Transcrição Ex Libris – S01e19

S01e19 Bio On Demand

[Tecnologia] – Uma maleta de dar inveja ao James Bond

Como fazer produtos biológicos sob demanda

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 19º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. 

Seja bem vindo e espero que o Ex-Libris esteja atendendo suas expectativas. Diz aí.. eu estou acertando? Eu preciso saber o que você acha disso aqui. Vai lá no idigitais.com e deixe seu comentário, esculacho ou ainda proposta indecente. Pode ser no post desse episódio, na sua transcrição no Medium/@sergiovds ou ainda pelo email idigitais@gmail.com

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Começa agora o Ex-Libris sobre Tecnologia de 23 de dez de 2018.

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Ter à mão produtos biofarmacêuticos em áreas remotas normalmente é muito difícil, às vezes, até impossível. Pesquisadores financiados pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos EUA (a DARPA gente… U.S. Defense Advanced Research Projects Agency)  estão tentando mudar tudo  isso. 

Eles estão encontrando maneiras de aumentar rapidamente a produção de produtos biológicos quando são necessários. Um dos projetos se concentra na produção de proteínas em um sistema bem simples, de bancada. Um outro empacota todo o sistema em uma maleta de mão! 

Um dos mais sérios problemas em situações extremas como a de um médico do Exército dos EUA estacionado numa zona de conflito (pode escolher a zona que quiser… tem norte-americano em um monte delas por aí: Líbia, Iraque, Síria, Iêmen, Paquistão, Somália, não Somália não… lá eles só estão usando drones), ou de uma operação de auxílio humanitário da ONU nas Filipinas, p.ex., após mais um tufão devastador, não se restringe à dificuldade em acessar medicamentos, além das limitações de suprimentos, há o problema de armazenamento de certos biofármacos, como a insulina.

Nada como possuir algo como o sintetizador de comida da Enterprise da série Star Trek; ou seja, uma maquineta que pudesse sintetizar qualquer droga a qualquer momento, em qualquer quantidade, para atender situações austeras, em que hoje em dia, toda uma operação de logística é desperdiçada para levar e carregar caixas e caixas de remédios que podem não ser utilizados integralmente. 

A logística, então, seria apenas transportar alguns reagentes básicos e o laboratório portátil sintetizaria ‘in situ’ o que fosse necessário.

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Desde 2010, a DARPA possui um programa de medicina no campo de batalha. Onde o desafio aos pesquisadores foi o de encontrar maneiras de fabricar drogas, pequenas moléculas e produtos biofarmacêuticos em menos de 24 horas.

No início de 2018, duas equipes de pesquisa financiadas pela DARPA – uma do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts] e uma da Universidade de Maryland – responderam ao desafio, desenvolvendo sistemas modulares capazes de produzir terapias protéicas sob demanda. 

Espera-se que tais sistemas e outros semelhantes sejam melhorados, otimizados em breve permitindo que biofármacos, também conhecidos como produtos biológicos, sejam produzidos em ambientes remotos por médicos militares. 

Obviamente o mesmo tipo de tecnologia pode tornar mais fácil e barato o fornecimento de outros medicamentos e vacinas em todo o mundo. E em países desenvolvidos, que já têm acesso a produtos biológicos, as tecnologias subjacentes podem abrir caminho para medicamentos verdadeiramente personalizados.

Bem… aqui nem vou desenvolver o outro lado dessa moeda. Afinal, drogas são drogas, né? Agentes biológicos são agentes biológicos, vai daí…

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Um dos objetivos da DARPA na sintetização de produtos biológicos sob demanda é eliminar a necessidade de refrigerar drogas, como a  insulina. O armazenamento a frio precisa de energia, e isso é um grande problema quando se está lidando com ambientes extremos que carecem de infraestrutura, como as frentes militares sejam elas humanitárias ou de batalha. 

Fabricar insulina e qualquer e produto biológico no local e depois entregá-los imediatamente aos pacientes eliminaria a necessidade de estoque climatizado.

A DARPA também quer reduzir a necessidade de estocar produtos biológicos como contramedidas no caso de ataques químicos, biológicos, radiológicos ou nucleares. Essas drogas raramente precisam ser usadas e precisam ser substituídas à medida que elas expiram. Os estoques menores poderiam ser mantidos para uso imediato, e mais drogas poderiam ser feitas localmente em resposta às epidemias ou ataques.

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Os biofármacos são normalmente sintetizados em lotes em enormes reatores de grande escala, com milhares de litros de volume, por células geneticamente modificadas para produzir as proteínas desejadas. 

No caso da bactéria E. coli, as células devem ser rompidas para recuperar as proteínas. No caso de células de levedura ou de ovário de hamster chinês (CHO), as células secretam as proteínas, o que simplifica a purificação. 

A troca de um desses sistemas de uma molécula para outra pode levar meses. Tais reatores de larga escala são mais eficientes quando usados ​​para produzir proteínas para uma grande população de pacientes. As empresas visam otimizar sua cadeia de suprimentos ao longo de um período de aproximadamente dois anos, mas obter tais previsões corretamente pode ser um desafio.

Tradicionalmente, a fabricação de classes mais amplas de produtos biofarmacêuticos – de enzimas a hormônios e citocinas – requer processos únicos e personalizados, além de instalações exclusivas projetadas para cada molécula.

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Como produtos biológicos podem ser produzidos em até 24 horas? 

Bem… O sistema que a equipe do MIT criou, chamado Integrated Scalable Cyto-Technology, ou InSCyT, usa células de levedura Pichia pastoris para produzir vários medicamentos em um sistema de fabricação de bancada. 

O genoma da levedura é pequeno o suficiente; por cerca de 30 dólares, você pode sequenciar a coisa toda. A acessibilidade dessa biologia possibilita pensar em sintonizar o hospedeiro para produzir as moléculas de interesse com a precisão necessária para os biofármacos. Com novas ferramentas de sequenciamento e edição de genoma, os pesquisadores podem rapidamente adaptar a levedura para produzir novas proteínas.

Conhecer bem a biologia da levedura também permite que a equipe do MIT preveja quais proteínas das células hospedeiras podem contaminar seu produto biológico. Tipicamente, a indústria biofarmacêutica programa células CHO para bombear produtos biológicos selecionados. 

As indústrias usam células CHO porque são células de mamíferos que podem realizar as modificações pós-tradução muitas vezes necessárias para proteínas terapêuticas. Mas essas células, mais complexas que a levedura, geram cerca de 2.000 proteínas contaminantes além da terapêutica desejada. Com a levedura, apenas cerca de 200 proteínas hospedeiras acabam no meio da cultura celular com o produto, facilitando, assim, a purificação.

A turma do MIT ressalta que o sistema InSCyT tem todos os componentes da bio-manufatura convencional, só que em menor escala. O que conseguiram tem os mesmos elementos de fabricação que geralmente se espera de uma instalação típica.

O InSCyT é composto por três módulos. A fermentação ocorre em um módulo de produção. O meio de cultura de células desse módulo, com o produto protéico, flui através de tubos para um sistema de cromatografia num módulo de purificação. Finalmente, a proteína purificada é filtrada em um módulo de formulação.

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Em contraste ao sistema do MIT, o outro sistema financiado pela DARPA funciona sem células. 

Chamado de Bio-MOD (Biological-derived Medicines on Demand), o sistema projetado por uma equipe da Universidade de Maryland, em Baltimore, cabe em uma mala de 90cm, ou melhor, 89 cm.

Os pesquisadores agora estão trabalhando em uma versão ainda menor, que caiba em uma pasta.

Em vez de usar células, o Bio-MOD trabalha com extratos liofilizados de células CHO. Os extratos contêm a transcrição genética e a maquinaria de tradução das células que a Bio-MOD usa para sintetizar a terapêutica de proteínas. 

Em comparação com o sistema do MIT, o da Universidade de Maryland é modularmente semelhante, incluindo módulos de produção e purificação de proteína de uso único que podem ser inseridos na mala.

Uma das principais vantagens dos sistemas sem células é a velocidade. Por outro lado, o sistema baseado em células do MIT pode produzir centenas de milhares de doses de produtos biológicos protéicos em cerca de três dias.

A outra vantagem dos sistemas livres de células é que a refrigeração não é necessária durante o transporte. Os extratos de células liofilizadas que o Bio-MOD usa são como leite em pó.

Explicando: leite fresco é um produto perecível que precisa ser refrigerado, todo mundo sabe. Quando descobriram que é possível fazer leite em pó, isso revolucionou a nutrição em todo o mundo. Você poderia ter algo que é estável na prateleira. Basta adicionar água quando precisa e voilá… leite pronto. O miojo também tá aí pra provar que é isso mesmo.

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Os extratos de células funcionam de uma maneira semelhante, cataliza-se, hidrata-se e pronto. O grupo da Universidade de Maryland mostrou que mesmo células de sangue humano podem servir como fonte de extratos livres de células.

Eles vêem… o grupo de Maryland…  esses extratos sendo particularmente úteis para obter vacinas. Em tais casos, os pesquisadores podem extrair sangue de indivíduos, fazer o extrato, usá-lo no sistema Bio-MOD para produzir uma proteína, como um antígeno de vacina, e injetá-lo de volta na mesma pessoa.

Esse processo seria especialmente útil para lidar com surtos e epidemias. Se você pudesse fazer a vacina no ponto de atendimento, poderia administrá-la imediatamente a todas as pessoas da vizinhança e eliminar os possíveis surtos. Injetar a vacina de volta na mesma pessoa reduziria ou até eliminaria a necessidade de rastreio de vírus ou imunogenicidade.

O Bio-MOD da Universidade de Maryland tem algumas desvantagens. Os sistemas de produção sem células são geralmente adequados para produzir pequenas quantidades de proteínas. E mais purificação é necessária para remover os restos celulares.

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A DARPA vê benefícios em ambos os sistemas, bem como suas aplicações distintas.

O produto liofilizado da Universidade de Maryland pode ​​ser armazenado de forma bastante robusta na prateleira a temperatura e umidade relativamente elevadas. Você pode imaginar isso sendo usado em um ambiente muito austero. 

O Bio-MOD é apropriado para missões de operações especiais envolvendo um pequeno número de indivíduos que precisam de proteção contra ameaças específicas.

O sistema de bancada do MIT, por outro lado, poderia ser usado para substituir os estoques biofarmacêuticos. A raridade de ataques químicos e outros tipos de ataques significa que esses estoques são raramente usados. 

Você poderia pensar nisso como uma manufatura aditiva para a indústria farmacêutica, onde você poderia produzir o que você precisa quando você precisa, ou seja, prevenção para cenários de surto epidêmico ou de evento de exposição massiva. 

Com um deslocamento rápido, de horas, o sistema é capaz de permitir a produção de centenas de doses por dia apenas com sua operação em escala laboratorial. Você poderia imaginar escalonar isso para fazer milhares de doses por dia dependendo apenas da distribuição geográfica das unidades.

Ambos os projetos demonstraram que poderiam produzir uma variedade de moléculas, incluindo proteínas terapêuticas e antígenos para vacinas. Entre eles está o fator estimulante de colônias de granulócitos (G-CSF), uma proteína que é administrada em resposta à exposição à radiação. 

Uma versão genérica do G-CSF foi sintetizada e aprovada pela Food & Drug Administration dos EUA, portanto, é uma terapia protéica bem compreendida que as equipes do MIT e do Universidade de Maryland certamente usaram para testar seus sistemas.

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Outras organizações, além da DARPA, estão interessadas em bio-manufatura sob demanda para tornar mais fácil e barato o fornecimento de produtos biológicos em todo o mundo. 

A maioria dessas outras organizações e pesquisadores está focada em desenvolver e produzir sistemas livres de células por causa de sua capacidade de trabalhar em uma infinidade de ambientes. A primeira vez que extratos de células liofilizadas foram usados ​​para produzir proteínas foi por um grupo da Brigham Young University em 2014.

Mais ou menos na mesma época uma outra equipe do MIT também criou extratos celulares liofilizados, que eventualmente aplicaram à bio-manufatura portátil sob demanda.

A fabricação de proteínas sem células segue o fluxo: Extratos de células liofilizadas e plasmídeos (moléculas de DNA extra cromossomos que podem ser passadas de bactéria à bactéria, carregando consigo informações genéticas – e até mesmo novos genes) são misturados e reidratados para completar a síntese. Tipo um miojão…

Sistemas sem células podem melhorar a saúde global, abrindo uma portabilidade para os profissionais de saúde em áreas de baixa renda; para militares ou viagens espaciais, exploradores ou atletas, ou seja produzindo quantidades modestas em áreas de recursos limitados.

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A bio-manufatura sob demanda tem o potencial de reduzir os custos de produção de produtos biológicos para pequenos grupos de pacientes, e até mesmo para pacientes individuais.

Na Holanda, esse objetivo está a caminho de se tornar realidade. Um grupo de pesquisadores da Universidade de Utrecht conduzem um programa-piloto no qual fazem terapias biológicas sob demanda para pacientes individuais.

A economia, obviamente, é um dos dos impulsionadores da pesquisa. Os preços estão aumentando ao mesmo tempo em que a eficácia média de novos medicamentos está diminuindo. Isso é fato.

A indústria biofarmacêutica desde sempre não é, nunca foi, ou será por enquanto, projetada para o próximo passo do cuidado farmacêutico, que é a medicina personalizada.

A equipe de Utrecht está produzindo produtos biológicos na farmácia do hospital a custos 5% maiores que os da indústria e ainda assim tem lucro. Esse modelo pode ser considerado o equivalente biológico ao de uma farmácia de manipulação.

Os holandeses começaram com o tratamento para o linfoma (um câncer dos glóbulos brancos que pode se tornar resistente às terapias com anticorpos). Por causa desta resistência, os médicos precisam de outra maneira de direcionar as células cancerosas de um paciente. 

Uma vez que um novo biomarcador para as células é encontrado, a equipe da Universidade de Utrecht pode produzir um anticorpo monoclonal personalizado para combiná-lo e estar pronto para tratar a pessoa. 

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Haverá sempre a necessidade de uma indústria farmacêutica para grandes populações de pacientes e para a produção em massa de drogas. Mas a ideia holandesa é fazer apenas a quantidade necessária para um ano de tratamento. As formas de dosagem feitas pela indústria farmacêutica resultam frequentemente na necessidade de descartar produtos não utilizados. 

Pois é… somos capazes de criar e desenvolver inúmeras coisas que nos facilitam a vida, e ao mesmo tempo ter como sub-produto desta mesma criação aquilo que pode sufocar nossa estrutura econômica. 

Precisamos urgentemente rever toda nossa estrutura de produção e consumo. 

O tempo já se esgotou, ultrapassamos o limite do mínimo impacto.

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O Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro – às vezes –  hoje sobre Tecnologia, acabou. 

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Transcrição Ex Libris – S01e18

S01e18 Nobel 18

[Ciência] – Imunidade, laser e evolução dirigida

Nada como a comunidade científica reconhecer o método científico.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 18º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. 

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Começa agora o Ex-Libris sobre Ciência de 18 de dez de 2018.

Neste episódio eu falo sobre Imunidade, laser e evolução dirigida ou nada como a comunidade científica reconhecer o método científico.


Em 2018 o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina foi dado a dois pesquisadores que desenvolveram distintas terapias anti-tumorais baseadas na inibição da regulação imunológica negativa. Estas terapias conseguem bloquear a inibição que os tumores exercem sobre o sistema imunológico, de modo que, ao liberar este freio, o sistema imunológico ataca estes tumores e os erradica.

Para entender o significado dessa descoberta e por que ela merece um Prêmio Nobel, é necessário primeiro entender uma propriedade fundamental dos mecanismos imunológicos de defesa.

Estes mecanismos devem ser ativados quando eles encontram um invasor no sistema ou dentro de uma célula do organismo que é uma ameaça para o ser. De modo simples, o corpo de mamíferos possui um sistema que age quando ele é infectado por um vírus ou quando uma sua célula se torna uma célula tumoral.

A ativação normal do sistema imunológico humano (em particular dos linfócitos T, que são os mais importantes para o sistema de defesa, mas não são os únicos), não apenas necessita reconhecer os organismos estranhos, mas também as próprias moléculas que aceleram esta ativação. 

Os mecanismos de defesa sempre produzem danos colaterais ao próprio organismo, danos que podem ser importantes. Assim, uma vez eliminada a ameaça, é necessário parar a ação desses mecanismos de defesa para impedir que nosso próprio sistema imunológico nos prejudique.

Os fãs de House, lembram, nunca é Lúpus…

Quando estes mecanismos de interrupção falham, doenças auto-imunes se desenvolvem, assim como os linfomas. Se estes mesmos mecanismos de frenagem forem colocados em prática antes do necessário o sistema imunológico para de defender o corpo antes de acabar com o inimigo.

Assim, por suas pesquisas sobre estes mecanismos de interrupção – que atuam quando o sistema imunológico ataca as células tumorais – o Prêmio Nobel de Medicina em 2018 foi concedido ao norte-americano James Allison e ao japonês Tasuku Honjo.

Allison é co-descobridor de uma molécula, chamada CTLA-4, que age como um potente freio na atividade imunológica. A geração de anticorpos capazes de bloquear essa molécula libera o freio e permite que o sistema imunológico continue atacando os tumores.

Honjo descobriu em 1992 outro dos freios fundamentais do sistema imunológico: a molécula PD-1. Ele determinou a função dessa molécula em precisos experimentos com linfócitos T e animais de laboratório. 

O PD-1 funciona por um mecanismo diferente do CTLA-4, mas também seu bloqueio com anticorpos previne a interrupção do sistema imunológico e tem se revelado um poderoso estímulo na luta antitumoral. 

O uso de ambas estratégias em terapias, por vezes, consegue curar completamente casos específicos de câncer.


Invenções inovadoras na física do laser (acrônimo de Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation, ou seja, amplificação da luz por emissão estimulada de radiação) foram as protagonistas do Prêmio Nobel de Física de 2018. O prêmio foi dividido em duas metades. 

A primeira metade do prêmio foi atribuída a Arthur Ashkin, pesquisador da Bell Labs em Holmdel, Estados Unidos, pelo desenvolvimento de pinças e aplicações ópticas para sistemas biológicos. 

A segunda metade foi atribuída, em duas partes iguais, a Gérard Mourou, pesquisador da Ecole Polytechnique Palaiseau, da França e Donna Strickland, uma pesquisadora da Universidade de Waterloo, no Canadá, pelo desenvolvimento de um método para gerar pulsos ultra-curtos de laser de grande intensidade.

Foi Kepler, em 1619, o primeiro a propor que a luz pode exercer pressão sobre os corpos, após observar que a cauda de um cometa apontava sempre de forma radial e oposta ao Sol. Ele propôs que a luz solar forçava as partículas dos cometas a se afastarem do Sol. 

Esta proposta foi justificada teoricamente por Maxwell, dois séculos e meio mais tarde, mas não pôde ser demonstrada até a descoberta do laser, uma luz extremamente pura e coerente, cuja existência foi proposta por Einstein em 1915, mas não era uma realidade até 1960. 

Então, quando eu nasci não havia laser… na realidade nem o Sputinik havia sido lançado ainda.

O laser propiciou inesperadas possibilidades para a pesquisa e despertou a imaginação de muitos criadores de ficção científica. 

Por exemplo, lá nos meados de 1960, Eugene Wesley Roddenberry – conhecido pelos fãs como Gene Roddenberry, criador da série Star Trek – sonhou com um raio trator capaz de capturar objetos para movê-los à vontade. Esses sonhos também alimentaram a imaginação de Arthur Ashkin que decidiu pesquisar como trazê-los à realidade. 

Ashkin compreendeu que a luz branca, que é um conjunto de ondas eletromagnéticas que se dispersam em todas as direções, não iria ajudar, então decidiu usar o laser, uma luz extremamente diferente da luz solar e das lâmpadas comuns. 

As ondas eletromagnéticas que compõem o laser oscilam de maneira coerente, concentrando toda a sua energia em um feixe com direção e frequência muito bem definidas. 

Logo após a construção do 1º laser, lá em 1960, o físico Arthur Ashkin começou a experimentar a nova fonte de luz nos Laboratórios Bell, em Nova York, Estados Unidos. Ashkin percebeu que poderia usar a pressão de radiação de um feixe laser para empurrar bolinhas microscópicas. 

Seus experimentos mostraram que, além de serem empurradas na direção da propagação do feixe laser, as bolinhas sofriam uma força  inesperada que as atraia para o centro do feixe. A força era produzida pelo gradiente de intensidade na seção transversal do feixe, menos intenso na periferia, e mais intenso no centro.

Anos mais tarde, em 1986, Ashkin colocou uma lente no caminho da luz para que ela concentrasse o foco do laser, e assim mostrou como combinar a pressão de radiação, força do gradiente de intensidade e o foco de uma lente para criar uma… pinça óptica, um conjunto óptico capaz de aprisionar um objeto microscópico em um ponto no espaço tridimensional. 

Com suas pinças ópticas, Ashkin e sua equipe foram capazes de capturar não só partículas inanimadas, mas também vírus, bactérias e células vivas. Graças ao desenvolvimento das pinças ópticas hoje pode-se capturar e isolar células individuais para estudar os componentes e mecanismos celulares, os mecanismos moleculares de flagelos de uma bactéria, até as moléculas de DNA e proteínas.

Ou seja, temos sim raios tratores… só que em pequena escala.


Como já dito, a segunda parte do Prêmio Nobel de física 2018 foi concedida a Gerard Mourou e Donna Strickland pelo desenvolvimento de um sistema que gera impulsos muito curtos de laser de alta intensidade. 

O desenvolvimento do laser permitiu uma rápida evolução para fontes de luz cada vez mais potentes. No entanto, nos meados da década de 80 – quase na mesma época em que Ashkin inventou a pinça óptica – uma barreira física impedia seguir aumentando a intensidade do laser, os equipamentos não suportavam e acabavam irremediavelmente danificados nas tentativas de se usar potências maiores.

Explicando rapidamente: A geração de todo laser acontece através de  uma reação em cadeia dentro de um material onde a presença de partículas de luz, os fótons, estimulam a produção de mais fótons. 

Quando a potência de um laser ultrapassa os gigawatts, entretanto, o material amplificador começa a ser destruído pela própria radiação intrínseca. Ou seja, é como você aumentar a voltagem que alimenta qualquer equipamento eletrônico doméstico… o sistema, os materiais não aguentam e queimam.


Strickland, ainda no doutorado da Universidade de Rochester, em Nova York, nos Estados Unidos, juntamente com seu  orientador, Mourou, conceberam uma maneira inteligente para ultrapassar a barreira. 

A técnica, conhecida como CPA (chirped pulse amplification), consistia em submeter um pulso de luz por três estágios. Numa primeira fase, usando um cabo de fibra óptica muito longo, o pulso foi esticado ao longo do tempo, desta forma a intensidade foi reduzida em cada momento. 

Ao diminuir a intensidade, o pulso pode ser amplificado sem perigo em uma segunda fase e, finalmente, graças a um sistema projetado por eles, os pesquisadores comprimiram o pulso ao longo do tempo, conseguindo assim uma maior concentração de fótons em um espaço de curta duração. 

Em 1985, Strickland e Mourou tiveram sucesso e abriram um novo campo de aplicações para o desenvolvimento de pulsos ultra-curtos de alta intensidade.

O método desenvolvido por eles permitiu o desenvolvimento de lasers capazes de concentrar uma enorme energia em um espaço minúsculo, que atualmente são usados para cortar ou perfurar com extrema precisão. 


Os lasers de pulsos ultra-curtos atualmente atuam na ordem de femtosegundos, (1 femtosegundo equivale a 10-15 segundos, ou seja, zero vírgula mais 14 zeros e aí aparece o 1, ou 1 quadrilionésimo de segundo ou ainda um bilionésimo de bilionésimo de segundo) e com potência da ordem de terawatts (1012). Sua TVzona de 60 polegadas hoje em dia consome 100 watts e olhe lá! 

Nota: tem gente já buscando trabalhar com pulsos em attosegundos (equivalente a 10-18 segundos), veja o link na transcrição deste episódio [ Dinámica de los electrones con pulsos láser ultrarrápidos: Hacer cine en attosegundos]


Uma das aplicações mais importantes no campo da biologia tem sido o desenvolvimento de lasers cirúrgicos com os quais operações delicadas podem ser realizadas, por exemplo, em oftalmologia, que permitem corrigir miopia ou problemas de catarata de maneira minimamente invasiva. 

A técnica de pulsos ultra-rápidos permite que lasers cortem materiais de todos os tipos em aplicações industriais, bem como permite a observação de fenômenos que ocorrem em curtíssimos intervalos de tempo, como aqueles que acontecem em moléculas durante reações químicas.

Por fim, vale lembrar que Strickland é a primeira pesquisadora a ganhar o Nobel de Física nos últimos 55 anos. Além dela, apenas duas outras físicas ganharam um Nobel: Marie Curie, em 1903, e Maria Goeppert-Mayer, em 1963. 


A Real Academia Sueca de Ciências concedeu metade do Prêmio Nobel de Química 2018 a Frances Arnold, por ter desenvolvido a técnica de controle da evolução das enzimas de maneira direcionada. 

As enzimas são catalisadores de reações químicas, e através de sua evolução direcionada é possível obter novas enzimas que catalisam reações químicas de interesse que não eram possíveis antes.

A evolução das enzimas, como de qualquer outro tipo de moléculas, ocorreu e continua a ocorrer ao longo da evolução das espécies. Lembre-se de que esta – a evolução, não as enzimas – funciona por meio de mutações que ocorrem aleatoriamente em indivíduos, seguidas pela seleção daqueles indivíduos que, graças – e em parte – àquelas mutações, foram mais capazes de sobreviver e transmitir seus genes às gerações subsequentes.

Fique feliz você é um eleito.

Frances usa esse princípio de mutação e seleção com os genes da enzima de interesse. Graças às técnicas de biologia molecular, os genes das enzimas de células de mamíferos podem ser introduzidos em bactérias, de modo que estas sejam as que mais rapidamente produzam grandes quantidades da enzima de interesse de nós, senhores dominantes dessa técnica.


Antes de introduzir os genes em bactérias, no entanto, eles podem ser submetidos a um perocesso que introduz aleatoriamente mutações neles. 

Deste modo, as bactérias produzirão um conjunto de enzimas mutadas, ou seja, cada uma delas terá propriedades ligeiramente diferentes. 

Os genes que produzem enzimas próximas do que se procura, por exemplo, uma enzima mais resistente às altas temperaturas, passam por ciclos adicionais de mutação e seleção, até que uma enzima com as propriedades desejadas seja obtida.

A norte-americana Frances Arnold – primeira pesquisadora que conseguiu realizar uma técnica de evolução artificial de enzimas – é cientista do Instituto de Tecnologia da Califórnia, onde realiza esse trabalho desde 1993 e estuda como o desenvolvimento das enzimas pode ser aplicado, por exemplo, na fabricação de substâncias químicas menos poluentes. Frances é a quinta mulher a receber o Prêmio Nobel de Química na história.


A outra metade do Prêmio Nobel de Química de 2018 foi entregue à dupla George Smith e Sir Gregory Winter. 

O pesquisador da Universidade do Missouri, George Smith, foi o responsável em 1985 pelo desenvolvimento de um método chamado de Exibição de Fago, no qual um bacteriófago (vírus que infecta bactérias) é usado para criar novas proteínas. 

Já o pesquisador do Laboratório de Biologia Molecular da Universidade de Cambridge, Sir Gregory Winter, usou o método de Exibição de Fago para produzir novos fármacos, incluindo anticorpos que conseguem neutralizar toxinas para combater doenças autoimunes ou curar alguns tipos de câncer metastático. 

Ambos pesquisadores foram também os primeiros a introduzir uma sequência de DNA em um vírus e usá-lo para infectar uma bactéria e fazê-la produzir anticorpos, que isolados, purificados e usados em remédios, não causam reações adversas ao paciente. 

Essa descoberta permite desenvolver tratamentos mais específicos a células cancerígenas ou a doenças autoimunes. 

Entretanto, o primeiro medicamento feito a partir desse método se chama adalimumab (gostei deste nome adalimumab), foi produzido em 2001 e é usado para tratamento de artrite reumatoide, artrite psoriásica, psoríase e doença de Crohn. Ah, sim… aqui no Brasil, atualmente, 4mg deste medicamento indicado para doses a cada 2 semanas (14 dias), custa cerca de R$ 8,5 mil (não gostei disso não).

As técnicas de biologia molecular envolvidas são, além de caras (como vimos), complexas, mas se você estiver interessado no assunto pode começar pelo link disponível na transcrição deste episódio que leva à justificativa da Real Academia Sueca de Ciências para este prêmio.


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Transcrição Ex Libris – S01e17

S01e17 Cannabis

[Comportamento Humano] – O Pragmatismo Social 

Olha Mary Jane, como a legalidade está revigorando a economia de pequenas comunidades decadentes!

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Começa agora o Ex-Libris sobre Comportamento Humano de 11 de dez de 2018.

Neste episódio analiso O Pragmatismo Social ou Olha Mary Jane como a legalidade está revigorando a economia de pequenas comunidades decadentes.

A cada ano nos meses de outubro a dezembro inúmeros jovens se deslocam para a região norte da Califórnia dos EUA em busca de trabalho temporário.

Você poderia pensar que são chicanos buscando mais uma lavoura que não seja a cana, ou a laranja… Mas não, a garotada vai trabalhar na colheita e apara de Cannabis sativa destinada às lojas legais de alguns estados, e claro também para os mercados ilegais de todo os Estados Unidos.

Enfurnado nas florestas do condado de Mendocino, acessível por uma estrada de duas pistas que serpenteia entre colinas, está a pequena cidade de Covelo com cerca de 2 mil habitantes, onde centenas de trabalhadores sazonais convergem todos os anos ansiosos para ajudar na colheita mais lucrativa da região – a maconha.

Esses trabalhadores conhecidos como “trimmigrants” (junção das palavras trimmer – cortador e immigrants – imigrantes), pacientemente cortam as folhas desgrenhadas e os caules frágeis dos botões de maconha, aparando cada um deles em um botão verde compacto, preparado assim para ser fumado em bongs ou ser processado para “aditivar” vaporizadores e alguns produtos alimentícios.

Algumas pessoas nem sabem que um botão precisa ser aparado. Não há arbusto perfeito, assim os cortadores fazem isso, aparam os brotos de planta. Os compradores querem apenas brotos de maconha perfeitos, que pareçam ter saído de uma linha de produção.

Aparar a erva é uma rotina diária tediosa, exigindo horas de trabalho manual. Depois de embelezados os brotos são encaminhados para a comercialização legal da Califórnia.

Milhares de jovens trabalhadores passam várias semanas, com bandejas de maconha no colo, trabalhando no chamado Triângulo Esmeralda do norte da Califórnia, um trio de condados conhecidos por cultivar grande parte da cannabis americana.

São jovens de várias nacionalidades, alguns ilegais, que assim que chegam a Covelo ficam na frente da biblioteca da cidade, assim “de bobeira”, aguardando os fazendeiros perguntarem se eles procuram trabalho.

Mas a colheita e preparo da maconha não é um serviço tão lucrativo como antes. A legalização da maconha recreativa na Califórnia e em outros estados norte-americanos inundou o mercado derrubando os preços, desanimando um pouco os produtores.

Como os riscos legais de cultivo diminuíram, a concorrência entre as fazendas corporativas e o mercado negro aumentou. Uma década atrás, a maconha era vendida por cerca de US$ 4 mil o kg, atualmente os produtores têm sorte quando recebem US$ mil por kg, e isso significa salário menor para o corte.

Os aparadores são pagos por peso, portanto, todas as manhãs a corrida é para podar o máximo possível de maconha. O aumento do cultivo da cannabis derrubou os salários de US$ 500 para US$ 250 por kg. A média por trabalhador é de quase 1kg de botão de maconha aparada por dia, cerca de US$ 200 por 9 horas de trabalho.

Às vezes, se têm sorte, os aparadores alcançam um estado de foco hipnótico enquanto cortam a aparente interminável colheita de cannabis. Alguns chamam esse estado de concentração embalado pelos movimentos repetitivos e pelo cheiro de maconha que permeia as instalações de “dimensão verde”.

Apenas cheiro sim… eles não fumam o produto da colheita durante o trabalho. A produção e o dinheiro são mais importantes que o prazer.

Um dos jovens cortadores – a maioria tem entre 23 e 28 anos – esclarece:

 “Quando você tem a erva certa, as pessoas certas em volta, a vibração certa, você não pensa em mais nada e apenas faz o que gosta por horas”.

Para se manterem firmes – e mais ou menos sãos – os aparadores da fazenda mantêm uma dieta constante de chá, música, podcasts (olha nós aí) e audiolivros, incluindo todas as 12 horas de Silmarillion de Tolkien e todo o cânone de Terence McKenna, o filósofo norte-americano que defendia o uso de plantas “psicodélicas”.

Mas o dia-a dia-não é tão na “brisa” como leva a crer este sistema de trabalho. A combinação de maconha e vizinhança ocasionalmente explode em violência. Sete aparadores foram acusados de participar do brutal assassinato e roubo de um agricultor de cannabis lá em Mendocino em 2016. Em junho de 2018, um homem de New Hampshire foi condenado por espancar um colega, trabalhador temporário, até a morte em uma fazenda de maconha de Covelo após um desentendimento sobre a cão da vítima.

De muitas maneiras Covelo é o Oeste Selvagem da erva. A cidade fica a uma hora e meia da delegacia mais próxima. Os bosques de maconha estão praticamente em todos os lugares, em estufas escondidas dentro de altas paredes de madeira e atrás de lonas pretas em casas situadas nas colinas da cidade.

Há quase uma paranóia dos envolvidos na principal indústria da cidade, principalmente pelo medo de serem assaltados. Produtores instalam câmeras e alarmes de segurança mesmo estando no meio do nada. O lugar é meio sem lei mesmo.

Se há algo que une os produtores, aparadores, justiça e agências de segurança, é a preocupação com os cartéis de drogas mexicanos. Há anos, grupos criminosos cultivam ilegalmente milhões de plantas de maconha em terras públicas e privadas na região. Para sustentar suas operações os cartéis – sempre fortemente armados – desviam água de rios e córregos e envenenam o ambiente com fertilizantes tóxicos e pesticidas, deixando para trás centenas de milhares de quilos de lixo. As autoridades gastaram milhões de dólares tentando erradicar as operações dos cartéis, que continuam a assolar a área e seus moradores.

Mas os aparadores dizem que os cartéis não são o problema principal. Uma chicana originária de Tijuana de 23 anos que começou a trabalhar com a cannabis há cinco anos – e dorme nesta temporada em um contêiner que o produtor usa para secar a maconha – tem sua cota de histórias de horror. Desde desavenças com produtores inescrupulosos que se recusaram a pagá-la; passando por uma situação onde um policial a troco de nada apontou uma arma engatilhada para sua a cabeça e depois aos berros dispensou; claro, vários casos de assédio sexual; e terminando com o desaparecimento de duas de suas amigas.

Mesmo assim, ela afirma que adora cortar maconha em Covelo, onde pode 

“ganhar milhares de dólares por temporada e conhecer jovens de países tão distantes quanto a Etiópia. É uma pequena parada mágica do universo” – disse ela

Uma outra pequena “parada mágica deste universo meio esverdeado” fica ao noroeste de Covelo, bem perto da fronteira com o Arizona e Nevada ao longo da famosa Route 66.

Needles – e seus prédios degradados – fica a oeste do rio Colorado, no Vale do Mojave, perto do famoso Vale da Morte onde sua temperatura máxima chega a 49ºC. A cidade foi batizada em homenagem aos picos pontiagudos encontrados no extremo sul da cordilheira de Sacramento, pertinho da cidade.

A histórica Rota 66 corta Needles. Esta é a estrada que levou para o oeste muitos colonos do sul da Califórnia no século 20, durante a migração da década de 1930 bem na era da Dust Bowl.

[Parênteses]

Explicando o que foi o Dust Bowl: Este foi o nome dado ao fenômeno climático que gerou uma série de tempestades de pó e areia que varreram as High Plains (ou Planícies Altas que abrangem estados como Colorado, o Kansas, Nebraska, Montana, Novo México, Oklahoma, Texas e Wyoming) bem na década de 1930 e que durou quase 10 anos. Foi um enorme desastre econômico e ambiental que afetou severamente todo os Estados Unidos. Na realidade o evento ocorreu em três épocas distintas (em 1934, em 1936 e entre 1939 e 1940), mas algumas dessas regiões experimentaram condições de seca por quase 8 anos. As tempestades de areia foram provocadas por anos de práticas inadequadas de manejo do solo, o qual se tornou susceptível às forças do vento, provocando uma seca induzida pelo alto nível de partículas de solo suspensas no ar. O solo, despojado de umidade, era levantado pelo vento em grandes nuvens de pó e areia tão espessas que escondiam o sol durante vários dias. Esses dias eram conhecidos como “brisas negras” ou “vento negro”.
Curiosidade: No filme interestelar o depoimento das pessoas sobre o período das tempestades de areia e pó são reais e referem-se aos anos 1930 nos Estados Unidos.

[Fechando os Parênteses]

Needles foi o primeiro entroncamento de trens de carga com destino a Los Angeles no século 19. Isso criou centenas de empregos. Needles também foi, literariamente, a primeira parada na Califórnia da família Joad no clássico de John Steinbeck “The Grapes of Wrath” (As vinhas da ira).

Mas, como muitas outras pequenas cidades a caminho de Los Angeles, mesmo histórica, Needles perdeu a sua importância. A estrada de ferro diminuiu os trens e as equipes, e o seu elegante edifício agora depósito está quase vazio.

Needles perdeu sua última mercearia em 2014. Mais de 25% dos moradores dela viviam abaixo da linha da pobreza então. Pouco a pouco, os empregos e as pessoas estavam partindo.

Jeff Williams, o novo prefeito, prendeu muita gente por vender maconha em seus dias como xerife do condado. Ele votou contra a legalização do uso da maconha no referendo estadual de 2016. Mas Williams também sabe que sua cidade já viu dias melhores.

Os empregos na estrada de ferro desapareceram em sua maioria. E as pessoas não passam mais na antiga Rota 66 como costumavam fazer.

Nota: ainda nas referências cinematográficas, qualquer semelhança até aqui com o enredo da animação Cars da Disney não é coincidência.

Então…  Williams, de 54 anos, tornou-se o improvável líder do esforço mais improvável ainda de transformar Needles em um novo tipo de cidade industrial dedicada ao crescente negócio da cannabis.

“Se uma pequena comunidade como esta não está crescendo, ela está morrendo, e é isso que justifica o que estamos fazendo” – disse Williams


O Conselho da Cidade nesta sólida e fervorosa comunidade republicana de 5 mil almas aprovou 81 permissões para negócios de cannabis desde 2015. Quatro lojas legais estão manipulando e vendendo maconha ao público, cerca de 100 vezes o número de lojas por pessoa em todo o estado.

Quase todos os quarteirões de Needles têm um prédio em ruínas que está sendo convertido em uma instalação de cultivo ou para a fabricação de óleos e produtos comestíveis derivados da cannabis. Se todos os projetos se concretizarem as autoridades locais esperam que eles gerem cerca de 2.100 empregos. Bem mais do que Needles têm no momento.

É difícil encontrar alguém na cidade que não esteja envolvido na indústria da maconha.

No primeiro mandato de Williams como prefeito de 2006 a 2010 (ele também foi membro da Câmara Municipal por 4 anos), ele tentou atrair a indústria solar. Quando isso falhou, ele vislumbrou uma oportunidade na maconha quando um amigo o questionou sobre a possibilidade de abrir uma loja de venda legal… em Needles.

Williams falou com muita gente, de professores a cientistas, sobre os possíveis benefícios e lentamente superou parte da antipatia em relação à droga que seus pais e seus anos como policial haviam instilado.

 “Foi como manobrar um navio petroleiro. Foi um longo processo” – Disse ele em uma entrevista recente.

Williams, que ainda não fumou maconha, trabalhou com a administração da cidade e advogados para montar uma legislação que impunha um imposto de 10% sobre os negócios de cannabis. Ela foi aprovada com 81% dos votos.

Nota-se que mesmo sendo muito conservadora politicamente – e mesmo com Trump na presidência – a cidade passa por uma onda de libertarismo.

As primeiras lojas de venda de produtos oriundos da cannabis da cidade ainda enfrentam a oposição, especialmente das igrejas evangélicas locais. Mas elas (as lojas, não as igrejas!) não conseguiram atrair a bandidagem que alguns esperavam. O crime tem se mantido estável nos últimos anos.

No restaurante mais antigo da cidade, uma pequena loja de souvenirs agora oferece bandeiras com a folha de maconha e placas comemorativas para a Rota 420, um código associado há tipos e entrega de maconha, juntamente com as antigas recordações da Rota 66.

Mesmo com a legalização da venda de maconha para uso recreativo por adultos a maioria das comunidades ainda não adotou as políticas de Covelo e Needles porque o uso recreativo da cannabis ainda é ilegal sob a lei federal.

Várias cidades da Califórnia com dificuldades econômicas aproveitam a oportunidade. Needles tem concorrência, além da cidadezinha de Covelo, de outras como Desert Hot Springs e Adelanto.

Com a produção e comercialização da cannabis surgiram alguns problemas. Meses depois da abertura das primeiras lojas em Needles, elas foram invadidas por agentes federais. Nenhuma acusação foi feita, mas os produtos apreendidos nunca foram devolvidos.

As autoridades federais recentemente prenderam funcionários públicos em Adelanto e os acusaram de dar permissões de manipulação e venda de maconha em troca de subornos e favores pessoais. O processo, “tá rolando”…

“Quando você abre a sua comunidade e diz: ‘Este é um lugar aberto para todos, entre,’ você corre perigo” – Disse um ex-prefeito de Adelanto que agora trabalha como advogado representando alguns dos funcionários acusados.

Os funcionários públicos de Needles estão bem conscientes dos seus riscos. Eles estão proibidos de aceitarem uma xícara de café que seja das empresas locais, e passam por testes regulares anti-doping.

Os funcionários públicos sabem que a indústria é tão importante para o futuro da comunidade que simplesmente não podem se dar ao luxo de estragar tudo.

Em uma reunião da Câmara Municipal em novembro de 2018, três dos cinco itens da agenda estavam relacionados à cannabis. Ninguém se opôs.

A maioria dos que se manifestaram eram donos das lojas de maconha, que pediam à polícia que adotasse uma linha mais dura sobre as vendas ilegais de drogas e o único momento de hesitação sobre a cannabis veio quando um dos vereadores propôs que a cidade abrisse as inscrições para uma quinta loja.

Os donos das 4 lojas existentes e presentes à reunião simplesmente disseram… NÃO. A maioria os acompanhou.

Lyn Parker, ex-professora, e secretária da câmara de comércio da cidade, disse que: 

“A maconha não foi a escolha que a maioria de seus membros teriam aprovado primeiramente. Mesmo assim, eles acataram a saída encontrada. Nós gostaríamos de uma pequena indústria aqui em vez disso? Claro! Mas nós vamos nos agarrar a qualquer coisa para ajudar a nossa cidade”.

Mas a oposição ferrenha permanece. Thomas Lamb, o pastor da Assembleia de Deus de Needles, disse que viu a maconha se tornar um problema maior para as crianças na escola primária que ele supervisiona.

Para apimentar a ira do pastor uma empresa de cannabis fez uma oferta para compra da propriedade de sua igreja e de sua escola, a qual foi veementemente negada.

“As pessoas que entraram em Needles querem comprar todas as propriedades disponíveis, incluindo nossa igreja, para fabricar seu produto. Francamente, isso é um pouco assustador” – Disse ele

As lojas que vendem cigarros de maconha e vapes pens (cigarros eletrônicos) são apenas uma pequena parte do negócio que a cidade imagina. Espera-se que muito mais dinheiro dos impostos venha de empresas que estão crescendo e fabricando produtos de maconha para outras partes do estado, como Los Angeles, onde as permissões para cultivo são muito mais difíceis de conseguir.

A proximidade da cidade ao Rio Colorado fornece uma fonte constante da água que as operações de maconha precisam. E Needles possui sua própria concessionária de energia elétrica, o que permite oferecer eletricidade a cerca de 1/4 do custo das cidades que dependem de serviços públicos. Isso é importante para o cultivo de maconha em ambientes fechados sob luzes artificiais.

A Vertical Companies, uma grande produtora de cannabis com sede perto de Los Angeles, comprou cerca de 30 acres em Needles. Tem uma planta industrial na periferia da cidade, com 3 novos edifícios e planos para mais 3.

Dois dos prédios abrigam 2 andares para o cultivo das plantas. O outro edifício é dedicado a instalações de produção, onde o cannabidiol e outros produtos da cannabis são extraídos laboratorialmente.

A Vertical também está transformando um velho Kentucky Fried Chicken na Rota 66 em uma cozinha para doces e assados feitos com óleos de maconha.

A indústria de cannabis deverá se tornar a maior geradora de receita fiscal na cidade. Já criou 350 postos de trabalho e parece ter levado a uma revitalização dos preços dos imóveis, que subiram nos últimos 2 anos depois de uma queda constante durante 9 anos seguidos. A Starbucks recentemente concordou em abrir sua primeira filial em Needles.

O principal perigo é a rápida expansão da indústria de cannabis em todo o estado, o que tende a diminuir os preços da maconha e tornar as pequenas instalações de Needles não rentáveis.

Enquanto a legalização do uso medicinal e recreativo da cannabis revigora pequenas comunidades em alguns estados norte-americanos ela provoca um outro tipo de movimento muito mais poderoso.

Aqueles que se preocupavam com a saúde dos norte-americanos devem ter se regozijado em novembro agora de 2018, quando o Centro de Controle e Prevenção de Doenças deles lá anunciou que as taxas de fumantes haviam caído para o seu menor nível na história registrada.

Apenas 14% dos adultos norte-americanos fumaram cigarros em 2017, em comparação com cerca de 42% em 1965. A tendência é uma benção para a saúde pública, mas para as empresas de tabaco isso é um desastre.

Em 7 de dezembro, a Altria, uma gigante do tabaco que vende os cigarros Marlboro, Philips Morris e outros nos EUA, apontou para uma possível solução. Anunciou que estava gastando US$ 1,8 bilhão para comprar uma participação de 45% da Cronos Group, uma empresa de cannabis canadense, com a opção de comprar mais 10% no futuro. A notícia impulsionou os preços das ações da Cronos em 29% na hora; a Altria também subiu, mas só 2%.

Como a demanda por cigarros cai a cada dia, a Altria aumentou seus preços e cortou custos para tentar gerar lucros. Uma mudança para a cannabis, que foi recentemente legalizada no Canadá, não é uma solução rápida, mas as perspectivas de longo prazo para o mercado, se e quando a droga for mais amplamente legalizada na América, são tentadoras.

Atualmente, nas Américas a cannabis é legal apenas no Canadá, no Uruguai e em dez estados norte-americanos. Agora em dezembro, Utah, ultraconservador, tornou-se o mais recente dos estados a legalizar o uso de maconha para fins medicinais.

De acordo com a Arcview Market Research, uma empresa de investimentos focada em cannabis, espera-se que os consumidores gastem US$ 57 bilhões ao ano em todo o mundo com a maconha legal até 2027. E na América do Norte, esse gasto deve crescer de US$ 9,2 bilhões em 2017 para US$ 47 bilhões em 2027.

Alguns calculam que o mercado total pode chegar em algo entre 40 e US$ 70 bilhões anuais, o equivalente aos gastos dos Estados Unidos com vinhos e destilados atualmente. As receitas da Altria em 2017 foram um pouco acima de US$ 25 bilhões.

O sucesso do movimento da Altria dependerá em parte de como as pessoas decidam consumir cannabis no futuro. A maioria ainda a fuma de maneira convencional. Nos estados em que é legal, a participação de mercado da flor de cannabis, tipicamente enrolada em um baseado, é de 60 a 65%.

Os produtos comestíveis de cannabis e vapes pens (o cigarro eletrônico) representam atualmente cerca de 10 e 15% respectivamente, de acordo com a empresa de pesquisa Sanford C. Bernstein.

Vaporizadores também significariam oportunidades de branding, que no passado foram cruciais para o sucesso das empresas de tabaco, mas que é impossível quando se vende maconha ilegal e solta.

A tendência para o cigarro eletrônico explica porque a Altria também planeja adquirir a JUUL, empresa que possui cerca de 75% do crescente mercado de cigarros eletrônicos dos Estados Unidos. A Altria disse que vai parar de vender seus próprios cigarros eletrônicos MarkTen e Green Smoke, citando seu fraco desempenho financeiro e regulamentação cada vez mais onerosa.

Em 2018, a Food and Drug Administration (FDA) anunciou restrições aos vapes e discutiu a proibição dos cigarros mentolados (os cigarros mentolados da Altria estão um pouco abaixo de 30% do mercado). Os produtos de cannabis podem enfrentar regras semelhantes.

Enquanto isso, a indústria de bebidas também está de olho no potencial da cannabis. A Constellation Brands, cervejaria da Corona, investiu cerca de US$ 4 bilhões, em agosto de 2018, na Canopy Growth, outra empresa de maconha canadense elevando sua participação de 9,9% para 38%. Os produtores de bebidas alcoólicas são menos difamados que os vendedores de cigarros. Mas as guloseimas de cannabis são mais lentas para fazer efeito do que os vaporizadores.

Comprovando as expectativas do mercado norte-americano, acaba de ser divulgado que a cannabis sativa está sendo cultivada perto de Ruatoria, na Nova Zelândia. Uma lei aprovada este mês facilita as restrições à maconha medicinal no país.

A Nova Zelândia é conhecida por suas campanhas de turismo enfatizando o país limpo e verde, e em pouco tempo pode ser “ainda mais verde”.

O Ministro da Justiça Andrew Little anunciou que um referendo será realizado em 2020 (junto com a eleição nacional) para definir a legalidade do uso recreativo da cannabis.

Parece que a Nova Zelândia será o primeiro país a colocar a questão em votação nacional.

A política pública na Nova Zelândia tornou-se mais favorável ao uso recreativo da cannabis nos últimos anos; uma pesquisa de outubro de 2018 da OneNews descobriu que 46% dos entrevistados eram favoráveis ​​à legalização da droga, enquanto 41% eram contra. A pesquisa questionou 1.006 eleitores elegíveis e teve um erro de margem de amostragem de 3,1%.

Audrey Young, veterana comentadora política do New Zealand Herald, disse que 

“A opinião pública está se movendo em direção à liberalização, e isto se deve ao avanço do uso legal da cannabis medicinal e principalmente pelo sentimento coletivo de opinião global de que a guerra contra as drogas está perdida e que a abordagem como questão de saúde pública é a única saída”.

Números do Ministério da Saúde da Nova Zelândia disseram que, em 2015, cerca de 8% das pessoas reconheceram ter usado cannabis no ano anterior. O uso pessoal em pequena escala é amplamente ignorado pela polícia, embora, como nos Estados Unidos, os estudos tenham mostrado que as minorias são mais propensas a serem presas e processadas por isso.

A Nova Zelândia também é conhecida como sendo socialmente liberal, com governos anteriores tendo descriminalizado a prostituição e legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas nenhum dos dois maiores partidos, o Trabalhista de centro-esquerda – que lidera o atual governo – ou o Nacional de centro-direita, estiveram anteriormente dispostos a abordar a questão da maconha recreativa.

O Partido Trabalhista foi obrigado a negociar após as eleições de setembro de 2017, onde nenhum dos 2 principais partidos conseguiu assentos suficientes para governar de imediato.

Para ganhar o apoio do Partido Verde de esquerda – um dos dois partidos que deram à primeira-ministra Jacinda Ardern a maioria que ela precisava para governar – o Partido Trabalhista concordou em colocar a legalização da maconha em votação pública.

“Os políticos formam o grupo mais avesso ao risco que já conheci” – Disse Chlöe Swarbrick, uma parlamentar do Partido Verde que defendeu a legalização da cannabis. 

“Não havia anteriormente a vontade de investir em políticas baseadas em evidências principalmente sobre questões controversas como a maconha” – Disse ela.

Qualquer hesitação que as maiores corporações dos Estados Unidos ou políticos neozelandeses tiveram até agora sobre entrar no mercado de cannabis parece estar desaparecendo. 

Ou seja, quando uma justificativa financeira ou política mostra-se excelente o pragmatismo – seja ele econômico norte-americano ou político neozelandês –  sobrepuja qualquer ideologia por mais conservadora que seja.

O Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro – às vezes – sobre Comportamento Humano, acabou. 

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Saúde, paz, grato pela companhia e até a próxima

Ex-Libris, inteligência com propriedade.

Transcrição Ex Libris – S01e16

S01e16 Democracy

[Política] – Democracia em ruínas

Como finalmente o mundo está descobrindo as maravilhas do sistema latino-americano de governo pseudo-democrático

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 16º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. 

Seja bem vindo e espero que o Ex-Libris esteja atendendo suas expectativas. Diz aí.. eu estou acertando? Eu preciso saber o que você acha disso aqui. Vai lá no idigitais.com e deixe seu comentário, esculacho ou proposta indecente. Pode ser no post deste episódio, na sua transcrição no medium/@sergiovds ou ainda pelo email idigitais@gmail.com.

O Ex-Libris está disponível em diversos agregadores e serviços. O endereço rss e todos os links destes serviços e agregadores estão publicados na 1ª página do site idigitais.com.

Começa agora o Ex-Libris sobre Política de 04 de dez de 2018.

Em 2014 tivemos um estelionato eleitoral, o que confirmou meu artigo de 2010 e republicado em 2014 com um pequeno adendo. Esta reeleição da Dilma além de enrolar boa parte dos seus eleitores foi muito ruim, mas pareceu brincadeira de criança se comparada ao fato de, entre 2015 e 2017, o país ter sido governado por Eduardo Cunha e uma corja de larápios com mandatos legislativos.

Lembro do William Wack ficar possesso de indignação ao vivo com os 2 milhões de desempregados lá do governo Dilma e hoje com mais 13 milhões sem eira nem beira ele estar quietinho, se bem que o youtube não é uma Globo (ainda).

Lembro o mesmo Eduardo Cunha, em 2016, quebrando a democracia brasileira ao meio para entregar a Presidência a Michel Temer, que só não caiu porque entregou à cafetinagem o Tribunal Superior Eleitoral e o Congresso (em duas votações) em 2017.

Se você não entendeu esta minha última frase… leia, leia, leia! Sempre busque as entrelinhas, e de forma sublime, complemento: pombas, prestatenção!

Temer – o já definido vice-decorativo e alçado a presidente-decorativo, um marionete das confederações nacionais e das bancadas BBB – entregou às Forças Armadas (garantindo o foro privilegiado ao Moreira Franco) um enorme abacaxi “deem um jeito no Rio de Janeiro…”.

O risível desta palhaçada é que numa manobra para o acobertar, até a entrega do cargo, Temer esqueceu de combinar com a turma da Justiça, que desde que os militares assumiram o Rio só manda prender políticos.

O Moreira e Temer estão sem saída. De 2019 eles não passam. Com a prisão de todos os governadores do Rio desde 1998 (Anthony e Rosa Garotinho, Sérgio Cabral e Pezão) estão num pavor só. O Coiso não parece morrer de amores por Temer para garantir uma embaixada.

Os militares, na saia justa que o Temer os colocou, aproveitaram o “merdelê” geral do Congresso, do Executivo e do Judiciário e apoiaram – discretamente, dentro do jogo democrático – um movimento de generais de pijama e o “Fake News by WhatsApp” transformando um capitão medíocre em 2013 em um presidente em 2018.

Deu no que deu… ninguém sabe direito para onde o barco vai. Nem o próprio presidente eleito: boa parte de suas promessas de campanha já começam a ser esquecidas ou modificadas, mas no geral as ideias deste momento pré-posse passam por um processo de… retromicção.

Some-se à fragilidade do presidente eleito no que tange o conhecimento e as habilidades político-administrativas, os núcleos de poderes estabelecidos por sua estruturação de ministérios: temos o grupo do posto Ipiranga (ultraliberalistas), o grupo militar (radicais nacionalistas apoiados pelos “príncipes”), o grupo técnico (subdividido em “imexíveis” e “olavetes”) e com menor poder de fogo, o grupo político (extremamente fisiológico). Todos eles conflitantes e díspares nas expectativas e diretrizes.

É constrangedor o video do Onyx Lorenzoni negando participação do novo governo à desistência do Brasil em sediar a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, a COP 25, murmurando: “Nós não temos nada a ver com isso. Isso é uma decisão do Itamaraty”. E o presidente eleito o desdizendo no ato, afirmando:

“Houve participação minha nessa decisão. O (SIC) nosso futuro ministro… eu recomendei para que evitasse a realização desse evento aqui no Brasil. Até porque, e eu peço que vocês nos ajudem, está em jogo o triplo A nesse acordo [Acordo de Paris]. O que é triplo A? É uma grande faixa que pega dos Andes, à Amazônia e [o] Atlântico, de 136 milhões de hectares, ao longo das calhas do rio Solimões e Amazônia, que poderá fazer com que percamos a nossa soberania nessa área. Então eu quero deixar bem claro, como futuro presidente, que se isso for o contrapeso nós teremos uma posição que pode contrariar muita gente, mas que vai estar de acordo com o pensamento nacional. Então não quero anunciar uma possível ruptura dentro do Brasil [SIC]. Além dos custos, que seriam muito exagerados, tendo em vista o déficit que nós já temos no momento”.

Nessa declaração há um pequeno probleminha: pesquisando não encontrei nenhuma referência nem a Triplo A, Amazônia, Andes ou Atlântico, ou algo do tipo no Acordo de Paris (32 páginas em inglês ).

Após apresentar durante a COP-21, em Paris, seus próprios compromissos para enfrentar o aquecimento global, as chamadas Pretendidas Contribuições Nacionalmente Determinadas (INDC, na sigla em inglês), o Brasil aprovou no Congresso Nacional, em setembro de 2016, o processo de ratificação do Acordo de Paris. Desse modo, as metas brasileiras deixaram de ser “pretendidas” e se tornaram compromissos oficiais, agora como Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC).

A NDC do Brasil comprometeu-se a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 37% abaixo dos níveis de 2005, em 2025, com uma contribuição indicativa subsequente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 43% abaixo dos níveis de 2005, em 2030. Para isso, o país se comprometeu a aumentar a participação de bioenergia sustentável na sua matriz energética para aproximadamente 18% até 2030, restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, bem como alcançar uma participação estimada de 45% de energias renováveis na composição da matriz energética em 2030”, explica o Ministério do Meio Ambiente em seu site.

O texto diz ainda que a NDC assumida pelo país “corresponde a uma redução estimada em 66% em termos de emissões de gases efeito de estufa por unidade do PIB (intensidade de emissões) em 2025 e em 75% em termos de intensidade de emissões em 2030, ambas em relação a 2005. O Brasil, portanto, reduzirá emissões de gases de efeito estufa no contexto de um aumento contínuo da população e do PIB, bem como da renda per capita, o que confere ambição a essas metas”.

Em nenhum documento do Acordo de Paris ou da retificação do Acordo, aprovado pelo Congresso Brasileiro, há qualquer menção ao Triplo A, o corredor ecológico que, de acordo com Bolsonaro, põe em risco a soberania do país. Ou seja, não seria o pior dos exageros dizer que a democracia brasileira está em crise. Quando temos um fascista convicto com o poder executivo nas mãos cercado de “outsiders” e aproveitadores devemos avaliar bem porque 39% dos eleitores votaram nele.

Não há dúvida do que aconteceu no Brasil foi mesmo coisa nossa.

A ausência de um plano de País, a completa falta de algo conhecido como cidadania, o paternalismo que grassa em ambos os lados do poder, a imensa e “cartelizada” e cartorial máquina estatal, as castas legais e amorais que segregam cidadãos em pessoas comuns, políticos, militares, juizes, nossos arcaicos problemas econômicos, os erros de política econômica de Dilma e de outros governos, os defeitos do sistema político vigente, a fragilidade do pensamento econômico de esquerda e das estruturas básicas de nossos poderes democráticos, o pouco apreço dos conservadores brasileiros pela estratégia de “ganhar no voto”, tudo isso sempre foi bem conhecido, e também foi importante para ajudar a cavar nosso buraco atual.

E acredite em mim ainda há terra para cavar.

Mas devo lembrar que, na verdade, se a democracia não vai muito bem aqui, também não vai indo nada bem aí pelo mundo. O cientista político Larry Diamond criou um termo bem interessante: “recessão democrática” para descrever como, mais ou menos desde 2006, o número de democracias vem desmoronando e a qualidade das democracias restantes também. É um processo lento, com reviravoltas, mas a tendência é para lá de preocupante.

Afinal, a democracia vinha em uma ascendente desde os anos 1990: ao fim das ditaduras do sul da Europa seguiu-se a democratização da América Latina, o fim das ditaduras comunistas do Leste Europeu, e alguns processos de democratização na Ásia e na África. Essa onda democrática, entretanto, parece ter chegado ao fim e, ao que aparenta, começou a refluir.

Quem ficou de fora do poder encontrou um meio de retomá-lo apelando para elementos bem diversos e bem enraizados dentro uma população que se sente tanto afastada das benesses da economia globalizada como do senso de pertencimento local.

Desde “Ocuppy Street” o mundo anda tomando partido de um lado ou do outro. Na Europa, Hungria e Polônia são governadas pela extrema direita que vêm eliminando barreiras legais ao exercício de seu poder.

A Venezuela e a Turquia tornaram-se ditaduras. Dos países que participaram da Primavera Árabe (Tunísia, Egito, Líbia, Síria, Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Omã, Iêmen, Kuwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara), só a Tunísia tornou-se democrática.

Alguns países conseguiram algumas alterações, mas a maioria ficou como era. No caso da Líbia e da Síria a coisa piorou de vez. Nem a longevidade no poder do Congresso Nacional Africano, na África do Sul, nem as sucessivas reeleições de Evo Morales são sinais de vitalidade democrática. Durante a crise do euro, as reclamações sobre o “déficit democrático” da União Europeia foram recorrentes, e nos Estados Unidos o presidente é Donald Trump, o que nem precisa de maiores explicações.

Enquanto tudo isso acontecia, Dilma Rousseff foi eleita, reeleita e caiu, a classe política foi desmoralizada pela Lava Jato, e as instituições brasileiras perderam a reputação e robustez que haviam conquistado nos anos 90 e 2000.

O que uma coisa tem a ver com a outra? A crise brasileira é mais uma manifestação da recessão democrática? O exemplo brasileiro pode ajudar a entender o processo mais geral?

Boa parte do comentaristas e analistas políticos brasileiros têm ignorado o assunto como se o país não possuísse um protagonismo mundial. A velha síndrome do vira-lata, agora mais validada pelo presidente eleito em suas incontinências formais e no estilo “Orange One’s Copycat” (Sabe aquela ideia inicial de apenas 15 ministérios? Então, adivinha que país tem exatamente 15 “ministérios” ou melhor Departments: Agricultura, Comércio, Defesa, Educação, Energia, Saúde e Serviços Sociais, Segurança Nacional, Habitação e Desenvolvimento Urbano, Justiça, Trabalho, Estado, Interior, Tesouro, Transportes e Assuntos de Veteranos? Eu dou uma laranja para quem descobrir).

Sabemos que o que mais há são brechas para a manipulação das regras do jogo mesmo por dentro da legalidade (basta perguntar para o advogado mais próximo de você para ele explicar o que são as franjas da Lei).

Na condução política, que por lugar comum é “a arte do possível, da conciliação” se tais brechas fossem exploradas em todas as oportunidades, a história política teria sido muito mais turbulenta ou nem mesmo existiria.

A democracia de per si é – ou deveria ser – sustentada também por um conjunto de normas não escritas capazes de impedir que os possíveis pontos cegos da Constituição sejam explorados para desestabilizar o sistema. Ou seja, ética!

Mas voltando ao panorama geral das velhas democracias mundiais e às normas não-escritas, à ética: A principal é a que pode ser chamada de “autocontrole”, ou seja, a disposição de se abster de usar contra o adversário todos os recursos institucionais disponíveis, pelo bem do funcionamento do jogo político como um todo. Afinal os objetivos da Nação são maiores que os Planos de Governo, pelo menos no mundo desenvolvido.

Neste espectro democrático estável desde a 2a. Grande Guerra vários presidentes ou primeiros-ministros enfrentaram congressos ou parlamentos de maioria oposicionista, e sempre, nesses casos, a oposição conseguiu tornar a vida deles bem mais difícil.

Mas quase nunca a maioria optou pela “opção nuclear” do impeachment ou do voto de desconfiança, preferindo não correr o risco de instabilidade que impeachments ou trocas de gabinetes frequentes trariam para a democracia. Isto é, demonstraram autocontrole.

Bem… os italianos e as democracias sul-americanas são excelentes… ahh… exemplos de exceções históricas.

O problema desta década é que essas normas não-escritas têm perdido força. Algo como se a turma de comum acordo estivesse dando uma banana para a ética. Um exemplo recente e de dentro de um dos acórdãos democráticos mais estáveis do planeta:

Pouco antes da eleição de Trump os republicanos desrespeitaram, abertamente o imperativo de autocontrole: impediram que Obama nomeasse o substituto de um juiz conservador da Suprema Corte, que faleceu no último ano de mandato do presidente democrata. A maioria republicana preferiu esperar a posse de Trump para só então aprovar o substituto, um conservador nomeado pelo novo presidente. Essa atitude foi perfeita legal, mas… foi claramente uma violação das normas que orientavam as nomeações da Suprema Corte até então.

A democracia simplesmente não funciona se todas as possibilidades legais forem sempre utilizadas contra o adversário sem consideração pelas consequências, viu Magno Malta!

A segunda regra fundamental da ética na democracia é a tolerância mútua.

A propaganda contra o adversário pode ser agressiva (e sempre é), mas deve se abster de colocar em dúvida a legitimidade do oponente: você pode considerar seu adversário incompetente, burro, vagabundo, ladrão, mau-caráter, defensor de ideias que prejudicarão muito o país, mas não pode questionar seu direito de participar da disputa democrática como um postulante legítimo.

Em nosso presente caso é melhor eu deixar para lá qualquer análise de ética ou de racionalidade de nosso presidente eleito e parte de seu eleitorado.

As tentativas, ao longo dos governos petistas, de pintar o PT como uma conspiração antidemocrática a serviço do Foro de São Paulo foram violações da norma de tolerância.

O mesmo é verdade sobre a propaganda petista contra FHC nos anos 1990, até com pedidos de impeachment insustentáveis, e contra Marina Silva em 2014, retratando a proposta de autonomia do Banco Central como uma conspiração de banqueiros para roubar comida da mesa dos pobres.

A violação da norma de tolerância é recorrente no discurso populista. Populistas recortam o eleitorado entre “o povo de verdade”, “o povo que importa” e os outros, os estrangeiros ou “penetras” do jogo democrático.

Assim, a eleição do Coiso pode ser encarada como o coroamento de um processo de profunda deterioração das jovens e frágeis normas democráticas brasileiras. Nesta ótica, o Coiso, é um sintoma dessa crise, nunca seu criador.

Mas vamos lá para o primeiro mundo…

Desde o fim da segregação racial a política norte-americana se tornou cada vez mais polarizada. O Partido Republicano passou a ser visto e a atuar como o partido da maioria branca. A desigualdade econômica aumentou, e amplos setores da sociedade americana se sentem “deixados para trás” pela globalização.

A política americana tornou-se menos tolerante; os conflitos, crescentemente acirrados; e a disposição para jogar pesado contra o adversário é cada vez maior.

A democracia apesar de bagunçada pelo Trump ainda não foi desmontada. Orange One manifestou durante toda a sua campanha todos os sinais de um líder autoritário bem no padrão… ah, latino-americano. Mas as instituições lá, até agora, foram capazes de controlar o ímpeto meio bufão meio descontrolado do Donald.

Os seus apoiadores usando a mesma tática da campanha disseminam agora teorias da conspiração sobre um “Estado Profundo”, uma conspiração de “insiders” que estariam propositalmente impedindo-o de cumprir suas promessas anteriores.

Na verdade, quem está contendo o Trump são as instituições tradicionais criadas para prevenir a Nação contra presidentes como ele… ok, com uma ajudinha dos grupos altGOV.

Mas seria um equívoco assumir uma atitude complacente de que “as instituições estão funcionando”. Afinal, uma crise nacional grave – uma guerra, um grande atentado terrorista – pode alavancar Trump e permitir a consolidação de sua agenda autoritária (espero que o Coiso não esteja ouvindo isto aqui).

Se este último cenário (não o Coiso ouvir, o Orange One implementar sua agenda autoritária) os EUA perderá seu protagonismo atual de império democrático e de polícia do mundo.

Hum… pensando bem… não! As opções atuais não são muito melhores que o status quo.

Prosseguindo: A democracia pode, em algum momento, acabar? Lembra-se de Churchill? Para ele:

“Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.

Ela é um fenômeno histórico relativamente recente. Nada pode garantir que a democracia vá durar mais ou menos do que a outras formas de governo.

Talvez haja paralelos entre a atual crise democrática e a última década do século XIX, esta marcada por movimentos populistas, teorias da conspiração, mudanças tecnológicas, desigualdade crescente, e a falta de uma guerra (que ofereceria um trauma coletivo semelhante àquele que o populismo sempre encena).

A crise política da democracia nos 1890 deu origem a uma fantástica era de reformas, em que se consolidaram as 2 bases de sustentação da democracia moderna, garantidas ainda no século 20:

  • A garantia de prosperidade futura (conseguida por meio da combinação entre capitalismo e estado de bem-estar social), e
  • O reconhecimento da dignidade individual (pelo respeito aos direitos individuais e o direito ao voto).

A crise de hoje, lamento, dificilmente será resolvida como a do século XIX.

Não há como expandir o estado de bem-estar social assim, de uma hora para outra, quando já enfrentamos certas limitações de alimentos, água em ambiente propício à existência de cerca de 7,5 bilhões de pessoas (e para piorar em rumo firme aos 10 bilhões). Nos países desenvolvidos, o direito ao voto já é universal.

Se esses limites já não fossem suficientes, há uma outra característica, bem particular, específica dos dias atuais, os problemas presentes e de futuro imediato da sociedade moderna talvez estejam se tornando ou grandes demais ou pequenos demais para serem resolvidos por uma governança democrática representativa e de abrangência geográfica desconectada das realidades locais.

Por um lado há uma série de ameaças existenciais pairando sobre a espécie: o risco de guerras generalizadas com uso de poderio nuclear ou biológico, violência urbana descontrolada, o risco de catástrofe ambiental, escassez de água e alimentação básica, e, talvez, em um futuro não tão distante, o risco de subjugação total pela tecnologia.

O homem comum sente-se pequeno e impotente frente aos limites do seu horizonte existencial e de sobrevivência. O político medíocre sente-se capaz de suprir todos as soluções para a sobrevivência das demais pessoas (e de seu poder, claro) por meio de recursos básicos ou de efeito. Ambos não conseguem perceber a enorme distância entre o tudo e a alma.

Estamos, nós brasileirinhos, quase na terceira década do século 21 e nosso ensino ainda patina nas carteiras quebradas e quadros de giz de aulinhas de alfabetização precária equivalentes àquelas dos anos 1950.

O humano perde a sensação de pertencimento social e econômico frente a um mundo que exige o uso de aplicativo no smartphone de quem não consegue interpretar um texto primário.

Na França atual – que, todos sabemos, é uma República parida e mantida por uma inata violência popular – a política vai para as ruas de uma maneira muito mais rápida que aqui ou em qualquer outra democracia ocidental.

Nas últimas 2 décadas há houve “quebra-quebra”, ou como eles chamam, protestos de jovens dos subúrbios multirraciais, fazendeiros (quase todo ano) operários, professores, advogados e até policiais. Agora explodiu com os protestos pela taxa ambiental que aumentava os combustíveis… mesmo com Macron voltando atrás com a não cobrança da taxa e outros agrados a zona continua, pois muitas outras demandas foram adicionadas.

O governo demorou pra responder e o movimento expandiu. O nível de destruição que tomou as ruas de Paris é assustador até para quem já conhece essa mania francesa de incendiar carros. Desta vez foi uma violência aleatória, de pura raiva, dirigida não só contra a polícia mas também contra qualquer símbolo da República, como o Arco do Triunfo.

E sabe por que o movimento pacifico do início de novembro se voltou contra todo o sistema político francês com tal nível de ódio? Simples!

Mesmo sendo principalmente franceses natos, brancos – que em momento algum demonstraram sinais de racismo ou nacionalismo – os radicais dos “gilets jaunes” se voltaram de forma niilista contra as instituições democráticas e símbolos da riqueza, devido principalmente a uma angústia econômica e social que há anos vem tomando conta da França.

Até agora não está clara uma metodologia ou uma estrutura de contenção democrática que possa lidar adequadamente com esses problemas de grande escala.

Os governos democráticos deixaram o problema do aquecimento global chegar a um ponto em que talvez não seja mais possível evitar a catástrofe. Poderíamos ter assumido uma forma de vida mais sustentável, ter buscado representantes e ter votado por limites de consumo e alterações no modo de produção, mas… até agora não fizemos muito esforço para isso.

Da mesma forma, devemos mesmo dar a Donald Trump ou algum outro governante qualquer o poder de destruir o mundo apertando um botão? Ou sufocar o nosso ambiente lentamente com resíduos altamente tóxicos à nossa vida? Mas, se não o fizermos, quem deve ter esse poder? Os generais provavelmente são mais confiáveis do que governantes, mas o quão confiáveis eles são?

Ainda há um risco real e imediato de que a tecnologia comprometa cada vez mais a democracia. O caso mais evidente é a possibilidade de aprimoramento genético, e claro, quem parte primeiro nesta escalada são os que podem pagar.

Se os filhos dos ricos forem modificados para serem imunes, atléticos, superinteligentes ou supertalentosos, será que a igualdade jurídica propugnada nas leis ainda vai significar a mesma coisa?

Já é difícil haver igualdade mesmo com leis vigentes… Imagine em um mundo com superinteligentes e supertalentosos a simplicidade de exigir que candidatos ao governo possuam três pós-doutorados.

A tecnologia é fascinante e possibilita milhões de opções: desde uma onde a automação total permita que vivamos tal qual a animação Wall-E, nos divertindo e… engordando. Até a opção onde tenhamos – sob uma ditadura de pessoas 2.0 geneticamente aprimoradas – uma vida social virtualizada e destruída pela fragmentação da identidade pessoal e de grupo que ela traz.

Não temos embasamento nem instrumentos analíticos para prever sequer que problemas teremos. Essas ameaças grandes demais para nosso modelo democrático atual transferem poder aos tecnocratas e outros tipos de especialistas, que, cada vez mais, também controlaram áreas importantes da vida social, como a gestão macroeconômica.

Isto é, a participação na gestão dos benefícios de longo prazo do desenvolvimento é cada vez menos decidida pela participação da cidadão, ou seja, democraticamente.

É um pensamento simplista supor que basta apenas modelar democraticamente uma gestão tecnocrática: esta metodologia pode até obter bons resultados quando o problema trata-se apenas de insensibilidade social ou inércia dos especialistas, mas fica a dúvida: e se a gestão do problema exige o mínimo de turbulência possível?

Por outro lado, o fator “dignidade pessoal” da democracia — ou seja, o respeito aos direitos individuais e à livre expressão — é cada vez mais privatizado, e cada vez mais deriva para o anarquismo das redes sociais. Não devemos esquecer que se esse espírito ultrademocrático das redes sociais tem um lado evidentemente bom, mas também traz uns riscos danados.

Alexis de Tocqueville via nos linchamentos que os americanos praticavam na primeira metade do século 19 uma deformação do espírito democrático: a maioria se sente autorizada a descontar suas frustrações nas minorias vulneráveis.

Qualquer semelhança com declarações de um capitão da reserva não é mera coincidência.

Na atual democracia esses impulsos são mais ou menos, ou deveriam ser domesticados pelas instituições, pela presunção da inocência, pelos direitos das minorias. Mas ainda não há nada disso na democracia das redes sociais. Nós não agredimos e participamos de linchamentos mais; a não ser no Ttwitter, no WhatsApp e no Facebook, né?!

Essa individualidade mascarada pela falsa sensação de poder que o distanciamento social e o anarquismo das redes permitem também desfavorece qualquer ação política dentro dos ditames democráticos.

No Facebook, no WhatsApp ou no Twitter, as pessoas se acostumaram a ter gratificações imediatas, na forma de likes, compartilhamentos, retuítes, coraçõezinhos, comentários. A democracia representativa funciona de outra forma: não gratifica imediatamente, e, não foi desenvolvida para isso.

O ritmo comparativamente bem mais lento dos compromissos político-partidários, dos procedimentos parlamentares, das negociações e acordos, serve de catalizador à esse viés de gratificação imediata que nos tornam tão míopes.

Os partidos políticos, em especial, deveriam administrar com muito mais cuidado o compromisso temporal desse processo de avanços e tréguas. Mais aí já é pedir demais, né?!

Ao contrário, é tendência recente a substituição do partido – incapaz de gerar gratificações imediatas – pelo chamado “movimento”.

O Podemos da Espanha começou como movimento, o En Marche! de Emmanuel Macron foi criado em torno de seu líder, e o trabalhismo de Jeremy Corbyn representou a tomada do Partido Trabalhista por um movimento.

Aqui como exemplo e na versão pt.br temos o PSL nestas eleições presidenciais – que do nada virou um partidão – e o MBL, que já está se estruturando legalmente para atuar como um partido.

Esses movimentos são estruturalmente iguais ao Facebook: combinam máxima horizontalidade – as redes, a espontaneidade, etc – com lideranças fortemente verticais.

O Facebook é uma rede horizontal, sem dúvida, mas é também, no fim das contas, o brinquedinho do Mark Zuckerberg. É ele quem decide as regras do jogo e as modifica como e quando quer. O mesmo vale para Macron no En Marche! ou o Bolsonaro no PSL.

Será que a política pode resgatar a democracia?

Creio que para isto se realizar é preciso que qualquer tentativa de manipulação tecnológica das ferramentas democráticas e o poder do mercado sejam enfrentadas por políticos com coragem de desafiar fortíssimos interesses econômicos.

Ou como dizia minha avó: Du-vi-de-o-dó.

Os políticos na atualidade e em sua imensa maioria são fantoches do mercado e usam e abusam da malversação tecnológica, e mais! O próprio mercado global é uma máquina que saiu do controle.

O que sabemos por experiências anteriores é que só o exercício do poder político pode limitar o poder do mercado ou da técnica. Mas a que custo da democracia tradicional?

O ser humano é criativo, e diante deste gigantesco desafio é possível que a humanidade supere este hiato sócio-político que o viés tecnológico nos impõe. Caso contrário é bom a gente usufruir a vida… enquanto houver diversão e arte.

O Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro – às vezes – sobre Política, acabou. Se você gostou desse projeto faça como a AMB3 Gestão Ambiental, ajude esse podcaster. Ainda estou tentando descobrir qual a maneira de você me ajudar – aceito sugestões. 

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Ex-Libris, inteligência com propriedade.

Transcrição Ex Libris – S01e15

S01e15 Ecstasy

[Cultura] – Do êxtase ao estrelato e deste ao wi-fi.

Como a beleza ofuscou a percepção de uma mente inventiva brilhante e como ela foi desdenhada pelos militares em meio a uma guerra.

Olá, eu sou Sérgio Vieira e este é o 15º episódio da primeira temporada do Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro sobre Política, Comportamento Humano, Ciência, Tecnologia e Cultura. A cada episódio um tema. Seja bem vindo e espero que o Ex-Libris esteja atendendo suas expectativas. Espero também, mais do que ansioso, a sua opinião para saber se estou no caminho certo ou se estou errando muito. Assim, dê um pulo lá no idigitais.com e deixe seu comentário tanto no post deste episódio, como também na sua transcrição ou ainda envie um email para o idigitais@gmail.com.

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Começa a partir de agora o Ex-Libris sobre Cultura de 27 de nov de 2018… Falhei, estou tentando consertar e recuperar o tempo perdido.

No episódio de hoje eu falo sobre uma estória que vai Do êxtase ao estrelato e deste ao wi-fi, ou como a beleza ofuscou a percepção de uma mente inventiva brilhante e como ela foi desdenhada pelos militares em meio a uma guerra.

Uma das lendas de Hollywood dos anos 40 foi Hedy Lamarr, nome artístico da austríaca Hedwig Eva Maria Kiesler, filha única de pais judeus ricos e estabelecidos em Viena, onde nasceu em 9 de novembro de 1914 e cresceu absorvendo a vida cultural e a sofisticação decadente da cidade que vivia o fim do Império Austro-Húngaro.

Seu pai, banqueiro, e de mente inventiva, e curioso,  influenciou o gosto pela tecnologia na pequena “Hedy”. O seu interesse pelas máquinas e sistemas corria em contraste com outra de suas aspirações, provavelmente pela influência de sua mãe, uma pia­nis­ta, razo­a­vel­men­te libe­ral para os padrões da épo­ca e cul­tu­ral­men­te evo­luí­da. Desde pequena, Hedy adorava fingir que estava nos palcos. As pessoas se encantavam com sua beleza, mas geralmente ignoravam seu cérebro científico “não feminino”. 

Para a maior parte do mundo no século XX, a sensualidade e a inteligência pareciam mutuamente contraditórias, se não excludentes. Creio que isso ainda permeia algumas sociedades atuais.

Quando criança Hedy tinha verdadeiro fascínio pelas aulas de química. Depois de uma pas­sa­gem por uma esco­la de tea­tro em Viena, a ambi­ci­o­sa Hedwig com 16 anos fez – sem seus pais saberem – uma série de fotos vestida e nua, e decide então fre­quen­tar em Berlim as aulas do rea­li­za­dor e diretor de cinema Max Reinhardt, com quem tra­ba­lhou como assis­ten­te de dire­ção e atriz secun­dá­ria em dois dos seus fil­mes. Ela mesmo se definiu, anos mais tarde, que à época ela era uma “enfant terrible”, selvagem.

Hedy era extremamente sensual, mesmo na adolescência. Aos 17 anos, em meados de 1932, usando o nome artístico Hedy Kiesler, filmou a produção tcheca “Ecstasy”, lançada comercialmente em janeiro de 1933. Sua estreia no cinema a tornou notória pelas cenas em que aparece completamente nua, e pela primeira vez na tela simular uma relação sexual e um orgasmo! Hedy interpreta uma jovem mulher insa­tis­fei­ta com o mari­do, um sujei­to mais velho e sem gran­de fervor para os assun­tos de alcova. Ela aca­ba por conhe­cer um homem mais novo e des­co­brir o sexo. É uma his­tó­ria típi­ca sobre a per­da da ino­cên­cia, mas a ausên­cia de jul­ga­men­tos mora­lis­tas sobre a liber­da­de sexu­al femi­ni­na e a inde­pen­dên­cia con­quis­ta­da pela mulher o torna um fil­me úni­co.

“Ecstasy” pro­vo­cou um escân­da­lo danado e foi cen­su­ra­do em mui­tos paí­ses, incluin­do os Estados Unidos.  Mesmo usando gran­des pla­nos dos ros­tos, mos­tra expres­sões sufi­ci­en­te­men­te explí­ci­tas para ser condenado pelo papa e banido por Hitler (embora por razões diferentes). Lembre-se, era 1933. Ano da ascen­são dos nacionais-socialistas ao poder na Alemanha. Hitler pres­tava jura­men­to como chan­ce­ler e des­fi­lava pelas ruas de uma Alemanha fali­da e depri­mi­da em grandes para­das e chei­as de orgu­lho naci­o­na­lis­ta.

Os seus pais ficaram chocados. “Na estreia” – diz a biografia Ecstasy and Me, publi­ca­da em 1967 – “olhei para os meus pais na pla­teia e os vi emba­ra­ça­dos, escon­den­do o ros­to atrás das mãos”.

Nota: Hedy sustenta que essa biografia é extremamente imprecisa. Ela contratou escritores para a partir de seus depoimentos escreverem a biografia, com a qual ela não concordou.

Mas muitos outros espectadores vendo o filme entraram em transe, em especial o negociante de armas austríaco Friedrich Mandl, que a perseguiu insistentemente por vários meses até ela aceitar sua proposta de casamento no fim de 1933. Quando eles se casaram, Mandl gastou mais de US$ 300.000 tentando comprar todas as cópias existentes de Ecstasy para que ninguém mais visse sua esposa no filme.

Ninguém sabe direito – além da óbvia sen­sa­ção de segu­ran­ça que o dinhei­ro repre­sen­ta para uma jovem num mun­do à bei­ra do caos – por que razão Hedy deci­diu casar com um homem onze anos mais velho, sem gran­des qua­li­da­des liber­tá­ri­as ou gos­to pelo cine­ma.  Com certeza não foi a insistência de Mandl, que também era um pro­e­mi­nen­te fas­cis­ta de Viena. Ele não tinha qual­quer liga­ção com o Nazismo, mas o espí­ri­to béli­co de Hitler era muito atraente para o seu ramo de negó­cios. Ele nunca usu­fruiu mui­to des­te “casa­men­to” de inte­res­ses: em 1940, fugiu da Alemanha e do Nazismo, e refez a sua vida na Argentina.

Mandl, con­tro­la­dor, manteve a jovem e linda mulher na sua mansão de campo com 25 quartos, por anos e fez dela uma pri­si­o­nei­ra cober­ta de joi­as. Por ele e sobre­tu­do pelo luxo, ela renun­ciou à car­rei­ra de atriz. Tão con­tro­la­dor e des­con­fi­a­do era em rela­ção à mulher que sempre a levava em suas via­gens de negó­ci­os. São estes os pri­mei­ros con­tac­tos de Hedy com a indús­tria do arma­men­to e as suas tec­no­lo­gi­as. Este conhe­ci­men­to seria impor­tan­te, anos mais tar­de. Hedy conhece assim altos ofi­ci­ais nazistas, e tam­bém o fas­cis­ta Mussolini, quan­do o mari­do o rece­be na sua fábrica e em sua sun­tu­o­sa mansão. Todo o tempo Hedy manteve seu conhecimento de tecnologia e química e sua identidade judaica em segredo.

Ninguém pres­tava mui­ta aten­ção à jovem espo­sa do indus­tri­al, exce­to para lhe admi­rar a bele­za; na mai­or par­te das vezes era igno­ra­da. A julgavam estú­pi­da e inó­cua, como pro­va­vel­men­te jul­ga­vam todas as demais  mulhe­res. Falavam dian­te dela sem gran­des cons­tran­gi­men­tos, con­ven­ci­dos de que as con­ver­sas sobre os pla­nos estra­té­gi­cos para o rear­ma­men­to do exér­ci­to ale­mão não eram do seu inte­res­se nem estavam ao alcan­ce da sua com­pre­en­são.

Talvez estes tem­pos tam­bém tenham con­tri­buí­do para a visão sóbria e desen­can­ta­da do papel que Hollywood reser­vava às mulhe­res, quan­do, mui­tos anos depois, Hedy Lamarr afir­mava: 

“Qualquer garota pode ser fascinante. Tudo que ela pre­ci­sa fazer é ficar parada e pare­cer estú­pi­da.”

Hedy não foi estú­pi­da e nem ficou parada. Preparou-se para dar um gol­pe no mari­do e recon­quis­tar sua inde­pen­dên­cia longe do nazismo.

As con­ver­sas no cas­te­lo com os nazistas indicavam que a Alemanha se enca­mi­nhava para a guer­ra destruindo o máximo de judeus, se possível. Para fugir da catás­tro­fe e de um mari­do pos­ses­si­vo e con­tro­la­dor, disfarçou-se de cri­a­da, pegou todas as joi­as da casa e fugiu para Paris. Onde con­se­guiu o seu divór­cio.

De Paris Hedy foi para Londres, lá, um agente de cinema a levou a um hotel para encontrar “um homem pequeno”, como ela mais tarde se lembraria dele – Louis B. Mayer, o chefe da Metro-Goldwyn-Mayer que estava comprando atores e atrizes europeus que fugiam da esfera de ação nazi-fascista. Mayer fez for­tu­nas com o negó­cio do cine­ma não por aca­so. Sabia mui­to bem como vender suas atri­zes: sexo, como é óbvio, mas bem embru­lha­do em papel puri­ta­no.

Hedy não falava inglês, apenas algumas frases, e diante da sua beleza e já sabendo de sua aparição em Ecstasy ofereceu um contrato de US$ 125 / semana, o qual Hedy rejeitou de imediato, levantando-se e saindo da sala.

Sabendo que Mayer voltaria para Nova Iorque no transatlântico Normandie ela não teve dúvida e comprou uma passagem no mesmo navio. Durante a viagem, produziu-se e foi ao salão de jantar de modo que Mayer e sua entourage, a vissem… Não deu outra, Hedy foi convidada a sentar-se à mesa do chefão do estúdio.

Durante a viagem as bases contratuais foram renegociadas, afinal Mayer não podia perdê-la para a concorrência, e assim Hedy já Lamarr – por sugestão da própria esposa de Mayer, pois este não conseguia pronunciar o sobrenome Kiesler, Kaisler, Kesler… – desceu do Normandie em Nova York para o flash das lâmpadas dos fotógrafos, com um novo nome e um contrato com MGM de quinhentos dólares por semana.

Hedy Lamarr é lan­ça­da por Mayer, por insistência de mais um arrebatado pela beleza de Lamarr, Charles Boyer – para fazer o papel de ‘bele­za exó­ti­ca’ em “Algiers” (lançado em 1938), um fil­me que já estava em produção ape­sar de ain­da não haver uma atriz prin­ci­pal. 

Mayer aproveitando a frase do diretor alemão Max Reinhardt que a considerava “a mulher mais bonita da Europa”, a vendia como “a mulher mais bela do mun­do“. Nos dez anos seguin­tes, ela rei­nou na meca do cine­ma como “uma diva de már­mo­re frio”, segun­do ela pró­pria. 

Na sequên­cia do suces­so do seu primeiro fil­me em Hollywood e com os jor­na­lis­tas a questionando sobre o fil­me pro­fa­no – Ecstasy – Lamarr, em nome da moral e dos bons cos­tu­mes, fez o que mui­tos antes dela fize­ram: men­tiu, evitando o escân­da­lo. Ela jurou aos repór­te­res ter sido enga­na­da, sofri­do ame­a­ças, chan­ta­gens, que qui­se­ram responsabilizá-la cri­mi­nal­men­te pelos pre­juí­zos nos cus­tos de pro­du­ção, caso não tives­se con­cor­da­do em tirar a rou­pa.

Anos mais tarde, o ope­ra­dor de câma­ra de “Ecstasy”, Jan Stallich, a desmentiu: “Quanto à estre­la do fil­me, ela sabia que teria de apa­re­cer nua em algu­mas cenas. Isso nun­ca a inco­mo­dou duran­te a pro­du­ção”.

A mag­ni­tu­de do bri­lho de Hedy Lammar em Hollywood ilu­mi­nou uma América em guer­ra, neces­si­ta­da de mulhe­res for­tes e inde­pen­den­tes: de «Algiers», de 1938, ao últi­mo suces­so da sua car­rei­ra em Hollywood  – “Sansão e Dalila”, de 1949 – suas atuações típi­cas são sem­pre de mulhe­res sexu­al­men­te agres­si­vas e inde­pen­den­tes, embo­ra inva­ri­a­vel­men­te “sal­vas” da mora­li­da­de dúbia pelo amor.

Quando a guer­ra aca­bou e os homens regres­saram para casa, as mulhe­res foram pro­gres­si­va­men­te con­vi­da­das a dei­xar os pos­tos de tra­ba­lho que havi­am pre­en­chi­do e a vol­tar para as suas cozi­nhas. O tipo femi­ni­no que Lamarr repre­sen­tava já não era tão dese­ja­do. A estre­la defi­nhou e outras, como Marilyn Monroe, estavam  a passos de ocu­par o seu lugar no pan­teão. Che­garam a dizer que ela tinha seios dema­si­a­da­men­te peque­nos. Em 1958, Lamarr retira-se do cine­ma para não nunca mais vol­tar.

A vida glamurosa e selvagem de Holywood, e os romances da belíssima atriz obliterou a faceta técnica de Lamarr, que tinha como hobby favorito desmontar e consertar equipamentos, pesquisar novos produtos químicos.

Assim que a Segunda Guerra Mundial começou ela passou a imaginar formas para ajudar a causa dos Aliados. Trabalhando em seu laboratório caseiro ou em seu trailer no set, ela chegou a criar novos designs para os aviões de um de seus inúmeros namorados: Howard Hughes.

Seu pai já havia falecido na Austria e sua mãe havia conseguido chegar a Londres. As notícias dos estragos feitos pelos U-boats alemães afundando indiscriminadamente qualquer navio no Atlântico a deixava horrorizada. Os submarinos alemães pareciam inalcançáveis, os torpedos lançados contra eles eram desviados por interferência nos sinais de comando dos navios aliados. 

Assim aos 26 anos, no auge da sua fama, em cola­bo­ra­ção com o pia­nis­ta vanguardista George Antheil, Lamarr pro­põe uma for­ma de aju­dar a deter Hitler: um sis­te­ma secre­to de comu­ni­ca­ções de lon­ga dis­tân­cia que per­mi­te a um tor­pe­do não sofrer interferência em seus comandos por ondas de rádio, impe­din­do a sua inter­cepta­ção. 

Essa foi a sua invenção mais significativa.

Lamarr e George conheceram-se numa fes­ta em Hollywood. Os dois brincavam, ele ao pia­no e ela repe­tin­do as mes­mas esca­las. A mente inquieta e perspicaz de Lamarr percebe que, tan­to na inte­ra­ção entre os dois atra­vés do pia­no como na pró­pria fala, estamos sem­pre a tro­car frequên­ci­as. Conversando com o compositor George, constataram que era possível alterar a frequência da mesma forma como se mudam as notas em um piano. 

Um controle sem fio para rádio deu o impulso final para Hedy. O trambolho fabricado pela Philco era uma caixa grande com um disco de telefone na face superior, você discava um número e um sinal sintonizava o rádio na estação previamente codificada para o número. 

E assim ela definiu o con­cei­to de frequence-hooping, ou alternância de frequência, em 1941. Ambos passam a trabalhar no desenvolvimento do que chamaram de Sistema Secreto de Comunicações, base­a­do em 88 frequên­ci­as – não por acaso o mes­mo núme­ro de teclas do pia­no – e em rolos de papel per­fu­ra­do, coor­de­na­dos de manei­ra seme­lhan­te ao méto­do que George usa­ra na década de 1920 para operar 16 pia­nolas na peça Ballett Mécanique. 

O sis­te­ma foi apresentado como uma forma codificada de radiocomunicação capaz de orientar com segurança os torpedos aliados para seus alvos. Para os militares Lamarr era ape­nas uma carinha boni­ta de Hollywood e George come­teu o erro de expli­car a ideia fazen­do uma ana­lo­gia entre as frequên­ci­as do tor­pe­do e as teclas do pia­no (de onde eles tiraram a ideia do sistema) o que não ajudou muito a compreensão dos militares que não conhecem música muito bem, como notamos quando ouvimos as marchas militares. Brincaram com eles até, dizendo: “vocês querem colocar pianolas nos torpedos?” 

Se a Marinha norte-americana tivesse pres­ta­do aten­ção às idei­as de Lamarr tal­vez a sua con­tri­bui­ção teria sido mais subs­tan­ci­al do que o pro­du­to de uma ven­da de bei­jos a peso de ouro. Os militares ignoraram completamente a invenção de George e Lamarr e disseram à estrela, que ainda não era cidadã americana – o que ocorreria somente em 1955 -, que seria melhor vender títulos de guerra, o que ela acabou fazendo.

Auge da guer­ra, auge da fama e da frustração com os militares: mesmo assim Lamarr deci­de aju­dar o esfor­ço de guer­ra ame­ri­ca­no ven­den­do um bei­jo por 50 mil dóla­res. Ela consegue 7 milhões de dóla­res numa úni­ca noi­te. Deve ter sido o recorde de beijos em uma noite: 140.

A paten­te de sua invenção foi acei­ta em meados 1942, com os direi­tos gra­tui­ta­men­te cedi­dos ao exér­ci­to por um perío­do de cin­co anos, mas nin­guém pare­ceu ficar impres­si­o­na­do com a tecnologia. 

Ainda durante a guerra o governo dos EUA apreendeu sua patente como propriedade “estrangeira inimiga”, porque o engenheiro Robert Price, especialista em comunicação a entrevistou no processo de apresentação do sistema, declarou que ela deveria ter roubado os planos da fábrica do seu 1º marido. Onde já se viu uma starletzinha de Hollywood saber mais engenharia que ele?!

Sobre apreensão da tecnologia pelo governo ela disse: 

“Eu era americana o suficiente para vender títulos de guerra, mas sou uma estrangeira quando se trata da minha invenção!”

A invenção de George e Lamarr não che­gou a ser uti­li­za­do na Segunda Guerra Mundial e nem nos anos seguintes. George mor­reu em 1959, no ano em que a patente do sistema expirou, e ele nun­ca ficou sabendo disso nem que a sua des­co­ber­ta e de Lamarr serviu para apli­ca­ções no cam­po mili­tar, e tam­bém nas comu­ni­ca­ções civis.

Hedy nos meados dos anos 1960 descobriu que os militares haviam utilizado sua invenção quando se deu a crise dos mísseis cubanos, em 1962. A tec­no­lo­gia do Sistema Secreto de Comunicações foi usada na trans­mis­são de men­sa­gens secre­tas. Os enge­nhei­ros res­pon­sá­veis por ‘’res­sus­ci­tar” o pro­je­to usaram cir­cui­tos ele­trô­ni­cos, para subs­ti­tuir os papéis per­fu­ra­dos de George Antheil.

Hedy ainda tentou, já sem dinheiro, sem trabalho, custeada por fundos de pensão, exigir algum pagamento pelo uso militar de sua invenção em 1969. Foi informada que legalmente como os militares não utilizaram a sua patente até ela expirar em 1959, ela não teria direito a nada. Pois, de acordo com a legislação norte-americana o inventor tem até 6 anos após a patente expirar para reivindicar o pagamento pelo uso de sua invenção. 

O que ficou bem complicado foi uma descoberta “a posteriori” de que, sim, os militares norte-americanos haviam utilizado sua tecnologia em boias sonares antes de 1959. E pior, o inventor das boias sonares que utilizou esta tecnologia (fornecida pelos militares em 1955) e a reaplicou nos drones utilizados no Vietnam nos anos 60/70 (ahá! Isso você não sabia né?). Então, esse inventor agradece a Hedy o desenvolvimento da frequency hooping em vários artigos publicados num blog que ele mantinha. Não existe mais o blog, mas existem cópias desses artigos. 

Hedy Lamarr se isolou do mun­do e o mun­do foi se esque­cen­do dela. A impren­sa só se deu con­ta da sua exis­tên­cia para noti­ci­ar mais uma plástica ou quan­do a atriz pro­ces­sou a Corel por uso não-autorizado da sua ima­gem no soft­ware CorelDraw 9. A dis­pu­ta aca­bou por ser resol­vi­da por um acor­do extra-judicial sigiloso.

Atualmente os princípios da tecnologia de Lamarr estão incorporados à tecnologia Bluetooth e são semelhantes aos métodos usados ​​em versões legadas de CDMA e Wi-Fi, e em todos os sistemas de comunicação encriptados do setor militar norte-americano. 

Lamarr não ganhou um único centavo com esta inven­ção que hoje rende centenas de US$ bilhões.

O papel cru­ci­al da atriz no desen­vol­vi­men­to das comu­ni­ca­ções de rede sem fios só foi reco­nhe­ci­do publicamente anos mais tar­de. Em 1990 Fleming Meeks, jornalista da Revista Forbes – após entrevistar Hedy – fez um artigo para a seção Science & Technology onde conta a sua estória como inventora da frequency hooping.

Foi a partir da atri­bui­ção da premiação Pioneer Award pela Electronic Frontier Foundation, em 1997, que boa parte do mundo ficou sabendo de sua inventividade. Ela já reclusa se negou a comparecer e pediu a seu filho que a representasse. Ela tam­bém é a pri­mei­ra mulher a rece­ber o Gnass Spirit of Achievement Bronze Award, uma espé­cie de Oscar do mun­do das inven­ções. Seu trabalho a levou a ter participação – póstuma – no National Inventors Hall of Fame em 2014.

No documentário de 2017 produzido e dirigido por Alexandra Dean: “Bombshell: The Hedy Lamarr Story”, acadêmicos e historiadores de tecnologia, juntamente com a família, amigos e biógrafos de Lamarr, apresentam um retrato de uma mulher brilhante, desfeita pela fixação do mundo em seu famoso rosto – um retrato ainda mais afiado e comovente pela inclusão, por Dean, de fitas de áudio recém-descobertas de Lamarr como uma reclusa em seus setenta anos, alternadamente viciada em drogas e charmosa. 

Imperdível… futrica aí nas interwebs que você acha, ou de graça ou ao custo de alguns dólares.

Dean, cineasta, se apaixonou pela estória de Lamarr e declarou: 

“Eu acho que Hedy teve seu maior poder quando jovem – eu não acho que você pode vencer o poder de andar em um salão e ter todas as pessoas perdendo o fôlego ao vê-la. Mas ela não sabia o que fazer com esse poder. E, quando finalmente conseguiu fazer algo incrível para tentar mudar o mundo, ela obteve pouco ou nenhum reconhecimento por isso.”

Lamarr mor­reu sozi­nha, dormindo, aos 83 anos de idade em 19 de janeiro de 2000, em Casselberry, Flórida, sem que o mun­do tenha percebido como foi extra­or­di­ná­ria a sua vida e a sin­gu­laridade de sua per­so­na­li­da­de.

O Ex-Libris, um podcast rápido e ligeiro, hoje sobre Cultura, acabou. 

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Saúde, paz, grato pela companhia e até a próxima.

Ex-Libris, inteligência com propriedade.