e cineastas precisam fazer tudo o que puderem para mudar isso.

“As tecnologias certamente – continua Harari – não são ferramentas de aniquilação, meios de se chegar um armagedon. Ainda podemos agir e regular estas mesmas tecnologias para evitar os piores cenários e usá-las principalmente para o bem”. Lembro que a lasca de silex do paleolítico servia para abater, retirar a pele e descarnar um animal para alimentação de nossos ancestrais como também para matar outro nosso ancestral. Tecnologia é isso: serve, se para o bem ou para mal, depende do uso. É questionável quantas vezes um ser humano pode se reinventar durante sua vida – e sua vida, com os avanços da biotecnologia – já é e provavelmente será mais longa, e seus anos de trabalho também serão mais longos. Então você seria capaz de se reinventar quatro, cinco, seis vezes durante a sua vida? O estresse psicológico é imenso. Eu gostaria de ver – diz Harari –  um filme de ficção científica que explora a questão bastante mundana de alguém ter que se reinventar, então no final do filme – assim que ele se acomodasse nesse novo trabalho, após um período de longa transição, difícil – alguém vem e anuncia: “Ah, desculpe, seu novo trabalho acaba de ser automatizado, você tem que começar da estaca zero e se reinventar novamente.”

“A única questão deixada em aberto depois de terminar de ler 1984 de George Orwell, publicado em 1949 é: Como podemos evitar esse processo e não chegar lá?” [parenteses novamente] – Para nós brasileiros a certeza é: putamerda, chegamos lá…[fechando o parênteses]. Repetindo o texto para manter a fluidez e o entendimento: A única questão deixada em aberto ao fim do livro 1984 é: Como não chegar naquilo? Mas com Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, publicado em 1932, é muito, mas muito mais difícil.  Todos personagens de Huxley estão plenos e felizes e satisfeitos com tudo o que acontece. Não há rebeliões, não há revoluções, não há polícia secreta, há apenas sexo livre e rock and roll, drogas e tudo o mais. E, no entanto, você tem esse sentimento muito desagradável de que algo está errado, e é muito difícil apontar o que está errado em uma sociedade em que você hackeou as pessoas de modo que elas fiquem satisfeitas o tempo todo. Quando foi publicado, era óbvio para todos que esta era uma distopia assustadora, mas hoje, cada vez mais pessoas lêem o livro de Huxley como uma utopia, assim…  sem sobressaltos ou estranhamentos maiores. Eu creio que essa mudança é muito interessante e diz muito sobre as mudanças em nossa visão de mundo no último século.”

Um outro ponto sobre extensão da vida é abordado por Harari em sua busca de roteiros inusitados: “Que tipo de relações entre pais e filhos teríamos  quando os pais soubessem que não vão morrer e deixar seus filhos para trás? Se você vive 200 anos, e, ‘quando eu tinha 30 anos eu tive esse filho, e ele agora tem 170, mas isso foi há mais de uma século e meio, essa foi uma parte tão pequena da minha vida’. Que tipo de relação você tem em tal sociedade? Eu acho que essa é outra idéia maravilhosa para um filme de ficção científica – sem rebeliões de robôs, sem um grande apocalipse, sem um governo tirânico – apenas um filme simples sobre a relação entre mãe e filho quando a mãe tem 200 anos e o filho tem 170.” Finaliza Harari. Eu mesmo tive a oportunidade de conhecer uma senhora de 92 anos e sua filha de 77 e a relação entre ambas era algo que beirava o companheirismo, algo distante da relação mãe e filha do tipo 20 – 45 (hoje em dia um caso um tantinho escasso devo concordar). Há alguns anos as mulheres pararam de ter filhos logo após a faculdade, agora elas os têm quando a vida profissional está consolidada.

No quesito tecnologia Harari finaliza: “Você poderia ter imaginado há 50 anos que o ser humano desenvolveria um enorme mercado para transplantes de órgãos, em que países em desenvolvimento seriam enormes fazendas em que milhões de pessoas poderiam ter seus órgãos retirados e depois vendidos para pessoas ricas em países mais desenvolvidos. Tal mercado valeria centenas de bilhões de dólares, e tecnologicamente é completamente viável – não há absolutamente nenhum impedimento técnico para criar tal mercado, bem como estas enormes fazendas de órgãos. Então, há muitos desses cenários de ficção científica que nunca se materializam porque a sociedade pode agir para se proteger e regular as tecnologias perigosas. E isso é muito importante lembrar quando olhamos para o futuro ”.

O Ex-Libris, spin-off do Impressões Digitais, um podcast rápido e ligeiro sobre Cultura, acabou. Se você gostou do Ex-Libris faça como a AMB3 Gestão Ambiental, ajude este podcaster a divulgá-lo e a mantê-lo. Lá no site idigitais.com você tem mais detalhes sobre como o fazer isso. Você pode ainda ajudar o Ex-Libris dando umas estrelinhas lá no iTunes, palmas no anchor.fm e nos outros agregadores nos avalie do jeito que eles permitem. Isto ajuda muito a manter este podcast.

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Ex-Libris, inteligência com propriedade.

Transcrição Ex Libris – S01e09

[Tecnologia] – A tecnologia educacional (edtech) veio para ficar?

Juntos, a tecnologia e os professores podem renovar as escolas, ou como a ciência da aprendizagem pode tirar o melhor proveito da tecnologia educacional.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 9º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que esteja gostando do Ex-Libris. Aguardo comentários e sugestões, afinal eu preciso saber se estou no caminho certo. Para tanto, basta dar um pulo lá no idigitais.com. 

Você pode colocar suas observações no post desse episódio, na transcrição ou ainda enviar um email. O Ex-Libris está disponível em vários agregadores e serviços: Anchor.fm; Apple Podcasts; Breaker; Castbox; Google Podcasts; OverCast; Pocket Casts; RadioPublic; Spotify; e Stitcher. Se você utilizar outro serviço, basta copiar o rss disponível e colar em seu aplicativo. Todo os links estão publicados na 1ª página do idigitais.com

A partir de agora o Ex-Libris sobre Tecnologia de 16 de outubro de 2018 começou.

Em 1953, o psicólogo norte americano Frederick Skinner visitou a aula de matemática de sua filha e encontrou todos os alunos aprendendo o mesmo tópico da mesma maneira e com a mesma velocidade. Poucos dias depois, ele construiu sua primeira “máquina de ensino”, a qual permitia que as crianças respondessem a perguntas em seu próprio ritmo. 

Skinner falecido em 1990, psicólogo famoso por conduzir trabalhos pioneiros em psicologia experimental, tinha muitos bons relacionamentos com o governo norte-americano. Propunha o behaviorismo radical – abordagem que busca entender o comportamento em função das inter-relações entre a filogenética, o ambiente e a história de vida do individuo.

[Parênteses] – tive que pesquisar isso: Filogenética – do grego phylon equivale a raça e gen se refere à ideia de origem ou nascimento, ou seja, filogenética é o estudo da origem dos organismos vivos e as relações existentes entre estes [fecho parênteses]

Sua máquina de ensino foi apoiada pelo United States Office of Education (tem video lá no youtube, procura lá “BF Skinner Teaching Machine“, ou se quiser, o link está na transcrição deste episódio).

Em meados da década de 1960, aparelhos semelhantes inundaram o mercado norte-americano sendo oferecidos por vendedores de porta em porta. Em poucos anos, porém, o entusiasmo por estas maquinetas havia diminuído.

Desde então, a tecnologia educacional (conhecida como edtech) repetiu o mesmo ciclo de hype e fracasso mesmo quando os computadores reformularam quase todas as outras partes de nossas vidas. 

[Parênteses novamente] Parece até o podcasting, entra ano sai ano é sempre a mesma coisa: “agora vai” e ploff voltamos à estaca zero. Parece, eu disse parece que agora a mídia começa a se mostrar uma opção razoável ao mercado (a garotada que começou a ouvir podcasts há alguns  já está nas agências e alguns já estão nos cargos de decisão). Oi gente… tudo bem? Olha eu aqui… [fechando o parênteses]

Um dos motivos do fracasso da edtech é o conservadorismo dos professores e seus sindicatos, e consequente burocracia, distanciamento e falta de destreza com as tecnologias disponíveis. 

Outro motivo bem definido, é que o potencial de capacitação e eficiência da edtech ainda não foi apropriadamente comprovado. Aqui eu ressalto o processo causa-efeito, se não há domínio da ferramenta tecnológica e da sua aplicação na educação não haverá capacidade para definir parâmetros adequados para aferir a sua efetividade. É algo como pedir a um biólogo definir em seu laboratório os parâmetros de aferição de qualidade de uma construção  civil.

Hoje, no entanto, os herdeiros de Skinner estão forçando os céticos a repensarem suas posições. Apoiados pelas ferramentas e suportes que a internet propiciou, finalmente, escolas em todo o mundo estão usando aplicativos inovadores para “personalizar” o aprendizado. Isso pode ajudar centenas de milhões de crianças presas em salas de aulas precárias – mas apenas se os defensores da edtech puderem resistir à tentação de reviver falácias e dar asas a idéias irreais sobre como as crianças devem aprender. Para ter sucesso, a edtech deve estar a serviço do ensino, e não o contrário.

O modelo convencional de escola – professor, lousa, giz, e um grupo de crianças – surgiu na Prússia no século XVIII. As alternativas até agora propostas não conseguiram ensinar de forma adequada e eficientemente a maioria das crianças. Salas de aula, crianças agrupadas por idade, estrutura hierarquizada, currículos padronizados e horários fixos ainda são a norma para a maioria das quase 1,5 bilhão de crianças em idade escolar no mundo.

Enquanto isso no Brasil, de acordo com a UNICEF, 7 milhões de estudantes têm 2 ou mais anos de atraso escolar; o ministro da Educação, Rossieli Soares (de 40 anos), afirmou quando da divulgação pelo MEC do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) 2017 que: ”o ensino médio está falido, e corre o risco de chegar ao ‘fundo do poço’, ele não está agregando conhecimento aos alunos”.  E sabe o por que do desespero do Ministro? Simples! Porque 7 em cada 10 alunos do 3º ano do ensino médio têm nível insuficiente em português e matemática. Entre os estudantes desta etapa de ensino, menos de 4% têm conhecimento adequado nestas disciplinas. Ou seja, 96% tem conhecimentos básicos, rudimentares  ou não sabem nada, absolutamente nada, de matemática ou português.

A cada dois anos, o SAEB mede a aprendizagem dos alunos ao fim de cada etapa de ensino: ao 5º e 9º anos do ensino fundamental e ao 3º ano do ensino médio. O sistema é composto pelas médias de proficiências em português e matemática extraídas da Prova Brasil, e pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Pela primeira vez, o MEC classificou os níveis de proficiência que estão organizados em uma escala de 0 a 9 – quanto menor o número, pior o resultado. Os níveis de 0 a 3 são considerados insuficientes; entre 4 e 6 os alunos têm nível de conhecimento básico; e a partir de 7 até 9, adequado. Etapa mais problemática da educação básica, o ensino médio foi classificado no nível 2 de proficiência. Em matemática, 72% dos alunos têm nível insuficiente de aprendizado. Desses, 23% estão no nível 0, o mais baixo da escala de proficiência. Ou seja, nada, não sabem nada. Em português, 71% dos dos alunos têm nível insuficiente de aprendizado, sendo que 24% estão no nível zero.

Em resumo, ao fim do colegial cerca de 70% dos alunos têm nível insuficiente de matemática e português e destes cerca de 24% nada sabem nada destas matérias. Olha aí o futuro do país sendo delineado… 

Nos países pobres, em média, apenas um quarto dos alunos do ensino médio adquire pelo menos o conhecimento básico de matemática, leitura e ciências. Mesmo nos países mais ricos da OCDE, cerca de 30% dos adolescentes não conseguem atingir proficiência em pelo menos um desses assuntos. Essa parcela permaneceu praticamente inalterada nos últimos 15 anos, durante os quais bilhões de dólares foram gastos em TI nas escolas. Em 2012, havia um computador para cada dois alunos em vários países ricos. A Austrália tinha mais computadores que alunos. Mal empregados os computadores, tablets e smartphones tendem a ser uma distração, ferramenta perfeita para embotar um processo de aprendizado. Um estudo português de 2010 descobriu que as escolas com internet mais lenta e o bloqueio de sites como o YouTube tiveram melhores resultados do que as escolas de alta tecnologia.

O que importa é como a edtech é usada. Uma forma que pode ser a solução é a instrução sob medida. Desde que Filipe II da Macedônia contratou Aristóteles para preparar p seu filho Alexandre, o Grande, pais ricos pagam por melhores professores. 

Alguns inovadores tecnológicos de São Paulo a Estocolmo acham que a edtech pode colocar a atenção individual ao alcance de todos os alunos. As escolas americanas estão adotando tal modelo de modo mais acelerado. Um distrito escolar se comprometeu a introduzir “aprendizagem digital personalizada” para 1/3 de seus alunos, agora. Os métodos de grupos como o Summit Public Schools, cujo software foi escrito pelos engenheiros do Facebook, estão sendo copiados por centenas de escolas. Na Índia, onde cerca de metade das crianças deixa a escola primária incapazes de ler um texto simples, o currículo básico é inalcançável para a maioria alunos. 

Softwares “adaptativos” como o Mindspark são capazes de descobrir o que uma criança sabe e assim formulam perguntas de acordo com a capacidade do aluno. 

Em um paper recente “Disrupting Education? Experimental Evidence on Technology-Aided Instruction in India” os autores afirmam em seus Abstract:

“Estudamos o impacto de um programa de ensino pós-escola com auxílio de tecnologia personalizada em escolas urbanas do ensino médio na Índia usando uma loteria que oferecia aos vencedores acesso gratuito ao programa.  Os vencedores da loteria marcaram 0.37σ acima em Matemática e 0.23σ maior em Hindi durante apenas um período de 4,5 meses. Estimativas (usando Variáveis Instrumentais) sugerem que frequentar o programa por 90 dias aumentaria as pontuações nos testes de Matemática e Hindi em 0,6σ e 0,39σ, respectivamente. Encontramos ganhos semelhantes nos escores absolutos dos testes para todos os alunos, mas ganhos relativos muito maiores para os alunos academicamente mais fracos. Nossos resultados sugerem que programas de instrução auxiliados por tecnologia bem concebidos podem melhorar drasticamente a produtividade no fornecimento de educação.”

O outro caminho que a edtech pode ajudar a aprender é tornar as escolas mais produtivas. Na Califórnia, as escolas estão usando um aplicativo para reformular o modelo convencional. Em vez de livros didáticos, os alunos têm “playlists”, que eles usam para acessar lições on-line e fazer testes. O software avalia o progresso das crianças, eliminando o processo de ‘dar nota’ a cada um dos alunos, aliviando assim a carga de trabalho dos professores. O tempo economizado é utilizado em outras tarefas, como o incentivo às habilidades sociais dos alunos ou aulas individuais. Um estudo em 2015 sugeriu que as crianças que adotaram precocemente esse modelo tiveram melhores resultados nos testes do que seus pares em outras escolas.

Toda essa inovação é bem vinda. Mas fazer o melhor com a edtech significa fazer várias coisas certas.

Primeiro, o “aprendizado personalizado” deve seguir as evidências de como as crianças aprendem. Não deve ser uma desculpa para reavivar idéias pseudocientíficas como “estilos de aprendizagem”: a teoria de que cada criança tem um modo particular de receber informações. Tal absurdo leva a esquemas como o Brain Gym, um programa de “cinesiologia educativa”, certa vez apoiado pelo governo britânico, esquema que afirmava que alguns alunos deveriam esticar, dobrar e emitir um “bocejo de energia” enquanto faziam suas contas. Uma outra falsidade é afirmar que usar a tecnologia significa que as crianças não precisam aprender fatos ou não precisam de um professor – que em vez disso, podem usar o Google e tudo irá funcionar. Alguns ditos educadores vão mais longe, argumentando que aprender e memorizar fatos atrapalham habilidades como a criatividade e o pensamento crítico. É exatamente o contrário. Uma memória repleta de conhecimento permite a evolução desses talentos. William Shakespeare foi educado em Latim e mesmo assim escreveu algumas peças muito decentes em inglês. Em 2015, nos EUA, um vasto estudo com 1.200 análises educacionais descobriu que, das 20 formas mais eficazes de impulsionar a aprendizagem, quase todas dependiam do trabalho de um professor.

Em segundo lugar é preciso garantir que a edtech reduza, em vez de ampliar, as desigualdades na educação. Aqui há motivos para otimismo. Algumas das escolas pioneiras em edtech são as escolas privadas do Vale do Silício. Entretanto, já há muitas outras escolas independentes que utilizam a edtech e ensinam preferencialmente alunos pobres, como a Rocketship e Achievement First – ou Summit, onde em 2017, 99% dos alunos que concluíram o curso foram para universidade e os retardatários obtiveram o maior progresso em relação aos alunos nas mesmas condições das escolas ditas  normais. Um padrão semelhante pode ser observado fora dos Estados Unidos. Em estudos de edtech também na Índia por J-PAL, um grupo de pesquisa, os maiores beneficiários são as crianças que usam software para receber educação corretiva.

Em terceiro lugar, o potencial para a tecnologia da educação só será percebido se os professores a adotarem. Eles estão certos em pedir provas de que os produtos funcionam. Mas o ceticismo não deve se transformar em ludismo. Um bom modelo é o que ocorre aqui em São Paulo, onde milhares de professores e principalmente escolas adotaram a plataforma adaptativa Geekie. Em 1984, Frederick Skinner chamou a oposição à tecnologia na educação de “vergonha”. Dado o que a edtech promete hoje, a mentalidade fechada não tem lugar na sala de aula.

E só para complementar o até aqui exposto neste podcast vou abordar mais um aspecto sobre a questão educacional… O ano era 1968 quando um professor de psicometria, Julian Stanley, se deparou com um gênio que cursava Ciência da Computação na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Joseph Bates, 12 anos, era brilhante – mas estava entediado com o curso, ele estava muito à frente dos estudantes de sua classe. Inspirado por esse prodígio, Stanley iniciou um longo estudo que duraria 45 anos, acompanhando o desenvolvimento de crianças superdotadas que incluiria nomes como Mark Zuckerberg e Lady Gaga.

Então, o que aconteceu com Joseph Bates? Ele se deu muito bem. Ele continuou a estudar, completou um doutorado, lecionou em uma universidade e agora se tornou um “pioneiro em inteligência artificial”. Stanley deu início ao projeto na Johns Hopkins University’s Center for Talented Youth (Centro para Jovens Talentosos da Universidade Johns Hopkins), em Baltimore. Batizado de SMPY, em inglês, que significa Estudo de Jovens Matematicamente Precoces. O programa acompanhou a trajetória de mais de 5 mil crianças superdotadas. Foi por meio desse trabalho que ele chegou a descobertas surpreendentes.

O estudo vai contra a antiga crença de que “a prática leva à perfeição”, segundo a qual você pode se tornar um especialista em alguma coisa contanto que trabalhe duro e tenha foco. Em vez disso, o SMPY sugere que a capacidade cognitiva inicial – como resolver problemas e tomar decisões corretas – tem mais efeito sobre a conquista do que a prática ou até mesmo o status socioeconômico de uma pessoa. Por isso, é importante estimular as habilidades da criança desde cedo – mas sem pressionar aquelas que se mostram mais inteligentes que a média para que se tornem – entre aspas – “gênios”. Isso poderia “levar a todos os tipos de problemas sociais e emocionais”, de acordo com educadores.

Mas, se você quer incentivar e manter seus filhos felizes ao mesmo tempo, os especialistas têm algumas recomendações:

  • Exponha seu filho a experiências diversas – Crianças com alta inteligência geralmente precisam de novidades para se manterem motivadas. Aumentar experiências de vida, além de contribuir nesse sentido, ajudaria a criança a desenvolver a confiança para lidar com o mundo. Psicólogos dizem que o conforto vem de se apegar ao que é familiar. É preciso coragem para tentar algo diferente.
  • Estimule seus talentos e interesses – Seja um novo esporte, um instrumento ou uma aula de teatro, permitir que seus filhos explorem os talentos desde cedo os ajudará a desenvolver habilidades importantes, como a resiliência. Não os force a “ser algo” que eles não são.
  • Apoie as necessidades intelectuais e emocionais do seu filho – A curiosidade é a essência de todo aprendizado. As crianças podem fazer muitas perguntas antes de começarem na escola e, embora sua paciência para responder a todas as questões possa ser um pouco escassa, isso é muito importante para o desenvolvimento delas. Quanto mais “porquês” e “comos” eles perguntarem, melhor será o desempenho na escola.
  • Elogie o esforço, não a habilidade – Ajude as crianças a desenvolverem uma “mentalidade de crescimento”, comemorando a aprendizagem, e não o resultado em si. As crianças aprendem a reagir às coisas através de seus pais. Portanto, seja sobre aprender a falar um novo idioma ou até mesmo andar de bicicleta, a disposição para aprender que deve ser estimulada.
  • O fracasso não é algo a ser temido – Os erros devem ser tratados como blocos de construção para o aprendizado. Aprender com eles deve ser tratado como uma oportunidade para crescer, pois ajudará as crianças a entender como elas podem abordar melhor o problema da próxima vez. 
  • Cuidado com os rótulos – Rótulos só irão diferenciar seu filho de outras crianças. Isso poderia não apenas levá-los ao bullying, mas também adicionar imensa pressão de ser uma decepção.
  • Trabalhe com os professores para atender às necessidades do seu filho – Alunos inteligentes geralmente precisam de material mais desafiador, apoio extra ou liberdade para aprender em seu próprio ritmo. Trabalhar em torno dos sistemas educacionais atuais para atender às suas necessidades é muito importante. 

Por fim,

  • Teste as habilidades do seu filho – Isso pode auxiliar os pais que quiserem fazer um trabalho mais avançado de desenvolvimento dos talentos das crianças e pode ainda revelar problemas como dislexia, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade ou desafios sociais e emocionais.

Mas, afinal, como saber se seu filho é superdotado? Aqui – finalmente – estão alguns sinais, segundo a sociedade de alto QI, Mensa. Então preste atenção de seu pimpolho tem: 

  • Memória incomum;
  • Leitura precoce;
  • Gosta de passatempos ou interesses incomuns ou conhecimento profundo de determinados assuntos;
  • Tem consciência de eventos mundiais;
  • Tem senso de humor evoluído;
  • Faz questionamentos todo o tempo;
  • Possui musicalidade;
  • Gosta de estar no controle; e
  • Adora inventar regras adicionais para jogos.

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Transcrição Ex Libris – S01e08

[Ciência] – Surto de sarampo afeta a Romênia em meio a baixas taxas de vacinação

Como de uma farsa financeira causa a uma situação de alerta mundial de custos inimagináveis tanto em dólares como em vidas humanas.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 8º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que esteja gostando do Ex-Libris. Aguardo comentários e sugestões, afinal eu preciso saber se estou no caminho certo. Para tanto, basta dar um pulo lá no idigitais.com. 

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Começa agora o Ex-Libris sobre Ciência de 12 de out de 2018

Um surto recente de sarampo matou dezenas de bebês e crianças na Romênia, um país com 20 milhões de habitantes.  Algo como a grande São Paulo em termos populacionais. E o surto continuava nos meados de setembro com cerca de 200 novos casos registrados a cada semana.

Mas o surto de sarampo não é privilégio da Romênia. Esta doença e algumas outras muito perigosas, como a poliomielite voltaram, não na África – que nunca se livrou delas a contento – mas na Ásia, na Europa, na Oceania e agora na América do Sul. 

Os médicos romenos – fazendo eco aos seus colegas do mundo inteiro – afirmam que o aumento da doença é decorrência das baixas taxas de vacinação. Algumas celebridades romenas realizaram campanhas na mídia alertando sobre os perigos da falta de imunização, mas superstições que sustentam que tomar suco de repolho ou não limpar a casa são tão eficazes quanto tomar a vacina, deixam os médicos desesperados, tanto quanto os seus pares brasileiros que não sabem lidar com as pessoas que acreditam mais nas informações que recebem pelo whatsapp de amigos e familiares do que nas campanhas do governo e noticiários de tv.

Bem, voltando à Romênia… Alguns médicos tem sinalizado que em algumas regiões e momentos não há estoque suficiente de vacinas. O que não ajuda em nada o controle, a inoculação e a proteção das áreas afetadas. Alexandru Rafila, chefe de laboratório do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas de Bucareste, disse à Associated Press, que a doença altamente contagiosa se espalhou mais rápido porque milhões de romenos trabalham no exterior, expondo-se a diferentes cepas do vírus. Quando voltam para casa iniciam um processo com multi-vetores em diferentes regiões. Ele disse que a doença apareceu pela primeira vez em uma comunidade de ciganos no noroeste da Romênia em 2016. Afirmou ainda que a cepa da doença era estranha à Romênia, mas frequentemente encontrada na Itália.

Cerca de 13.700 pessoas na Romênia contraíram sarampo desde o início da epidemia em 2016, e 55 morreram, segundo o Centro Nacional de Supervisão e Controle de Doenças Transmissíveis. A Organização Mundial de Saúde recomenda um nível de vacinação de 95%; a Romênia tem uma das taxas mais baixas da Europa – menos de 84%. O Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças disse que o número de casos de sarampo em todo o continente triplicou no ano passado, com a Romênia, a Ucrânia e a Itália sendo os países mais afetados.

Médicos como Alexandru também se deparam com celebridades como Olivia Steer, uma personalidade da televisão romena, que promoveu publicamente uma postura anti-vacina. Viu Jim Carrey que merda você ajudou a fazer! “Infelizmente, há um apetite por algo sensacional”, disse Alexandru. “As pessoas que se opõem à vacinação são promovidas (na mídia) de uma forma que, digamos, é antiética”. A celebridade citada pelo médico, Olivia Steer se recusou a falar sobre seus pontos de vista anti-vacina  com a imprensa internacional.

Aquela velha e antiga pesquisa falsa publicada há 20 anos que ligava a vacina ao autismo foi desacreditada, mas o susto deixou algumas pessoas desconfiadas, disseram médicos romenos. Caso você não saiba que raio de pesquisa falsa é essa falarei rapidamente sobre ela no final deste podcast. 

Em Chitila, uma pequena cidade ao norte de Bucareste, a pediatra Daniela Stefanescu enfrentou a desconfiança de inúmeros habitantes na sua tentativa de vacinar  bebês contra sarampo e caxumba. Stefanescu disse que o alto número de mortes por sarampo fez com que as pessoas da região que a princípio se mostraram céticas, reconsiderassem sobre a possibilidade de vacinação. Stefania Pena, 28 anos, uma das pessoas reticentes acabou imunizando seu filho de 1 ano, apesar de ter dúvidas, afirmou: “Eu li sobre crianças que morrem de sarampo e fiquei com medo”.

Enquanto isso aqui no Brasil… Até 3 de setembro, foram 1.579 casos de sarampo confirmados em todo país. O Brasil enfrenta dois surtos de sarampo: no Amazonas que já computa 1.232 casos e 7.439 em investigação, e em Roraima, com o registro de 301 casos da doença, sendo que 74 continuam em investigação. Entre os confirmados em Roraima, alguns são de pessoas oriundas da Venezuela. Estes surtos estão definitivamente relacionados à importação, já que o genótipo do vírus (D8) que está circulando no país é o mesmo que circula na Venezuela, país que enfrenta um surto da doença desde 2017.  Alguns casos isolados e relacionados à importação foram identificados nos estados de São Paulo (2 casos), 18 casos no Rio de Janeiro; 18 também no Rio Grande do Sul; 2 casos em Rondônia, 4 em Pernambuco e 2 no Pará.

O Ministério da Saúde permanece acompanhando a situação e prestando o apoio necessário aos Estados. Cabe esclarecer que as medidas de bloqueio de vacinação, mesmo em casos suspeitos, estão sendo realizadas em todos os estados. Até o início de setembro, no Brasil, foram confirmados 8 óbitos por sarampo, sendo 4 óbitos no estado de Roraima (3 estrangeiros e 1 brasileiro) e 4 óbitos no estado do Amazonas (todos brasileiros, sendo 2 do município de Manaus e 2 do município de Autazes). Até o início de setembro, a média nacional de vacinação era de 76%. Em todo o país, 11 estados estavam abaixo da média nacional de cobertura vacinal da Campanha de Vacinação Contra a poliomielite e sarampo. O Rio de Janeiro estava com o menor índice de vacinação, seguido por Roraima, Distrito Federal, Pará, Amazonas, Acre, Bahia, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Piauí e São Paulo. A orientação foi para que os gestores locais fizessem a vacina ser aplicada mais rapidamente possível em mais de 2 milhões de crianças de 1 a 5 anos incompletos, que até meados de setembro não haviam sido protegidas contra sarampo e poliomielite. Esses 11 estados intensificaram suas ações de vacinação para alcançar a meta da campanha, de vacinar 95% do público-alvo. É só por meio da vacinação que pode-se impedir que doenças já eliminadas retornem ao Brasil.

Ainda no início de setembro o estado do Amapá atingiu a meta do Ministério da Saúde, de vacinar 95% do público-alvo. As capitais Macapá e Porto Velho superaram a meta da campanha. Macapá vacinou 100,3% para pólio e 99,8% para o sarampo e Porto Velho 98,3% pólio e para sarampo. Já Manaus, que iniciou a vacinação antes devido o surto de sarampo na região, já atingiu a meta de vacinação para a doença com 103% de cobertura.

Preciso explicar o porque do índice ser superior a 100%.? Lembra que a vacina era pra crianças de 1 a 5 anos incompletos… pois bem, se vacinou criança com mais de 5 anos, passou de 100%

Então sobre o caso que originou essa onda anti-vacina: Há 20 anos, em 1998, um médico britânico Andrew Wakefield – consultor honorário em gastroenterologia experimental no London’s Royal Free Hospital  – afirmou em uma pesquisa publicada na revista The Lancet – que se provou fraudulenta – que a vacina contra sarampo, rubéola e caxumba (MMR) tinha relação com o desenvolvimento de autismo em crianças. Muito dinheiro em novas pesquisas e muitas  declarações ponderadas depois comprovando a fraude da pesquisa original não foram suficientes para aplacar a boataria da época, as teorias de conspiração que se seguiram, nem a desconfiança atual de milhões de pessoas. Mesmo com a divulgação em 2004 da descoberta, que antes da publicação do artigo na Lancet, em 1998, o safado do Andrew havia feito um pedido de patente para uma vacina contra sarampo que concorreria com a MMR. Tadá!

A revista The Lancet publicou uma retratação só em 2010 por conta do artigo, e só depois do Wakefield ter sido considerado, também em 2010, “desonesto” enquanto realizava a pesquisa e por isso condenado a perder seu registro de médico por má conduta profissional pelo Conselho Geral de Medicina britânico (parece nosso brasilzinho, né?).

Então, você que ouve podcasts, é antenado, se informe sobre as campanhas e estruturas de vacinação e leve a palavra, ou melhor, explique para aquela mãe renitente a importância da vacinação e como deve fazer para garantir a segurança de seus filhos. Por fim, jamais tente explicar isso para um pai, ele nem sabe onde é o posto de saúde e nunca sabe onde está a carteira de vacinação.

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Transcrição Ex Libris – S01e07

[Comportamento Humano] – O pensamento neopentecostal na sublimação de extremos.

Nada como o amor cristão demonstrar verdadeiramente sua face social e os seus caminhos na defesa da moral, família e bons costumes, e a ética que se lasque.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 7º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que goste do Ex-Libris. Aguardo comentários e sugestões, afinal eu preciso saber se estou no caminho certo. Para tanto, basta dar um pulo lá no idigitais.com. 

Você pode colocar suas observações no post deste episódio, na transcrição ou ainda enviar um email. O Ex-Libris está disponível em vários agregadores e serviços: Anchor.fm; Apple Podcasts; Breaker; Castbox; Google Podcasts; OverCast; Pocket Casts; RadioPublic; Spotify; e Stitcher. Se você utilizar outro serviço, basta copiar o rss disponível e colar em seu aplicativo. Todo os links estão publicados na 1ª página do idigitais.com

Começa agora o Ex-Libris sobre Comportamento Humano de 09 de outubro de 2018

Nada mais maluco que pastor evangélico apoiar Jair Bolsonaro… ou não?

Nestas últimas décadas desde a redemocratização e o crescimento vertiginoso das igrejas neopentecostais, tanto do seu matiz – digamos – administrativo como do seu pragmatismo e envolvimento político, foi possível observar um movimento coordenado do cristianismo dito evangélico ou protestante em dois momentos distintos:

O primeiro foi na grande polarização onde o país se dividiu entre os que defendiam Lula e os que defendiam Collor lá nos idos de 1989, em nossa 1ª eleição direta após uma sufocante e voraz ditadura militar. Muitos pastores defenderam publicamente ambos os candidatos, e era visível um apoio mais envergonhado ao Collor e um mais entusiasmado no Lula por entenderem que o metalúrgico era uma melhor opção para os pobres. Nenhum dos seus defesores foi achincalhado ou defenestrado pelos seus pares. De lá para cá, a realidade mudou demasiadamente e parece que só tende a piorar.  

O segundo movimento – vigoroso, perfeitamente visível agora, resultante de um processo firme e eficiente de estruturação de um poder evangélico de viés político, com ramificações em todos os setores estratégicos, das comunicações à indústria, das confederações nacionais  ao Senado – patrocina e fomenta uma dicotomia a quem pintam como ideológica, mas como sempre, não passa de pura propaganda. Vários pastores – das tribunas de seus cargos políticos e de seus púlpitos – exortam seus rebanhos ao voto maciço para quem defende e enaltece torturadores, apoia e propaga discursos de ódio a desfavorecidos ou de outro sexo, renega a existência da ditadura e apoia estado de exceção, isso para falar o mínimo.  

Desde a ascensão de movimentos heterodoxos como o dos neopentecostais, que se firmam mais na avaliação literal da bíblia fundamentados em uma metodologia de cobrança financeira e troca teológica, o “caldo” do ódio dentro das igrejas começou a entornar.  Duas dessas escolas de gestão de igrejas evangélicas, que chamo de teologias rasas, filhas dos cultos  neopentecostais importados dos Estados Unidos, são o triunfalismo e a teologia da prosperidade. Ambas têm grande responsabilidade sobre o pensamento e os discursos de ódio propagado pelos chamados ‘cristãos modernos’.

A chamada “teologia da prosperidade” nega qualquer tipo de sofrimento comum a que o homem nesta terra, inevitavelmente, esteja submetido. Culpa o pobre pela sua pobreza, o doente pela sua doença, o inválido pela sua invalidez. Contraria um simples ensino gravado nos evangelhos tão sagrados aos seus fiéis, quando com simplicidade ímpar Jesus diz que “…faz que o seu sol se levante sobre os maus e bons, e a chuva desça sobre os justos e injustos.” (Mateus 5:45). Também não explica como o apóstolo Paulo, um dos homens da Bíblia de maior fé, sofria e era pobre (II Coríntios 6:10).

Irmã dessa escola nefasta, o triunfalismo advoga que os cristãos têm que dominar o mundo presente, atuando na política, na economia, nas artes, nos negócios a fim de que o cristianismo triunfe sobre as demais religiões e estabeleça o “governo do justo”, impondo os princípios ditos cristãos ao mundo, rivalizando com o estado laico que o próprio protestantismo reformado da Europa ajudou a criar. E tome bancada evangélica no Congresso… Esse ensino se contrapõe de maneira muito clara ao evangelho cristão, quando o próprio Jesus, novamente, ao ser inquirido por Pilatos, disse: “O meu Reino não é deste mundo” (João 18:36). Mas você crê que eles estão se importando com tais incongruências entre a teoria e a praxis por eles mesmos defendidas?

Toda essa falsa doutrina, como já disse, importada dos Estados Unidos, apenas comprova a teoria de que uma boa teologia é destilada na Alemanha, envelhecida na Inglaterra, apodrecida nos Estados Unidos e consumida nos países subdesenvolvidos do hemisfério sul. Por isso, é necessário mostrar as contradições do atual discurso do “cidadão de bem”, “conservador”, “cristão” e “defensor da vida” e da “família tradicional” em relação ao simples e puro texto que eles tanto santificam, prezam, divulgam, decoram e repetem exaustivamente a todos e a qualquer um, queira este ou não. Mas basta apenas comparar o texto do Evangelho com as atuais falas de ódio? Será que é assim que são desmascarados aqueles que usam a massa ignorante evangélica como palanque e lastro para seus projetos de poder? Não sei… como fazer com estes “cristãos conservadores”, tão apegados a frases como: 

  • “bandido bom é bandido morto”, 
  • “tem é que prender mais e não dar direito algum a vagabundo” 
  • “cota jamais” 
  • “quem defende criminoso é vagabundo”.

A raivosidade extrema, o ódio dos que responsabilizam o outro lado (que por sinal estava morto, abandonado, totalmente desacreditado e quase extinto) por todas as dores e sofrimentos existentes neste vale de lágrimas que se tornou nossa sociedade, é uma doença do espírito. Obnubila a inteligência, produz fanatismo e estupidez, e induz as almas incautas ao mais relinchante bolsonarismo.

Querem prova de que a raivosidade fomentada pelos evangélicos à ala progressista – defensora do estado laico, do pessoal mais à esquerda do pensamento econômico – é estúpida e autodestrutiva? Bastam duas evidências:

O primeiro grande feito do extremismo apoiado inflamadamente pelos líderes evangélicos nesta eleição foi aniquilar as candidaturas de direita e de centro. Acabou… tudo virou pó. Ou melhor, aqueles que desde o regime militar apoiam fisiologicamente (portanto não dá pra falar se esquerda ou direita) qualquer um, estão salvos e ilesos. Saíram da alça de mira… Sarneys, Jucás, Calheiros, Magalhães, Nogueiras, até o Dória… todo mundo na surdina… uns não foram eleitos, outros foram. E para piorar, o que havia de bom nas hostes centristas, foi de roldão. Todas as agendas voltadas para uma substituição construtiva e consequente da hegemonia petista foram asfixiadas pela ânsia “moral” e pela pauta feroz da extrema-direita. O inerte PSDB – desde 2002 – tentou vestir esta indumentária, agora, no Picolé de Chuchu e não deu muito certo. Quem diria, a direita destruiu o PSDB… A turma defensora da Escola sem Partido, que identifica qualquer traço de propósito ou postura fora da agenda evangélica cristã a determinação de um petralha, seja este eleitor do Ciro ou da Marina – não identifica a crise econômica e os problemas sociais, como o grande problema brasileiro, mas sim um grave problema é a erotização das crianças, a homossexualidade – eu adoro quando eles citam sem saber ao certo o que seja que são contra a ideologia de gênero – e também é um problemão essa mania de as mulheres pensarem que são iguais aos homens. 

Em segundo lugar: o radicalismo desse pessoal é tão burro e tão inconsequente que já tendo conseguido o feito de ressuscitar a força eleitoral de um PT semi-destruído, agora vai realizando a proeza de uma provável, possível, quem sabe eleição do Haddad.

Como corolário à esta tese reproduzo um daqueles textões gratuitos do Facebook, o qual ilustra e atesta perfeitamente o aqui exposto. É a cereja do bolo, vou ler como foi escrito, desculpe se não fizer sentido:

“E que comece o mimimi e as amizades de FB desfeitas… coisa que não tolero é hipocrisia, falso moralismo.

Meu voto é sim do BOLSONARO e sabe o porquê: 

  • – porque tô cansada de viver em um país onde bandidos tem direitos e a gente de bem tem que viver com medo e trancada; 
  • – porque tô cansada de viver em um país onde os costumes da família estão sendo deixados de lado; 
  • – porque estou cansada de ver noticiário com invasão de MST e tudo o mais de sem-qualquer-coisa por aí; 
  • – porque tô de saco cheio de ver meu país sendo invadido pelo povo que coloca comunista no poder e depois não aguenta e vem fazer baderna aqui; 
  • – porque tô cansada de ver nossos jovens perdendo espaço nas universidades por conta de cotas pra quem não tem base escolar, o problema é mais embaixo é na educação fundamental. 

Votar no Bolsonaro e se ele for eleito essas coisas serão resolvidas? Não sei, a única coisa que sei é que não dá mais para ser governado por guerrilheiro, assaltante de banco, analfabeto e bandido e essa vai ser minha opção para mudança.

Ah e ainda vai ter quem diga que eu não vivi o regime militar, é de fato não o vivi, mas se estou aqui é porque meus pais o viveram e sobreviveram, sabe por que? Porque enquanto o exército tava na rua colocando ordem meu pai estava trabalhado.”

Como há anos eu digo, a incompetência política e a estupidez humana se encarregam de ressuscitar ideologias arcaicas e amoralidades.

O Ex-Libris, spin-off do Impressões Digitais, um podcast rápido e ligeiro sobre Comportamento Humano, acabou. Se você gostou do Ex-Libris faça como a AMB3 Gestão Ambiental, ajude este podcaster a divulgá-lo e a mantê-lo. Lá no site idigitais.com você tem mais detalhes sobre como o fazer isso. Você pode ainda ajudar o Ex-Libris dando umas estrelinhas lá no iTunes, palmas no anchor.fm e nos outros agregadores nos avalie do jeito que eles permitem. Isso ajuda muito a manter este podcast.

Saúde, paz, grato pela companhia e até a próxima

Ex-Libris, inteligência com propriedade.

Transcrição Ex Libris – S01e06

[Política] – Capitalização da Previdência, o plano de 5 candidatos

Um dos grandes problemas deste país é, se sabe há mais de 50 anos, o desequilíbrio orçamentário do governo federal, daquilo que chamamos de Estado. Aqui vou arranhar a superfície de parte do problema que origina um déficit de cerca de 320 bilhões de reais para o ano de 2019.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 6º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que esteja gostando do Ex-Libris. Aguardo comentários e sugestões, afinal eu preciso saber se estou no caminho certo. Para tanto,  basta dar um pulo lá no idigitais.com. 

Você pode colocar suas observações no post desse episódio, na transcrição ou ainda enviar um email. O Ex-Libris está disponível em vários agregadores e serviços: Anchor.fm; Apple Podcasts; Breaker; Castbox; Google Podcasts; OverCast; Pocket Casts; RadioPublic; Spotify; e Stitcher. Se você utilizar outro serviço, basta copiar o rss disponível e colar em seu aplicativo. Todos os links estão publicados na 1ª página do idigitais.com

Começa agora o Ex-Libris sobre Política de 05 de out de 2018

A Capitalização da Previdência é o modelo que acaba com ideia de que uma geração mais nova paga a aposentadoria de outra mais antiga e aposta na probabilidade de que o cidadão garantirá o próprio futuro.

O sistema previdenciário brasileiro tem um desequilíbrio absurdo quando se considera em balanço os números  relativos à esfera federal e os números relativos aos trabalhadores da iniciativa privada. Eu vou deixar os militares de fora por enquanto… é de bom alvitre sempre deixá-los lá na caserna, fazendo o que lhes é devido constitucionalmente. 

Esse desequilíbrio provoca um gasto crescente com aposentadorias e pensões. O dinheiro arrecadado exclusivamente com as contribuições diretas dos trabalhadores que estão na ativa não fecha a conta. Quer um exemplo? Então: em 2015 o pagamento de aposentados e pensões apenas da esfera da União demandou R$ 105 bilhões. As contribuições previdenciárias de quem estava na ativa, cerca de 1 milhão de pessoas, não cobriram nem de longe esse valor: somaram R$ 13 bilhões. A enorme diferença gerou um déficit perto de R$ 93 bilhões. Estes 105 bilhões em 2015 pagaram cerca de 1 milhão também de funcionários públicos federais só que  aposentados e beneficiários.

Do lado do iniciativa privada, o déficit do INSS, foi algo bem parecido em termos de valores, o déficit de 2015 foi de R$ 90 bilhões. Só que a arrecadação foi de cerca de R$ 450 bilhões e o valor total cercade 540 bilhões, total este que corresponde ao pagamento feito para quase 33 milhões de beneficiários. Eu sei você tá fazendo contas… deixa eu te ajudar:

105 bi dividido por 1 mi dá em média algo como R$ 8.750,00 / mês p/ cada servidor público federal aposentado ou pensionista.

Já do lado do INSS, da iniciativa privada: 540 bi dividido por 33 mi dá em média R$ 1.365,00 / mês p/ cada aposentado ou pensionista do INSS.

Mas não fique com raiva ainda… Devo lembrar que o sistema previdenciário não possui 3 caixas distintos – um caixa para os militares, outro para os servidores públicos e outro para os pobres mortais – tudo é um caixa só. Então advinha quem pagou este rombo de 183 bilhões em 2015 (e vem pagando desde 1965, na realidade, e continuará pagando por um bom tempo)? 

Para 2019 este rombo está previsto, já no orçamento aprovado, em 320 bilhões… de reais.

O Brasil inventado por esse loucos que pedem seus votos é igualzinho a um… ah…  deixa eu achar uma boa analogia… hum… achei! Um prédio de apartamentos na praia, isso mesmo, um Condomínio onde todas as unidades são idênticas com o mesmo valor venal e de compra, só que enquanto você trabalhador que conseguiu, a duras custas, comprar um apartamentozinho para alugar e recebe de aluguel o equivalente a 1.000 reais, o funcionário público recebe pelo apartamento idêntico ao seu a quantia de 6.410 reais. Se o trabalhador alugar por 2 mil, o funcionário público vai receber R$ 12.820. Bacana, né?!

E não adianta reclamar é Lei! Ou melhor, quase Lei, mas por meio de mecanismos legais (e mais uma ajudinha do Judiciário que é um dos interessados em manter o atrelamento ao salário mínimo) eles sempre conseguem manter a proporção. Aumentou salário mínimo, aumenta o do funcionalismo público.

Azar o seu que não entrou via concurso, nepotismo, ou notório saber para a casta do Funcionalismo Público Federal. Te vira aí.

Estamos em 2018 e o déficit da Previdência só aumenta, ou seja é uma bomba relógio – então… quem pagou e continua pagando essa dívida do governo são – surpresa! – os bancos, pois é… eles financiam o Tesouro Nacional, comprando do governo suas promessas de pagamento futuro (os famosos títulos do governo)  endividando internamente o Estado mais um pouquinho… afinal taxa de juros é taxa de juros.

No fim mesmo, você acertou, quem paga os aposentados e beneficiários somos nós mesmos com  nosso desvalorizado dinheirinho, esse mesmo dinheirinho que paga os juros de lojas, as tarifas e taxas malucas – tanto do mercado, como do governo -, o mesmo dinheirinho que é movimentado sem o seu aval e dá lucro no mercado de derivativos para as fintechs, sustenta igualmente alavancagens e empréstimos futuros de bancões, e claro que paga às instituições financeiras os maiores juros do mundo em qualquer operação de crédito bancário. Legal, muito legal…

A situação se agrava, e muito, quando se considera a falta de visão dos antigos chefes deste mesmo pessoal que idolatra o Estado Brasileiro de exceção lá de 1964. Não houve estruturação sustentável, e muito menos vontade de alterar algo para que parasse em pé essa cadeira de 2 pernas que é o sistema previdenciário brasileiro. A turma de túnica verde e coturno nem se importou nos impactos do aumento e envelhecimento da população e muito menos com o impacto previsível do aumento da expectativa de vida. Deu no que deu…

O FHC e sua turma alteraram bastante o regime de aposentadoria dos civis não-servidores públicos em 1998. Ou seja, fizeram a gente pagar mais um pouquinho da dívida e a perder mais um pouquinho da aposentadoria – o famoso fator previdenciário apareceu aí. Já para os militares e servidores públicos, ambos da ativa, eles só deram uma mexidinha no percentual da contribuição previdenciária. Para essa turma o tempo e forma de validações para aposentar e os valores dos benefícios não foram alterados em nada, na realidade até aumentaram. O candidato do PSL, p. ex., se aposentou com 17 anos de serviços prestados ao Exército – vai você lá, engenheiro, designer, front-end vai lá no INSS tentar se aposentar após 17 anos de contribuição pra ver se você consegue.

Michel Temer, em nome dos interesses mais escusos que eu possa imaginar, mas que jamais eu vou declarar,  tentou aprovar – graças aos deuses de forma bastante  equivocada – uma reforma canalha que impunha uma idade mínima de aposentadoria — igual para homens e mulheres, trabalhadores dos setores público e privado, dos regimes urbano e rural. Uma zona! Mas, cercado muito mais pela crise de representatividade política e por denúncias criminais, nosso presidente decorativo não conseguiu os ahn…parceiros para aprovar a aberração no Congresso.

Nessa eleição de 2018, a reforma da Previdência aparece como um tema mais que incômodo para os candidatos ao Palácio do Planalto. Tem candidatíssimo sabor chuchu que nem tocou no assunto no plano de marketing, ah desculpa, no plano de governo apresentado à Justiça Eleitoral.

Boa parte concorda que o déficit crescente da área é um problema a ser resolvido pelo próximo presidente da República. Eles discordam, no entanto, sobre como resolver a questão. Cada um tem uma ideia diferente.

Pelo menos cinco candidatos defendem abertamente a adoção de um novo modelo de Previdência no Brasil, chamado “regime de capitalização”, que é diferente do modelo em vigor hoje.

Jair Bolsonaro (PSL), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Alvaro Dias (Pode) colocaram o modelo em suas propostas para a área da Previdência, incluídas nos planos de governo entregues à Justiça Eleitoral. Geraldo Alckmin (PSDB) apesar de nada dizer sobre isto no seu plano, como já afirmei, defendeu este modelo publicamente há pouco tempo. E o que cada um deles dizem a respeito em seus planos de governo? Bem…

O plano do Bolsonaro afirma que: “A grande novidade será a introdução de um sistema com contas individuais de capitalização. Novos participantes terão a possibilidade de optar entre os sistemas novo e velho. E aqueles que optarem pela capitalização merecerão o benefício da redução dos encargos trabalhistas”

No da Marina tem-se o seguinte parágrafo: “Defendemos um processo de transição para um sistema misto de contribuição e capitalização, a ser implementado com responsabilidade do ponto de vista fiscal”

Já no plano do Ciro é dito que: “Defendemos a implementação de um sistema previdenciário multipilar capitalizado, em que o primeiro pilar, financiado pelo Tesouro, seria dedicado às políticas assistenciais; o segundo pilar corresponderia a um regime previdenciário de repartição com parâmetros ajustados em relação à situação atual; e o terceiro pilar equivaleria a um regime de capitalização em contas individuais”

E no plano do Alvaro Dias é dito que: “Defendemos o fomento à poupança e ao mercado de capitais por meio de uma nova previdência social que capitalizará os participantes e que democratizará a posse dos ativos estatais e forte incentivo ao investimento”

O atual regime é chamado de Repartição. E a diferença básica entre os dois modelos está no destino do dinheiro do contribuinte. O trabalhador da ativa hoje paga os benefícios de quem já está aposentado. E quem pagará sua aposentadoria, no futuro, é quem estiver trabalhando quando este tempo chegar.

Atualmente, há mais trabalhadores contribuindo para um número reduzido de aposentados, proporção de  cinco na ativa para um idoso – e mesmo assim há um deficit, pela metodologia historicamente usada pelo Ministério da Previdência e pela distribuição entre serviço público federal e os trabalhadores da iniciativa privada. A questão é que parcela da população brasileira com mais de 65 anos deve passar, segundo o IBGE, dos atuais 9,2% para 25,5% em 2060.

Enquanto o sistema atual se manter o deficit será cada vez maior. Aí, só há duas saídas: ou o governo continua bancando a diferença e reservando para isso uma fatia cada vez maior do Orçamento (em 2017, foram já 21% da despesa primária) ou diminui os gastos, reduzindo as aposentadorias.

[parênteses] – Gostaria de esclarecer o que é despesa primária – Despesa primária é aquela em que o governo não considera os efeitos financeiros, decorrentes dos juros. Portanto, é a primeira despesa do governo, aquela que ele dispõe para executar suas políticas públicas e pagar o funcionalismo. Ao emprestar dinheiro de um banco, o governo  arrecada uma receita, mas terá dois encargos: o saldo principal a amortizar e os juros. Como todos nós quando fazemos um empréstimo bancário. Essa despesa com juros é denominada de nominal, e não entra no cálculo do resultado primário. A despesa primária para 2019 é orçada em 1,7 trilhões de reais e paga o que deve pagar; a despesa financeira paga o refinanciamento, a amortização e os juros da dívida, e é “só” de 1,6 trilhões. Ou seja, o governo brasileiro é um pai desastrado de família que usa 50% do seu dinheiro para pagar o mínimo do empréstimo bancário, fazer um novo empréstimo; e com os outros 50% pagar “mal pra buroo” as despesas descontroladas de uma família de 4 pessoas consumistas com 24 empregados em regime semi-escravo. [fecha parênteses]

O regime de capitalização poderia ser traduzido como um  regime de poupança. A ideia base do modelo é que cada trabalhador guarde dinheiro para sua própria aposentadoria no futuro. O dinheiro pode sair de uma contribuição da empresa que registra o trabalhador. Em alguns casos, o trabalhador pode complementar a contribuição, mais ou menos nos moldes do que acontece hoje em fundos de pensão. Em outros casos, a contribuição pode vir somente do próprio trabalhador.

A grande dificuldade na implantação de um regime de capitalização previdenciária é a transição, ou seja,  os custos econômicos, financeiros e políticos da implantação desse regime de capitalização. Os economistas dos candidatos fazem cálculos e tentam estimar o chamado Custo de Transição, mas ainda não há nem um número especulativo. 

Não é difícil entender os motivos que tornam a implantação cara em um primeiro momento. Imagine só a implantação em paralelo de todo o sistema de administração e controle das contas de milhões de trabalhadores (duvide-o-dó que servidores públicos e militares sejam atingidos por essa mudança de regime logo de cara). 

A ideia da capitalização é criar um sistema previdenciário que nasça sem deficit. Nele, os trabalhadores estarão poupando para pagar sua própria aposentadoria no futuro. A questão é que os aposentados de hoje continuam existindo e precisando de financiamento. Principalmente os caros servidores públicos e militares.

O que o regime de capitalização faz, em um primeiro momento, é apenas retirar receitas do sistema. Ou seja, uma vez implantado, o regime de capitalização vai diminuir o número de contribuintes para o atual sistema, e o número de beneficiários do atual sistema vai continuar igual (na verdade, aumentando a cada ano até se aposentarem os primeiros trabalhadores do novo regime).

A proposta de capitalização pode ser implantada de várias maneiras, mas sempre respeitando a ideia de que o trabalhador contribui para si mesmo. Os modelos apresentados pelos presidenciáveis têm algumas variações.

  • O economista do Bolsonaro, o Paulo Guedes, diz que o governo quer garantir um rendimento para quem não contribuiu. O valor seria menor que o salário mínimo e maior que o Bolsa Família. Note que ele pressupõe que seja pessoa comum, pois não há no serviço público nem no regime militar benefício de 1 salário mínimo e muito menos Bolsa Família, né?
  • Já Alvaro Dias quer criar um fundo para recolher as contribuições de patrões e empregados e investir ali também o dinheiro que pretende arrecadar com privatizações de estatais para incentivar a adesão. Novamente, nem uma palavra sobre o desequilíbrio que funcionalismo público e militares causam na balança previdenciária.
  • A proposta de Ciro Gomes é a implantação de um sistema misto. Os benefícios sociais seriam bancados pelo Estado e os pagamentos até o teto do INSS (hoje em torno de R$ 5,645) continuaria no sistema atual. A capitalização seria adotada para quem recebe mais do que isso, no setor público ou privado. Aleluia! Um falou do funcionalismo público.
  • Marina Silva – como sempre, divaga em seus objetivos – ela defende fazer uma “transição” para que o regime de capitalização seja implantado no futuro. Sem precisar estratégia, valores ou volumes, nada… só marinando.

Nessa altura do campeonato você deve estar perguntando qual seriam os prós e contras da Capitalização?

Pois bem, a favor posso dizer que além de proteger contra mudanças demográficas, uma vantagem do sistema de capitalização é que ele aumenta a poupança de um país. A partir do momento em que o dinheiro é arrecadado para a aposentadoria, ele pode ser investido pelo gestor dos recursos — seja ele público ou privado. A característica da poupança para aposentadoria é o investimento para o longo prazo. Assim, esse dinheiro poderia ser aplicado em vários tipos de projetos, sendo um incentivo para o desenvolvimento da economia do país.

E contra, além do problema de transição, haverá certamente uma grande dificuldade para os mais pobres. Em um mercado sem estabilidade de emprego, principalmente entre as pessoas pouco qualificadas, o risco é que o trabalhador não consiga acumular uma quantia suficiente para bancar sua aposentadoria. Nesse caso, ou o Estado deixa esse trabalhador apenas com o que poupou, ou lhe garante um mínimo e continua deficitário em relação a ele.

Lembro agora que em janeiro de 2004, a Lei 10.835, proposta pelo então senador Eduardo Suplicy e aprovada pelo Congresso, foi sancionada pela presidência da república, instituindo a renda básica de cidadania. De acordo com a lei, todos os brasileiros e estrangeiros residentes há pelo menos cinco anos no país devem receber um benefício monetário suficiente para atender às despesas mínimas com alimentação, educação e saúde. O programa Bolsa Família sempre foi  considerado pelo senador como um dos passos necessários para alcançar esse objetivo. Entretanto, como muitas das Leis aprovadas esta até hoje ainda não foi implementada, e advinha qual é a desculpa do governo? O cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal que exige que para cada despesa do orçamento haja uma receita que a garanta. Agora, abrir mão de impostos e oferecer outros  subsídios ao setor produtivo em valores 30% a mais que o orçamento anual da Bolsa Família… tudo bem né gente?

Por exemplo, no caso concreto do Chile, o deficit da Previdência não é um problema para o setor público e o custo da transição já foi superado. O projeto foi implantado ainda durante a ditadura do general Augusto Pinochet, na década de 1980. O que não é indicador de coisa boa, mas vamos lá. Tudo andou meio que tranquilo desde então, porém, atualmente, o sistema enfrenta seus primeiros problemas. No Chile, não há contribuições do Estado ou de empregadores. Cada trabalhador é obrigado a depositar pelo menos 10% do salário por 20 anos para ter direito à aposentadoria. A falta de recursos para os mais pobres foi o estopim para a crise do sistema previdenciário do Chile, vale lembrar, o primeiro país do mundo a adotar um regime de capitalização. Os primeiros contribuintes se aposentaram recentemente e segundo dados publicados em 2017, 9 em cada 10 beneficiários recebiam um valor inferior a 56% do salário mínimo chileno, que equivale – para quem tem entre 18 e 65 anos – pouco mais de 1.500 pesos mensais, ou seja coisa de R$ 850. Fazendo as contas, 9 em cada 10 beneficiários chilenos recebem menos de R$ 476.

E pra terminar reforço minha observação sobre o real problema de nosso brasilzinho, sobre o desequilíbrio que o funcionalismo público provoca:  Segundo o Ministério do Planejamento, o governo federal – nos três Poderes (executivo, legislativo e judiciário) – tinha em 2015 o total de 2.195.154 servidores públicos em sua folha. Deste total, 55,3% estavam trabalhando, 26% eram aposentados e 18,7% pensionistas. O total da folha de pagamento do governo em 2015 foi de R$ 255,3 bilhões – cerca de 5,6% do PIB – dos quais R$ 151,7 bilhões de salários para funcionários da ativa, R$ 66,2 bilhões de aposentadorias e R$ 37,3 bilhões de pensões. O que dava em média cerca de R$ 9.700 mensais para cada um dos ativos, aposentados e pensionistas do serviço público. 

Considerando os dados da LDO, do orçamento, de 2019, onde o governo estima um gasto de R$ 321 bilhões com cerca de 2,2 milhões servidores públicos ativos, aposentados ou pensionistas, dá pra atualizar a média mensal… o que dá uma renda de R$ 12 mil para cada servidor aproximadamente. 

Desculpe, mas não tive estômago para ir até o portal da transparência e ficar caçando pedacinho por pedacinho de informação para montar um quadro mais detalhado. Tenho certeza, e nem preciso fazer muita conta para perceber que em média o beneficiário do INSS não recebe mensalmente algo muito maior do que 1,8 mil reais.

E essa turma querendo achar mais um jeito dos cidadãos de 2ª categoria pagarem as contas.

Política é isso desde sempre, a elite vive do que os escravos produzem e pagam, o agente político vez ou outra tira um dos bodes que convivem com uma multidão em uma sala de 15 m2 e a maioria das pessoas ficam felizes.

O Ex-Libris, spin-off do Impressões Digitais, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, acabou. Hoje foi um pouco longo… Se você gostou do Ex-Libris faça como a AMB3 Gestão Ambiental, ajude este podcaster a divulgá-lo e a mantê-lo. Lá no site idigitais.com você tem mais detalhes sobre como o fazer isso. Você pode ainda ajudar o Ex-Libris dando umas estrelinhas lá no iTunes, palmas no anchor.fm e nos outros agregadores nos avalie do jeito que eles permitem. Isso ajuda muito a gente manter esse  podcast.

Saúde, paz, grato pela companhia e até a próxima.

Ex-Libris, inteligência com propriedade.

Transcrição Ex Libris – S01e05

[Cultura] – Obras de três continentes narram o tráfico de escravos africanos

130 anos e ainda temos muito o que corrigir em nossa história cercana. Não somos, em nossa maioria, natos deste pedaço de terra americana, somos em parte invasores, brancos, escravos, negros, mulatos.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 5º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que esteja gostando do Ex-Libris. Aguardo comentários e sugestões, afinal eu preciso saber se estou no caminho certo. Para tanto, basta dar um pulo lá no idigitais.com. 

Você pode colocar as observações no post deste episódio, na transcrição ou ainda enviar um email. O Ex-Libris está disponível em vários agregadores e serviços: Anchor.fm; Apple Podcasts; Breaker; Castbox; Google Podcasts; OverCast; Pocket Casts; RadioPublic; Spotify; e Stitcher. Se você utiliza outro serviço, basta copiar o rss disponível e colar em seu aplicativo. Todo os links estão publicados na 1ª página do idigitais.com

Começa agora o Ex-Libris sobre Cultura de 02 de out de 2018

Cerca de cinco séculos após o início da chegada de povos escravizados da África às Américas, as rotas, as influências culturais, a miscigenação e as histórias da escravidão negra são temas de uma das maiores exposições de arte realizadas nos últimos anos pelo Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o Masp.

Em parceria com o Instituto Tomie Ohtake, foi inaugurada nos fins de junho a exposição Histórias Afro-Atlânticas que tem encerramento previsto para 21 de outubro de 2018. Corre que dá tempo!

“Nos navios negreiros vieram não só pessoas escravizadas, mas símbolos, culturas, religiões e filosofias”, explica uma das curadoras da exposição, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, que montou esta  mostra com mais quatro nomes, Adriano Pedrosa, Ayrson Heráclito, Hélio Menezes e Tomás Toledo. “Esse circuito, como definiu Pierre Verger – etnólogo, fotógrafo e babalaô franco-baiano – criou não apenas fluxos, mas também refluxos.” 

A ideia de trazer as narrativas afro-atlânticas veio a partir da exposição Histórias Mestiças feita por Lilia Schwarcz e Adriano Pedrosa no Tomie Ohtake em 2014; exposição esta que originou dois projetos: As Histórias da Escravidão e as Histórias Indígenas. 

A ampliação da discussão para narrativas afro-atlânticas veio após a realização de um seminário sobre o tema em 2016. As Histórias Indígenas já é uma exposição programada para 2021.

No museu, o ano de 2018 está sendo dedicado integralmente às narrativas afro-atlânticas, desde as exposições individuais, como de Maria Auxiliadora, encerrada em junho, e a de Rubem Valentim, até palestras, eventos culturais e sessões de cinema. 

O estudo da curadoria para esta mostra resultou numa antologia, lançada com o catálogo da exposição, que reúne artigos e textos nacionais e internacionais sobre a questão, alguns inéditos em português. 

Para contar as histórias que envolvem três continentes, o MASP e o Tomie Ohtake contaram com importantes empréstimos de grandes coleções particulares e instituições, como a National Portrait Gallery de Londres, a Galleria degli Uffizi de Florença e o Metropolitan, de Nova York. 

Apesar de não ter sido pensada com esse propósito, a mostra ocorre nos 130 anos da abolição da escravidão no Brasil. Uma data tardia que precisa ser politizada, e que até agora – desculpe o trocadilho equivocado – passou em branco. 

A exposição não segue um ordenamento cronológico ou geográfico, sendo dividida em oito núcleos temáticos que abrangem diferentes tempos, territórios e suportes, nas duas instituições que coorganizam o projeto. 

No MASP: há 4 núcleos no 1º andar – MAPAS E MARGENS – COTIDIANOS – RITOS E RITMOS e RETRATOS; no 1º sub-solo: o núcleo MODERNISMOS AFRO-ATLÂNTICOS;  e no 2º subsolo: o núcleo ROTAS E TRANSES: ÁFRICAS, JAMAICA E BAHIA. No Instituto Tomie Ohtake estão os últimos 2 núcleos:  EMANCIPAÇÕES e RESISTÊNCIAS E ATIVISMOS.

Os núcleos discutem a questão negra com uma mistura de obras históricas e contemporâneas. No núcleo Emancipações do Tomei Ohtake, as imagens clássicas do francês Debret e do alemão Rugendas são confrontadas com os equipamentos de tortura, prova de que os povos africanos nunca aceitaram a escravidão pacificamente. É bom lembrar que desde o início da escravidão no Brasil, se tem registro de quilombos.

No núcleo Retratos lá no MASP, em oposição ao que é visto em museus ocidentais e europeus, o negro é colocado como protagonista. A dificuldade é a falta de registros históricos não só de artistas negros como de retratações dignificantes de pessoas negras. 

Para o setor, foram comissionados então dois trabalhos de Dalton Paula, que imaginou figuras históricas e quase sem registros, como a líder quilombola Zeferina da 1ª metade do século 19 e o alfaiate João de Deus Nascimento, um dos líderes da Conjuração Baiana nos fins do século 18. “A proposta é representar personagens esquecidos”, esclarece Tomás Toledo. 

Histórias afro-atlânticas apresenta uma seleção de 450 trabalhos de 214 artistas, do século 16 ao 21, em torno dos “fluxos e refluxos” entre a África, as Américas, o Caribe, e também a Europa. 

O Brasil é um território central nas histórias afro-atlânticas, pois recebeu aproximadamente 46% dos cerca de 12 milhões de africanos e africanas que desembarcaram compulsoriamente neste lado do Atlântico, ao longo de mais de 300 anos. 

Também foi o último país a abolir a escravidão mercantil com a Lei Áurea de 1888, que perversamente não previu um projeto de integração social, perpetuando até hoje desigualdades econômicas, políticas e raciais. 

Por outro lado, o protagonismo brasileiro nessas histórias fez com que aqui se desenvolvesse uma rica e profunda presença das culturas africanas.

Histórias afro-atlânticas parte do desejo e da necessidade de traçar paralelos, fricções e diálogos entre as culturas visuais dos territórios afro-atlânticos—suas vivências, criações, cultos e filosofias. 

O Atlântico Negro, na expressão de Paul Gilroy, é uma geografia sem fronteiras precisas, um campo fluído, em que experiências africanas invadem e ocupam outras nações, territórios e culturas.  

É importante levar em conta a noção plural e polifônica de “histórias”; esse termo que em português abrange tanto a ficção como a não ficção, as narrativas pessoais, políticas, econômicas, culturais e mitológicas. Assim, nossas histórias possuem uma qualidade processual, aberta e especulativa, em oposição ao caráter mais monolítico e definitivo das narrativas tradicionais. 

Neste sentido, a exposição não se propõe a esgotar um assunto tão extenso e complexo, mas antes a incitar novos debates e questionamentos, para que as histórias afro-atlânticas sejam reconsideradas, revistas e reescritas.

No MASP, a mostra contextualiza-se dentro de um ano de exposições, palestras, cursos, oficinas, publicações e programações de filmes em torno das histórias afro-atlânticas. 

O programa iniciou-se com as individuais de Maria Auxiliadora, Aleijadinho (de março a junho) e Emanoel Araujo (de abril a julho) e se completa com as de Melvin Edwards e Rubem Valentim (de agosto a novembro), Sonia Gomes (de Novembro de 2018 a fevereiro de 2019), Pedro Figari (de Novembro de 2018 a fevereiro de 2019) e Lucia Laguna (de Dezembro de 2018 a março de 2019). 

Parte fundamental desse projeto é a Antologia já citada e que reúne em livro textos de 44 autores, resultado de dois seminários internacionais realizados em 2016 e 2017. Desse modo, o museu se transforma, ele mesmo, em uma plataforma múltipla e diversa, plural e polifônica.

Caso você se interesse mais pelo assunto indico a obra do membro e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, poeta ganhador do Prêmio Jabuti com a obra Ao lado de Vera em 1997, ensaísta, memorialista, historiador, atual orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e agraciado com o Prêmio Camões de 2014, o diplomata Alberto Vasconcellos da Costa e Silva, considerado hoje em dia como o maior especialista brasileiro em África, autor de várias obras fundamentais para a compreensão da história do tráfico negreiro para a América, entre elas: 

  • A enxada e a lança: a África antes dos portugueses de 1992; 
  • A manilha e o Libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700, publicado em 2002; 
  • Um rio chamado Atlântico de 2003; e 
  • Francisco Félix de Souza, mercador de escravos de 2004. 

O Ex-Libris, spin-off do Impressões Digitais, um podcast rápido e ligeiro sobre Cultura, acabou. 

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Transcrição Ex Libris – S01e04

[Tecnologia] – Como conectar teclado e mouse sem fio da Apple ao Windows 10

O mundo da tecnologia tem suas idiossincrasias, e quando estas complicam a vida do usuário não tem jeito, os geeks precisam enfiar a mão na massa.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 4º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que tenha gostado do estilo e formato do Ex-Libris, um spin-off do Impressões Digitais que volta em breve. Aguardo comentários e emails, basta dar um pulo lá no site idigitais.com que tá tudo lá.

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A partir de agora o Ex-Libris sobre Tecnologia de 28 de setembro de 2018 começou

Eu sei você estava esperando que logo na estreia eu fosse fundo no estado da arte da tecnologia atual. 

Pois é… não é bem assim…

Considerando-se que pode-se tratar como tecnologia até a linguagem humana… Atenção, eu disse a Linguagem e não a Língua, isso é outro assunto do qual eu conheço muito pouco e, cá entre nós, mesmo me permitindo a nóis, ‘tá, né… torço meu nariz para coisas já socialmente  aceitáveis como “é pra mim fazer?”, “mãs”, “tóchico”, e o famoso “eu vou cazamiga”… 

Língua, mesmo que viva e evolutiva, tem sua base numa linguagem, ambas buscam comunicação, enquanto a língua incorpora significados a linguagem implementa e qualifica termos com significância de modo a transmitir estes mesmos termos e evitar distorções imediatas.

Mas peraí! Filosofando sobre Linguística é demais e não é o tema deste podcast. 

Vou tratar hoje de algo relativamente trivial que, assim de cara, não tem interesse algum para muita gente, mas o tema é tecnologia, podcast é desde sempre para nichos… e mais de uma vez fui questionado sobre a questão de fundo. 

Então… enquanto muita gente prefere um teclado mecânico, sólido, pesado, grande, outros optam por uma aparência simplificada, compacta e leve. Espaço parece (ou deveria) ser algo muito precioso em escritórios e, claro, seu quarto. E, no mundo da tecnologia de consumo, quando se fala em design leve, compacto, claro e despojado o sinônimo são os produtos da Apple. 

No entanto, isso representa um problema para os usuários que ficam sem o seu Mac e precisam quebrar o galho com o PC da família, que preferem trabalhar com o Windows 10, ou ainda podem apenas estar trabalhando em uma empresa que só usa o Windows. A boa notícia é que sim! Mesmo se estiver usando o Windows 10, você ainda poderá tirar proveito dos periféricos da Apple para uso com sua máquina Windows. 

Um dos acessórios mais populares da Apple, o teclado sem fio, é na verdade bastante simples de configurar para o Windows 10.

Para começar, você deve certificar-se de que o teclado sem fio esteja carregado (Murphy sempre dá as caras). Se você tiver o teclado Apple Wireless Keyboard mais antigo, verifique se há pilhas novas nele. Se você tiver o novo Apple Magic Keyboard, verifique se ele foi carregado suficientemente. 

Uma observação: Ambos os teclados sem fio da Apple são configuráveis ​​para funcionar com o Windows 10, mas exigem etapas ligeiramente diferentes no final deste pequeno e expedito tutorial para o keyboard da Apple.

Você precisará ativar o Bluetooth na sua máquina com o Windows 10. Clique no botão Iniciar (o ícone do Windows no canto inferior esquerdo da área de trabalho) e clique em “Configurações”.

A partir daqui, você deve estar olhando para o painel de configurações padrão, onde você pode acessar as configurações de rede, informações da conta, configurações de segurança e privacidade e muito mais. Clique na opção “Dispositivos”. Embaixo do ícone está escrito “Bluetooth, impressoras, mouse”. Não tem como errar.

Quando estiver no painel “Dispositivos”, você pode clicar na opção “Bluetooth” no lado esquerdo da tela. No meio da tela, então, uma mensagem aparecerá: “Gerenciar dispositivos Bluetooth”. Abaixo desse texto, verifique se o controle deslizante de “Bluetooth” está ligado na posição “Ativado” e se está azul. Ok? Conferiu? Tudo certo? Vamos em frente.

Você verá agora uma janela pop-up que oferece uma senha. E ATENÇÃO! Agora é que a configuração dos dois tipos de teclados sem fio da Apple se diferem. 

Se você tiver o teclado sem fio mais antigo (aquele com pilhas, sem entrada para cabo), basta digitar o código na tela e pressionar a tecla Enter / Return do teclado da Apple. No entanto, se você tiver um novo Apple Magic Keyboard, há um comportamento meio confuso. O Windows 10 parece ler esse Teclado como sendo um computador, completo, com tela e tudo, e apresenta um código na janela e o texto “Comparar as senhas”, supondo que você deseja comparar o texto exibido na tela do TECLADO da Apple. Como o Magic Keyboard obviamente não tem tela, basta clicar em “Yes” (Sim). Nesse ponto, você deve estar conectado.

Para testar o teclado, basta tente digitar algo. Se quiser ter certeza, acesse o painel de configurações do Bluetooth – como já expliquei – e, em “Magic Keyboard” ou “Apple Wireless Keyboard”, ele deve informar “Conectado”. Para desconectar o teclado, lembre-se de selecionar o nome do seu teclado e clicar no botão “Remover dispositivo” que lá aparece. Quando perguntar se você tem certeza de que deseja desconectar o dispositivo, clique em “Sim”.

Viu que moleza?

E agora, vamos fazer o mouse da Apple rodar corretamente no Windows 10. É um pouco mais complicado, mas funciona direitinho.

O procedimento a seguir é inteiramente gratuito e usa um drive da própria Apple. Sim, há programas pagos que habilitam o Magic Mouse no Windows 10, mas não vou tratar destes aqui não, não vale a pena. O modelo utilizado foi o Magic Mouse de primeira geração, mas segundo relatos que eu peguei na web o de segunda geração funciona da mesma forma. Então vamos lá.

Primeiramente para conectar o Magic Mouse ao Bluetooth verifique se o as pilhas do mouse estão carregadas e ele esteja ligado. Olha o Murphy aí de novo. 

Clique no menu Iniciar do Windows e em seguida clique em “Configurações”. Próximo passo Clique na opção “Bluetooth e outros dispositivos”. Atenção, na parte superior desta janela clique em “Adicionar Bluetooth ou outro dispositivo”. Agora clique em “Bluetooth” e escolha na lista que se abrirá a opção “Magic Mouse”. Pode aparecer apenas a palavra “Mouse” como opção da lista, depende da atualização do Windows 10.

Agora chegou a hora da instalação do drive. Sem ele, o seu Magic Mouse pode ser utilizado apenas como um mouse bluetooth genérico, sem gestos ou scroll, que é a rolagem de páginas. 

Infelizmente em áudio esta parte do tutorial ficará prejudicada, e você terá que acessar a Transcrição deste 4º episódio do Ex Libris no site idigitais.com  e localizar o endereço do drive, links necessários e as instruções complementares.

Então faça o download do drive diretamente do site da Apple, presente no pacote BootCamp, e siga as instruções na descrição do episódio para descompactar, instalar e executar o drive original AppleWirelessMouse64.exe

ATENÇÃO: não pegue este arquivo em outro lugar que não seja no endereço da Apple que consta nas instruções.

E é simples assim, um download, descompactação, localização de arquivo executável e instalação no Windows 10. Pronto! Seu Magic Mouse já está com o scroll e gestos funcionando. 

Mas, caso você deseje ficar com o mouse como se fosse no Mac mesmo, falta algo importante: o reverse scroll, conhecido no mundo Mac como “rolagem natural”. Para configurar a rolagem natural, dá para instalar um aplicativo simples, conhecido e gratuito: o Wizmouse, da Antibody. Baixe o software como indicado – de novo – nas Instruções da Transcrição deste episódio lá do Ex Libris  no site idigitais.com.

Ao rodar o setup do Wizmouse, habilite a última opção da tela de instalação deste aplicativo, marcando a opção “Reverse Mouse Scrolling“. Clique em OK, para finalizar.

Pronto! Agora sim… você já pode usar o Magic Mouse no Windows como está acostumado a usar no Mac.

Eu só fiz este tutorialzinho porque essa do Windows 10 entender o Magic Keyboard como sendo um notebook já apareceu na minha vida um par de vezes e tive que quebrar a cabeça para entender que isso é apenas mais uma das incongruências dos mundos Windows e Apple. 

Agora a forma de habilitar o Magic Mouse foi há pouco tempo e me deu um razoável trabalho de busca e avaliação de alguns métodos. Este me pareceu o mais simples.

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Transcrição Ex Libris – S01e03

[Ciência] – Só existe uma raça, a Humana.

Tem cientista que adora as luzes da ribalta, nem que para isso associe genética e raça dando, assim, oportunidade no palco para um bando de malucos festejar e associar a ciência ao racismo da forma mais torta possível.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o episódio nº 3 da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema.

Seja bem vindo e espero que tenha gostado do estilo e formato do Ex-Libris, um spin-off do Impressões Digitais que volta em breve. Aguardo comentários e emails, basta dar um pulo lá no site endereço idigitais.com que tá tudo lá.

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A partir de agora o Ex-Libris sobre Ciência de 25 de set de 2018 começou

Quando geneticistas falam sem o devido cuidado sobre o conceito de raça, arma-se uma confusão dos diabos. 

E isso foi o que conseguiu o geneticista David Reich com seu artigo publicado no New York Times de 23 Março intitulado – Como a genética está mudando nossa compreensão da “raça” – no qual ele afirma – já polemicamente – que a chamada ”ortodoxia” da genética faz com que os cientistas evitem investigar, e até mesmo discutir o que para ele é muito claro: que as variações entre as populações humanas existem! 

“Não é mais possível ignorar diferenças genéticas entre ‘raças’”, escreveu ele. Ressalvo que em todas as vezes em que ele utilizou o termo raça ele utilizou aspas. Fato este que não alterou em nada a reação dos leitores.

O artigo publicado caiu como uma bomba…  todo mundo entrou na gritaria tanto nos círculos acadêmicos como nas ruas, claro. Tanto que uma semana depois de publicado o geneticista teve que publicar um outro artigo em 30 de Março – Como falar sobre “raça” e genética – respondendo aos leitores… o que não adiantou muito, mesmo colocando raça entre aspas novamente.

Nestes tempos em que grupos de supremacia branca estão ganhando força e fazendo abertamente manifestações nos Estados Unidos – e em outros países que é melhor nem nomear aqui -, não é surpreendente que um artigo como o de Reich reacenda paixões. 

O escritor de ciência Nicholas Wade, cujos artigos sobre raça foram severamente criticados por geneticistas, respondeu rapidamente: “Finalmente! Um geneticista de Harvard, David Reich, admite que existem diferenças genéticas entre raças humanas, embora ele coloque a palavra raça entre aspas. ”

Wade e Charles Murray, co-autor do livro mais do que controverso The Curve of Bell, são defensores declarados da existência de raças humanas e também da inferioridade do negro. Murray também celebrou a escrita de Reich, embora, ironicamente, quando seu livro foi publicado, entre os geneticistas que o condenaram como um instigador do racismo estava o próprio Reich.

Alan Templeton, um geneticista e estatístico da Universidade de Washington em St. Louis, escreveu um artigo com profundidade e base onde analisa vários grupos humanos e nos dá uma idéia precisa do significado de raça em termos biológicos, sempre apoiado nas variantes genéticas que definem as espécies e não em características como a cor da pele, por exemplo, que são adaptações e que variam nas populações como resultado de mudanças no ambiente.

As raças podem existir em humanos em um sentido cultural, mas os conceitos biológicos de raça devem ser estritos ao demonstrar se essas construções correspondem a categorias biológicas reais de seres humanos. Os conceitos modernos de biologia podem testar a existência ou não de raças humanas usando as ferramentas da genética e aplicando rigorosamente o método científico através da formulação e teste de hipóteses.Com o uso de novas tecnologias no estudo do DNA, pode-se inferir a ancestralidade geográfica dos indivíduos, estudando um grande número de genes e as expressões deles, os alelos. 

Em uma análise inicial, usando uma variedade de marcadores em auto-declarados “brancos” nos Estados Unidos, se encontrou principalmente um ancestral europeu; enquanto que os auto-declarados “negros” são basicamente de origem africana, com pouca sobreposição entre os auto-declarados “negro” e “branco”. Seguindo a mesma linha, mas desta vez com uma amostra local de pessoas que se identificaram como e “brancos”, “mulatos”  e “negros”, antropólogos brasileiros encontraram uma extensa sobreposição de ascendência africana entre todas as “raças”. Além disso, os  auto-declarados “brancos” brasileiros tinham uma ascendência africana maior do que alguns dos auto-declarados “negros” dos Estados Unidos. É claro, então, que as categorias raciais de “brancos” e “negros”, definidas culturalmente, não têm o mesmo significado genético no Brasil e nos Estados Unidos. As inconsistências no significado de “raça” através de culturas e ancestrais genéticos fornecem uma forte razão para uma definição de raça livre da biologia e baseada apenas na cultura.

Logo após a conclusão do projeto do genoma humano, o seu diretor Francis Collins, juntamente com a sua equipe, lançou uma espécie de desafio para que os pesquisadores se dedicassem – com todas as informações de nossa estrutura genética à mão – na resolução de todos os problemas ainda não resolvidos da biologia, da saúde e da sociedade. De especial interesse foram os problemas relacionados às disparidades de saúde entre brancos e negros. 

Os Estados Unidos têm investido mais de um bilhão de dólares ao ano em estudos genéticos para encontrar a raiz biológica dessas diferenças. “O que encontramos na literatura publicada entre 2007 e 2013 é essencialmente nada”, diz Jay Kaufman, autor principal do primeiro estudo que examinou os dados genéticos disponíveis que buscavam evidências para explicar a disparidade entre raça e saúde.

Durante anos, pensou-se que as disparidades residiam em um componente biológico fora de alcance, mas quando os avanços da genética permitiram demonstrar que tal componente não existia, o argumento tornou-se tolo e equivocado. Ao analisar por que os negros morrem antes que os brancos, Kaufman diz que, em vez de olhar para a dupla hélice, é necessário questionar o porque da enorme desigualdade social e econômica. Nos Estados Unidos os homens brancos vivem quatro anos a mais que os negros e as mulheres brancas três anos a mais que as negras. 

A principal razão para essa lacuna é a doença cardíaca. Mas depois de analisar por seis anos estudos genéticos sobre o assunto e examinar o genoma em busca de possíveis variantes que propiciassem a doença, eles encontraram exatamente o oposto: foram os brancos que mostraram o maior risco. “Gastamos uma quantia enorme de dinheiro nesses estudos que não levaram a nada”, diz Kaufman. Mas então, por que ainda há tanto esforço?

Um motivo – que tem mais a ver com finanças que com a biologia – pode ser encontrado no primeiro medicamento específico para negros, o BiDil uma combinação de dois medicamentos genéricos usados ​​em doenças cardíacas durante décadas. Em 2005, o FDA aprovou as drogas antigas com um novo propósito: o tratamento de problemas cardíacos para uma única raça, os afro-americanos (de acordo com a classificação norte-americana). 

Jonathan Kanh, autor de Race in a Bottle escreve extensivamente sobre a história do BiDil. Não há dúvida de que o medicamento atua em negros, embora o problema grave seja que os processos de aprovação do medicamento não tiveram grupos de controle. Os pesquisadores estudaram o BiDil apenas em negros. 

Parênteses  – Quem conhece o mínimo do conceito “método científico” deve estar se esganando junto com Carl Sagan… – Fechando os parênteses e voltando à pauta, repito:

Os pesquisadores estudaram a medicação BiDil apenas em negros. E se funciona neles não é porque são negros… mas porque –  a gente sabe – eles são humanos. 

Quem tá ganhando ainda com essa relação raça / saúde é a NitroMed, a empresa por trás do BiDil que conseguiu que a patente que iria expirar em 2007 fosse estendida até 2020.

E assim é com outras doenças, como diabetes atribuída aos mexicanos, que não tem outra explicação além dos problemas da dieta pobre e, novamente, a enorme desigualdade social. Além da escassa evidência científica- que sustenta as disparidades entre a saúde e as “raças” – o problema sério está na disponibilidade de medicamentos, porque a precariedade do sistema de saúde os torna inatingíveis.

Há uma grande manipulação da ciência e de seus resultados,  os quais são interpretados conforme interesses nem tanto obscuros. Permitir este tipo de malversação de conhecimento é uma enorme responsabilidade para uma sociedade que deveria garantir a saúde de seus cidadãos, e não distorcer as evidências que indicam que as disparidades raciais em saúde não têm base na biologia. Para transformar tais evidências em um instrumento de dominação racial basta apenas propagar uma ideia: eles têm saúde ruim porque são negros ou hispânicos.

Talvez seja hora de lembrar um pouco sobre a nossa história evolutiva. A origem do homem foi estabelecida na África de onde, e através de muitos movimentos migratórios se espalhou pelo planeta. Por milhões de anos, nossos ancestrais hominídeos evoluíram para o que somos hoje, o Homo sapiens. No processo, muitas trocas genéticas ocorreram entre os diferentes hominídeos que já haviam se estabelecido em diferentes regiões e haviam se formado em diversos grupos humanos. Em um ponto, cerca de 30.000 anos atrás, os neandertais desapareceram, nos tornamos o último hominídeo da Terra, o único remanescente.

E de volta para a discussão inicial da existência de raças com uma base biológica, não cultural, talvez a melhor maneira de ilustrar a enorme mistura que ocorreu em nosso genoma, seria fazer uma análise científica e profunda do fluxo dos genes ao longo do tempo, e advinha? Foi feito! 

O fluxo possui diferentes direções geográficas e consequentes misturas. A linha correspondente a África se expandiu em muitas direções, dando e recebendo informações genéticas de todos os outros grupos humanos: europeus, asiáticos, habitantes do Pacífico e das Américas. 

A conclusão mais importante do grande quadro genético que foi pintado pelos cientistas ao longo dos últimos  anos é que a humanidade atual corresponde a uma linhagem evolutiva cheia de miscigenação. Taí nossos – ainda presentes – genes Neandertais e a descoberta nos ossos de uma mulher de 90 mil anos, do DNA que indica ela ser uma ‘híbrida’ de duas linhagens Homo distintas: metade neandertal e metade denisovano.

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Saúde, paz, grato pela companhia e até a próxima

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